[Dica da semana] Websérie “Positivos” quebra tabu ao tratar HIV com naturalidade

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Existem 490 mil brasileiros infectados com HIV no Brasil, de acordo com a organização especial da ONU para a Aids. Então por que não se fala no assunto? A Aids permanece como um tabu, como o câncer foi no passado. Não se toca no seu nome, como se a simples menção à doença já fosse atrai-la. E, como tudo que não é discutido, preza a ignorância – e o consequente preconceito.

Há uma webérie, porém, que trata do assunto com dignidade, profundidade e clareza – Positivos. Escrita e dirigida por Daniel Sena (da série “Apenas Heróis”), a trama acompanha um grupo de amigos portadores do vírus HIV e suas diferentes maneiras de lidar com essa condição. Sem qualquer patrocínio, o projeto independente carece de recursos técnicos, mas é muito interessante e envolvente mesmo assim. Três episódios já foram disponibilizados, e mais um está a caminho na semana que vem. Ao todo, serão cerca de dez.

Eu assisti os três em uma única coisa, e por isso essa é a dica da semana. Acima, coloquei uma foto do meu casal de personagens favorito: Guilherme e Bernardo, interpretados por Hugo Carvalho e Pedro Quevedo. Logo abaixo, você pode conferir um vídeo de divulgação de “Positivos” e, depois, uma rápida conversa que tive com o diretor. Para assistir aos episódios, acesse o site oficial: www.seriepositivos.com

De onde nasceu a ideia para esse projeto?
Daniel Sena – Então, eu já fiz outros projetos do gênero, mas senti a necessidade de tratar de algum tema de forma mais social e infelizmente a Aids é uma doença que atualmente é muito menosprezada pelas pessoas, uma vez que o avanço no tratamento “relaxou” a prevenção. Como eu vi um tio muito querido morrer em decorrência da Aids e convivi com alguns amigos portadores do HIV, achei que seria importante tocar no assunto, mostrando como as pessoas convivem e que é possível viver, apesar do diagnóstico.

Isso que eu ia perguntar, se você já tinha tido uma experiência próxima com a doença, porque a série traz várias informações, sendo um pouco didática também. Era essa a intenção?
Acho que a série foge um pouco do didatismo porque ela foca muito mais no psicológico dos personagens do que informações técnicas da doença, do vírus, mas é claro que em determinados momentos precisamos mostrar coisas técnicas e daí damos oportunidade das pessoas pesquisarem mais sobre aquilo. A AIDS ainda é uma doença que gera muito preconceito e as pessoas são muito mal informadas, sabem o básico e às vezes nem isso.

O objetivo então é quebrar o preconceito?
Em primeiro lugar, “Positivos” é um produto de entretenimento. Tem todos os elementos de um folhetim convencional, mas aborda um tema que é de relevância pra sociedade. Mas a minha vontade enquanto roteirista é sim de quebrar preconceitos e tabus mostrando situações que poderiam acontecer com qualquer pessoa. Os personagens podem facilmente retratar gente que esta perto de nós. Gosto da perspectiva de que os internautas estarão discutindo, refletindo sobre as tramas e questionando também.

E qual o feedback que você já está recebendo?
Todos os dias recebemos mensagens das pessoas apoiando o projeto e contando suas histórias. É uma prova de que estamos no caminho certo. Muita gente sugere situações ou coisas que ainda não abordamos. Muitos se identificam com as histórias, se veem retratados ali e o legal é que o público não é segmentado entre soropositivos e gays, porque a história se tornou universal. Esse é o bom da internet que nos permite essa avaliação imediata. Esta sendo emocionante porque lemos as histórias e os comentários das pessoas. Dá um gás.

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E você pensou em fazer algo específico para a Internet desde o início?
Sim. Desde o início o projeto foi pensado para internet. O custo e a liberdade de expressão contaram muito pra isso. Leva muito tempo para que uma ideia como essa chegue até a televisão, é um processo longo e qual emissora de TV teria a coragem de exibir um produto como “Positivos”?

Eu vi que vocês não contam com nenhum patrocínio, e todo mundo trabalhou de graça. Foi difícil reunir a equipe e o elenco?
O elenco se entregou de tal forma que facilitou muito nosso trabalho. A princípio eu convidei alguns atores, através do Facebook, e expliquei o projeto. Eles aceitaram fazer parte do grupo. Depois, tivemos uma reunião presencial e o elenco foi completado através dos contatos que cada um tinha. Todos entenderam a dimensão do projeto e que não tinham 1 real. O equipamento de gravação foi uma câmera e um microfone que conseguimos emprestado de um aluno de cinema da PUC, o Mateus Cabral que passou a auxiliar na finalização da edição e dando a assistência. Daí eu gravava, dirigia, escrevia o roteiro e todos contribuíam de alguma forma para suprir as deficiências técnicas e dificuldades que apareciam. Foi uma “barra pesada”, mas valeu a pena no final.

Mas você tentou formas de financiamento para o projeto ou decidiu desde o início pela independência?
A principio tentei sim, mas sempre esbarramos na burocracia. Depois, as empresas não se interessam muito por produzir algo especifico para o público gay. Muitas ficam na promessa, então, resolvi juntar gente que quisesse fazer acontecer mesmo com as limitações que podíamos ter. E fizemos. Pode não ter ficado 100%, mas com o que tínhamos em mãos fizemos muito e provamos que se tivermos apoio daqui pra frente podemos ir ainda mais longe.

E para divulgar, tem encontrado espaço?
Ah sim, temos recebido um apoio interessante da mídia. E os internautas que assistem acabam fazendo pressão a medida que o número de acessos aumentam. Esse processo tem sido prazeroso pra gente, porque é meio que um carimbo de que conseguimos atingir nossos objetivos.

Você falou que teve um tio e outros amigos quem tinha Aids. Os personagens foram inspirados em alguém?
O que posso dizer com certeza é que o Hernandes (Carlo Porto) é como eu via o meu tio. A história dele não é a do meu tio, mas é como eu imagino que ele agiria e era o jeito que ele passava pra mim, principalmente o de lidar com o HIV. O Hernandes é uma homenagem a uma das pessoas mais importantes da minha vida e que enfrentou a doença de forma incrível e viveu bem até quando pode. E talvez, o Guilherme tenha muitos traços de um grande amigo meu, que morria de medo de se relacionar com as pessoas por ser HIV positivo. E cada um dos outros personagens tem um pouco de histórias que vi através de relatos, conhecidos…

Ótimo. Obrigado, Daniel. Tem mais alguma coisa que você acha que seja importante falar?
Só que a trilha sonora da série é composta por músicas de artistas independentes e que cederam gentilmente as músicas para o projeto. E agradecer o apoio que as pessoas tem nos dado! Tem sido importante pra todos os envolvidos no processo!

capanova

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