[Dica da semana] “Fim” – Fernanda Torres

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Passeava entre os corredores da livraria quando vi “Fim”, da atriz Fernanda Torres. Já havia escutado sobre o livro em uma entrevista que ela deu recentemente para o Jô Soares, então o tomei da prateleira para dar uma olhada. Li o primeiro parágrafo e comecei a rir. Não tinha jeito: tinha que comprar. Comprei.

Fernanda escreveu sobre a morte – o fim ao qual se refere o título – e principalmente sobre a vida. O livro acompanha os momentos finais dos amigos Álvaro, Ciro, Ribeiro, Sílvio e Neto desde a juventude até a velhice (ou, melhor, da velhice à juventude). Ela narra a morte de um a um; de trás para frente. Partindo do princípio de que a morte é a única certeza da vida, o livro dispensa qualquer expectativa quanto ao seu desfecho, e entrega logo no primeiro capítulo quem foi o último a morrer (Álvaro, velhinho, ranzinza). Sabemos de antemão que todos morrerão, e o interessante é saber como viveram.

Ela foi perspicaz nesta abordagem, porque a vida também é assim. A morte é o que dá valor à existência de cada um de nós. A última página de todo ser humano é basicamente igual, e o que nos torna diferentes um dos outros é como vivemos. Álvaro, por exemplo, é um típico velho chato, que enterrou todos os amigos, invejando uns e em dívida com outros. É cômico para quem lê, mas um tédio para quem convive. Já Ciro era pura energia e morreu novo, com dezenas de viúvas no velório. Ah, o Ciro…

Chama a atenção também a capacidade da Fernanda Torres de dar diferentes vozes para cada personagem – parece que seu talento de atriz respingou na literatura. As histórias são narradas em 1ª pessoa por cada um dos homens, e eles não são confundíveis em nenhum trecho. Cada um tem uma personalidade e um timbre muito próprios. E Fernanda é uma mulher, meu Deus! Em nenhum momento, soa como uma mulher escrevendo na pele de um homem. São todos muito masculinos, aliás.

Fernanda também não é mórbida. Não é uma leitura depressiva ou alentadora sobre o fim da vida, e sim uma perspectiva bem humorada. Como eu esperava de um livro dela, com certeza. O humor é seu forte. Ela faz isso muito bem. Espero que ela dê continuidade à carreira literária, porque começou com o pé direito. Mais merda pra ela!

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Cumprimentar ou não cumprimentar?

É verdade que sinto uma ponta de humilhação ao escrever um texto sobre você, para você. Depois de tanto tempo. É difícil admitir que ainda me lembro de você, porque eu gostaria de fingir que me esqueci. Talvez você tenha me esquecido, o que é ainda pior. Se você me esqueceu, depois de tudo que fez, é vexatório que eu ainda escreva esse texto. Mas eu sou assim, e sei que você sempre me teve na mão (até mesmo quando eu pensava que era ao contrário). Então, vá lá.

Dia desses, te vi de costas no shopping. A cor da pele, o cabelo, a altura, o tipo de roupa – tive certeza de que era você. Meu coração acelerou, e isso me irritou. Como você ousa me causar qualquer tipo de reação depois de tanto tempo? Que droga! Pensei: te cumprimento ou não te cumprimento? “Cumprimento, e mostro o quanto deixei tudo para trás” ou “não cumprimento, porque você não merece qualquer tipo de cordialidade?”. Não era a primeira vez que eu me via diante dessa decisão. Na última vez em que nos vimos, optei por fingir que não te conhecia. Na época, eu não tinha a menor condição de me aproximar e apertar sua mão, te tocar. Você ainda era minha kryptonita. Mas, depois, passou. Tinha certeza que poderia te cumprimentar quando te visse. Só que aí veio a aceleração no coração… e me balançou.

Se eu não conseguia controlar meus batimentos cardíacos quando te via, eu tinha mesmo te superado? Não nego, às vezes fantasio sobre uma reconciliação, até o momento em que esbarro nas recordações do meu sofrimento. Não quero passar por aquilo de novo. Não só com você – com ninguém – mas especialmente com você. Não te daria a chance de brincar comigo de novo. Só que não tenho mais mágoas. Eu te perdoei, embora você nunca tenha pedido desculpas. Toma seu perdão. Tá garantido. Não desejo seu mal, longe de mim. Mas também não esqueço. De nada. Para que te cumprimentar, afinal? O que ganharíamos com isso? Por outro lado, por que não? O que perderia?

Por que sou eu que tenho que cumprimentar, aliás? Você que cometeu todos os erros. Não seria me rebaixar – POR MAIS QUE EU TENHA DEIXADO TUDO PARA TRÁS – ainda me reaproximar? Eu posso até enxergar isso como superioridade, mas talvez você interprete como “que cachorrinho!”. Era só o que me faltava. Decidi: falo com você, se você falar comigo. Se você esboçar uma abertura, até sorrio em reconhecimento, mas de longe. Se você quiser, que venha até a mim. Acho justo.

Acredito que você não vai ter a audácia. Só agora noto que uma garota te acompanha. Duvido que você vá se expor. Acho que você não confia em mim. Não vai se arriscar à possibilidade de eu causar um climão. Você sabe que, quando quero, sou bom nisso. Mas eu não quero. Juro. A menos que você queira esticar conversa… isso seria demais. Há limite para tudo. Até para minha cordialidade. Não abuse da minha boa vontade. Pode vir, mas saiba a hora de se afastar. Por favor.

Quando você se vira, tenho esse posicionamento bem definido: falo com você, se você falar comigo. Penso em disfarçar que ainda não te vi, para deixar que você me veja primeiro. Mas não dá tempo. Você se vira e, bem, você não é você. Era só alguém parecido. Enganei-me. Acontece, não acontece? Não é como se eu estivesse te buscando por aí. Nem pensava mais em você, até achar que estávamos no mesmo ambiente. Pelo menos já sei como será quando isso acontecer de verdade.

Lulu Santos mostra reflexo do “The Voice Brasil” com público renovado em show no Rio de Janeiro

Lulu Santos fez um show com ingressos esgotados no Citibank Hall, no Rio de Janeiro, na chuvosa noite de sexta (22/11). Até aí, nenhuma novidade: suas apresentações no local sempre dão lotação máxima (tanto é que ele repetirá a dose no sábado). O diferencial fica por conta da configuração deste público – cada vez mais família, desde que ele assumiu a poltrona vermelha do “The Voice Brasil”.

Quem acompanha o cantor sabe que seus shows sempre foram um programa para jovens casais. Vale destacar o episódio especial da série “Os Normais”, quando Rui (Luis Fernando Guimarães) e Vani (Fernanda Torres) fazem a maior bagunça enquanto Lulu canta. Só que isso mudou. Os casais ainda estão lá, claro – eles jamais abandonarão o artista – mas agora levam seus pais e filhos. Havia mesas com famílias completas, dos avós aos netos, e todos igualmente entusiasmados. Parecia impossível, mas Lulu Santos está cada vez mais popular.

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Perspicaz, ele agrada a todos com a chamada “Toca Lulu”. No show, há desde batida de funk a cover de Roberto Carlos (“Como é Grande o Meu Amor Por Você”). Baião, samba, carnaval carioca e, obviamente, muito pop – está tudo ali, entre os seus inúmeros hits. Ele consegue cantar todas as músicas que o público quer ouvir, e se reinventando em cada uma delas, que ganham novas roupagens, mas se mantêm reconhecíveis.

Vaidoso, Lulu Santos se alimenta de cada aplauso – e pede mais. Ao mesmo tempo, ele também está cada vez mais generoso com sua banda. Há vários trechos inteiramente instrumentais e músicas que ele praticamente deixa nas mãos dos backing vocals (“Condição”). Todo mundo tem seu momento, sem perder a coesão. Rola até uma música nova, que ele esqueceu de dizer o nome. “Acabei de fazer. Vou arriscar”.

Quando as duas horas de show chegam ao fim, nota-se que a plateia aceitaria emendar outras duas. As 25 músicas da setlist conseguem deixar um gostinho de “quero mais”. Mas Lulu vai embora, afinal no dia seguinte tem mais. Mais show, mais ingressos esgotados, e mais famílias querendo ouvir o técnico do “The Voice” ao vivo.

SETLIST

01) Toda Forma de Amor
02) Um Certo Alguém
03) O Último Romântico
04) Condição
05) Tudo Azul
06) A Cura
07) Apenas Mais Uma de Amor
08) Vale de Lágrimas
09) Aquilo
10) Satisfação
11) Música nova
12) Um Pro Outro
13) Sincero
14) Adivinha o Quê
15) Tudo Bem
16) Sábado à Noite
17) Já É
18) Aviso aos Navegantes
19) Assim Caminha a Humanidade
20) Sereia / De Repente Califórnia / Como Uma Onda

BIS

21) Certas Coisas
22) Como É Grande o Meu Amor Por Você (Cover Roberto Carlos)
23) Tão Bem
24) A Casa
25) Tempos Modernos

Originalmente postado no Portal POPLine.
http://portalpopline.com.br/lulu-santos-mostra-reflexo-do-the-voice-brasil-com-publico-renovado-em-show-no-rio-de-janeiro/

[Dica da semana] “Cine Holliúdy”

Cine Holliúdy valeria o ingresso mesmo que fosse um filme ruim – e não é. Afinal, qual foi a última vez em que se ouviu falar de um filme essencialmente cearense, independente e legendado fazendo sucesso? Ele chegou ao sudeste em 43 cópias* na última sexta (15/11), com a certeza de já ser um sucesso: vendeu 446 mil ingressos* no norte e nordeste. Mais do que isso: o filme teve orçamento de R$ 1 milhão e arrecadou R$ 4,5 milhões* em seu lançamento regional. É para se comemorar.

Essa experiência prova que o cinema regional é possível e que o audiovisual brasileiro pode ir além do eixo Rio-São Paulo. Concentrações geográficas são comuns na indústria cinematográfica (vide Hollywood), mas o Brasil é culturalmente muito rico em sua diversificação para que apenas um polo emane conteúdo para todo esse território. O Brasil precisa ser conhecido e mostrado para nós mesmos, brasileiros. “Cine Holliúdy” chegou aos cinemas daqui, no sudeste, com legendas! É a prova de que nós não nos conhecemos dentro de um mesmo país. E precisamos nos comunicar, nos entender.

Mesmo que não emplaque no sudeste, não importa, o filme existe – e isso por si só é uma vitória para o cinema brasileiro. O sucesso que fez em sua região prova a carência de um povo de se reconhecer nas telas. “Cine Holliúdy” poderia ter sido produzido pela Globo Filmes, estrelado por atores do “Zorra Total” ou da “Porta dos Fundos”, e ser um blockbuster como tantos outros – mas não teria sua função social. Seria caricato, e talvez ofensivo. O que eu vi no cinema foi diferente: uma obra genuína, protagonizada por um tal de Edmilson Filho (na pele de Francisgleydisson). Fantástico! Ele me conquistou.

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O filme é cômico e tem vários momentos muito bons, até mesmo para mim que sou difícil de rir no cinema. Com referências aos Trapalhões e ao Mazzaropi, pode-se dizer que esse é o nosso “O Artista” ou “A Invenção de Hugo Cabret”, ou seja, nossa homenagem ao cinema, mas à história do cinema nacional. E, nessa onda de protestos recentes, vou além: é um tributo, mas também um puxão de orelha. “Cine Holliúdy” faz lembrar que existe uma produção regional, carente de escoamento. Quantos talentos como Edmilson Filho não são reconhecidos? Quantos não têm sequer mercado para trabalhar?

Espero que esse seja o início de uma nova fase, e que outros nomes chamem a nossa atenção. Que, num futuro próximo, possamos dispensar as legendas e compreender os diferentes Brasis. Pelo menos, uma sequência de “Cine Holliúdy” já está acertada, segundo o cineasta Halder Gomes (de “As Mães de Chico Xavier”). Estou ansioso.

*Dados retirados dos seguintes links:
http://g1.globo.com/pop-arte/cinema/noticia/2013/11/estreia-cine-holliudy-combina-giria-regional-com-humor-ingenuo.html
http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,cine-holliudy-traz-a-lingua-e-o-sucesso-do-ceara-ao-sudeste,1096248,0.htm
http://www.adorocinema.com/filmes/filme-219352/

[Dica da semana] As Verdades Que Ela Não Diz – Marcelo Rubens Paiva

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Ainda estou tomando posse novamente da minha rotina, e não me sinto muito abastecido de conteúdo para compartilhar. Assisti a um show da Fernanda Abreu, vi os filmes “Minha Vida Dava um Filme” e “Gravidade”, e li o livro As Verdades Que Ela Não Diz. Para a dica da semana, vou ficar com a obra do Marcelo Rubens Paiva (porque sei que todos já viram o filme do Alfonso Cuarón).

O livro foi lançado no ano passado, então muita gente pode ter lido também, mas sei que é desproporcional a relação entre leitores e espectadores. Eu fui apresentado à obra durante um debate na Bienal do Livro, do qual participou o autor – que, como você bem sabe, tem “Feliz Ano Velho”, “Malu de Bicicleta” e “E aí, Comeu?” no seu currículo. “As Verdades Que Ela Não Diz” é uma coletânea de contos sobre a relação homem-mulher, ora namorados, ora casados, ora amantes. Li na estrada e gostei muito.

Não vou negar que me incomoda um pouco a escrita escrachada do Marcelo Rubens Paiva. Não é vulgar, longe disso, mas não tem nada de sutil. O autor tem essa simpatia aguçada pela temática sexual, e narra tudo como o homem que é, sem papas na língua. Foi assim em “A Segunda Vez Que Te Conheci” – a história do repórter que vira cafetão – responsável pelo meu primeiro contato com o autor. E é assim nesses contos. Mas eles têm muito humor, o que suaviza tudo.

Ri sozinho lendo esse livro. Há vários trechos cômicos e contos inteligentemente irônicos. “Desavença Italiana” é particularmente bom e divertido. Vou até colar aqui. Vai que assim te convenço a ler todo o resto. Retirei do site do Estadão:

Domingo. Se deliciavam no café da manhã, dia da semana em que tudo era permitido: queijo gordo, geleias, croissant, ovos com salchicha, até bacon. Combinaram na lua de mel em Cancún que em todos os domingos teriam um café da manhã digno de um resort mexicano.

Liam o jornal e se esbaldavam. Mas de férias de repente do nada ela se virou para ele e sugeriu depois de ler o caderno de economia: “Vamos nos separar?”

Ele estava com a xícara erguida. Deteve o movimento. Olhou pensativo. Deu um gole no café. Delicioso. Era ele quem o preparava como um connaisseur. Depositou a xícara sobre o caderno de esporte e respondeu: “Bora”.

Ela estendeu a mão para firmar o pacto: “Promete?”

Ele estendeu a sua. Apertaram, olhos nos olhos: “Prometo”.

Voltaram a ler o jornal. Ele abriu o caderno de cultura, e ela leu os editoriais. Depois de um tempo, ela comentou:

“Você aceitou tão rápido. Já tinha pensando nisso?”

“Na verdade, não. Tá vendo como mesmo depois de tantos anos você não me conhece?”

“Não conheço, mesmo. Achei que ia fazer um escândalo, tentar me convencer do contrário.”

“Tô de boa. Você sugeriu com tanta convicção, que achei que é a coisa certa. Senti isso. Reparou como a gente sempre sabe o que o outro está pensando antes de ele falar?”

“É o convívio.”

“Como você quer fazer?”

“Não pensei nisso ainda.”

“Posso ir prum flat.”

“De boa?”

“Sempre quis morar num. Imagine… Você deixa o quarto uma zona, vai trabalhar, volta, e ele está arrumadinho.”

“Posso ajudar a decorar?”

“Lógico. Você tem um puta bom gosto. Por isso me casei com você. Entre outras coisas…”

“Tipo?”

“Ah, você é uma baita gostosa, linda…”

“Cê acha, é?”

“Puxa, agora que vou morar sozinho, vou falar palavrões. Acho tão avançado homem que fala palavrão, desprendido…”

Ela pegou na mão dele, colocou-a no seu rosto, beijou, abaixou para o peito. Ele fez carinhos neles, ela tirou e disse: “Achei que ia brigar pelo apê”.

“Nada de separação litigiosa. Acho coisa de gente rancorosa, mal resolvida…”

“Meu Deus, o que a gente fala pras crianças?!”

“Hum, boa pergunta. Precisamos de um motivo.”

“Bora dar um Google.”

“Motivos mais comuns em divórcios? Elas não são mais crianças, estão já namorando, na faculdade, daqui a pouco vão morar com amigos, fazer intercâmbio na Espanha. Estão se lixando para nós. Vão até gostar. Terão duas contas bancárias para explorar.”

“E pros amigos, o que a gente diz?”

“Vamos falar da crise dos sete anos. Sempre tem a desculpa da crise dos sete anos.”

“Mas nós somos casados há 20.”

“Vamos dizer que há 13 anos a gente não superou a crise dos sete.”

“Ninguém vai cair nessa.”

“É verdade. Vou dar um Google. Olha, só não vale falar que decidimos por causa da falta de tesão, que com o tempo diminuiu a frequência. Acho muito baixo-astral casal que se separa e sai espalhando que não transava mais, que pareciam dois irmãos na cama…”

“Até porque no nosso caso não é verdade. Nossa média é alta, comparada a outros casais.”

“Então, por que nos separamos?”

“Boa pergunta. Deixa eu ver… O que diz o Google?”

“A conexão tá lenta…”

“E se a gente não disser nada?”

“Como assim?!”

“Ué, se perguntarem, a gente faz aquela cara dissimulada, sabe? De gente fechada que não gosta de falar das suas intimidades.”

“Hum, você é tão esperto. Me dá um tesão. Por isso me casei com você.”

Ela o abraçou para trás e beijou o pescoço dele.

“Pensei que fosse por causa da minha barriga tanquinho.”

“Tanquinho industrial?”

Ela deu um apertão na gordura da cintura dele e começou a recolher a louça. Ele ficou se examinando, se apalpando, se olhou no reflexo da janela: “Preciso emagrecer. Agora que sou um divorciado de meia-idade disponível no mercado”.

“Relaxa. Mulheres não ligam pra isso.”

“Não? E do que elas gostam? Conta outra…”

“De cara interessante.”

“Será que sou um cara interessante?”

“Você vai catar geral, será seletivo ou dará um tempo sozinho?”

“Não me decidi. Posso catar geral?”

“Por mim… Exceto minhas amigas, OK?”

“Por que não?”

“Nem vem!”

“Estou pensando em partir pra outra geração.”

“Que faixa?!”

“Dez anos a menos, no máximo.”

“Ufa, que susto. Tudo bem. Deve ser interessante pegar uma geração diferente, outros costumes, bandas, gírias, lugares, bares. Contanto que não seja a geração dos nossos filhos. É doente, isso.”

“E você?”

“Não planejei nada. Mas…”

“Fala.”

“Ai, tenho vergonha…”

“Pode se abrir. A gente é amigo agora.”

“Você não vai me zoar? Tá bom, eu falo. Eu queria pegar, sei lá… Outra mulher. Pronto, falei.”

“Uau! Que legal.”

“Ah, nunca fiquei. Me sinto uma careta. Hoje em dia é tão normal. Deve ser uma experiência diferente. Já levei cantadas de umas mulheres bem interessantes. Gatas.”

“Você sente atração?”

“Não sei explicar.”

“Mas você não vai virar lésbica, nem coisa do tipo.”

“Sei lá. Por quê?”

“Porque daí teríamos o motivo. ‘Ah, se separaram porque ela é gay, sempre foi, desde pequena, ficou anos casada com aquele cara, mas no fundo gosta de mulher’.”

“E daí? Deixa falar. Te incomoda? Antigamente até iam pensar, ‘pô, o cara é tão devagar que a mulher trocou por outra, o cara nem sabe fazer direito’. Hoje em dia as pessoas estão mais abertas. Até a sua turma do clube.”

“Dane-se. Eles vão é morrer de inveja quando me ver na piscina com uma gata dez anos mais nova com um baita corpão e um biquininho mínimo…”

“Bobo. Você nem vai na piscina com medo de pegar doença de pele, seu hipocondríaco!”

Riram. Terminaram de lavar a louça. Começaram a enxugar.

“O título do clube fica com quem?”, ela perguntou.

“Se tiver algum entrave no estatuto, pode ficar pra você. Vou pegar um flat com piscina.”

“Boa. Posso vender o meu carro? Não aguento mais esse trânsito. Tô pensando em andar só de bicicleta agora.”

“Coisa de sapata.”

“Hiii, começou a gozação.”

“Ah, acho bacana. Alguém tem que fazer alguma coisa pelo planeta.”

“E os livros?”

“A gente divide: o que eu não li fica pra mim e vice-versa.”

“Os móveis?”

“Posso ficar com a LCW? É design do Charles Eames. Deve caber no flat.”

“Olha só… Não sabia que você era ligado em design.”

“Você não sabe muita coisa de mim, baby. Tem cem anos que o cara desenhou essa poltrona. É um clássico.”

Começaram a guardar a louça. Ele desmontou a cafeteira italiana, tirou o pó, limpou, a segurou um instante. Perguntou: “Posso ficar com a cafeteira?”

“Oi?”

“Não consigo tomar café de outra.”

“Foi tio Modesto quem me deu.”

“Eu sei.”

“É uma Moka legítima.”

“Hoje em dia qualquer supermercado vende.”

“Então compro uma.”

“Só consigo fazer café nesta daqui.”

“Não.”

“Não o quê?”

“A cafeteira não sai daqui.”

“Me apeguei a ela. É a única coisa que estou pedindo, além da LCW.”

Disputaram a cafeteira.

“Me dá aqui. Quer fazer cafezinho nela pra sua Lolita, seu pedófilo. Não vai!”

“Solta! Você não vai usar a herança do tio Modesto com um sapatão, sua degenerada!”

Cada um segurou uma parte dela. Até ela se dividir, e ambos rolarem pelo chão. Cena patética presenciada pelos filhos recém-chegados à porta da cozinha.

O resultado foi óbvio. Não se separam, pois não queriam abrir mão daquele bem. Estão casados até hoje. Nunca mais tocaram no assunto. Única diferença é que ela ficou mais gostosa depois que começou a andar de bike, e ele perdeu a barriga proeminente graças à natação no clube. E começou a falar palavrão.

O paraíso tava logo ali e eu desconhecia…

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Fui a Búzios no último fim de semana. Pela primeira vez. Aos 24 anos. Essa era uma das vergonhas que eu tinha como carioca: nunca ter visitado essa cidade. Passei a infância indo a Rio das Ostras e a Arraial do Cabo, mas nunca havia esticado até Búzios. Afinal, eu era uma criança. Não tinha autonomia, nem culpa. Digo até que nem interesse. Mas cresci, e passei a ter.

Águas passadas, de qualquer forma, porque, como eu disse, eu finalmente estive em Búzios. E fiquei encantado. Maravilhado. As praias são indiscutivelmente lindas, até para mim que não sou muito fã de praia. Nunca fui, na verdade. Mas daquelas lá, eu virei fã. Areia limpa, mar cristalino, brisa boa. É tudo muito bem preservado. Galera bonita e educada.

E tem a Orla Bardot, a Rua das Pedras… Que delícia passear por ali! Eu fiquei hospedado em uma pousada naquela região do centro, então passava por ali toda hora. Recarrega as energias ter aquela paisagem, aquela vibe, te envolvendo. Eu nunca pensei em ter casa de veraneio, já que não sou do tipo praiano, mas morri de vontade de ter uma casinha em Búzios. Durante os dias que passei lá, eu só conseguia pensar que queria voltar todo fim de semana. Estar lá, para mim, foi como dar uma grande desacelerada. Eu sabia que estava necessitado desse momento de pausa, mas não imaginava o QUANTO precisava disso. Búzios recarrega as energias, e é o mais próximo de paraíso que eu conheci. Deixou Angra dos Reis e Viña del Mar para trás (é engraçado que eu não goste de praia, mas admita que as cidades mais bonitas são as que vivem de praia).

Lá eu conheci o verdadeiro significado de cidade turística. Não é como o Rio de Janeiro, que também é tida como uma cidade turística. Em Búzios, parece que todo mundo é turista, que todos estão de passagem. São tantos sotaques, tantos idiomas, tantas origens, que é difícil acreditar que alguém mora mesmo lá. Mas aí eu tive a oportunidade de conversar com um nativo, e ele me mostrou outro lado da história.

– Que sorte morar nesse paraíso!
– Ah, você enjoa…
– Como assim? – choquei – Não tem do que reclamar!
– Búzios é legal para vir e ir embora. Morar aqui é tedioso.

Insatisfeito com as declarações, busquei argumentos contrários na minha imaginação. “Tem gente do mundo inteiro aqui… Dá para conhecer muita gente… Tédio?”. Mas ele logo me explicou que não era bem assim. E é óbvio. Eu não queria ver, de tão apaixonado que estava, como turista. Búzios, por exemplo, tem só uma sala de cinema – com uma ou duas sessões por dia, e não é todo dia. A programação se limita de quinta a domingo, com dois filmes em cartaz. Isso é um problema para mim… claro! Em termos de programação cultural, aliás, é tudo muito precário.

Entendi o que ele me disse. Repito: Búzios é o verdadeiro significado de cidade turística. Isso porque ela é feita para os turistas – e apenas para eles. O foco é quem está em trânsito, e não quem a habita, aparentemente. As praias, os passeios de barco, as lojas da Rua das Pedras… é tudo muito interessante para quem está de visita. Para quem mora, perde-se o interesse mesmo. Mas eu sou turista, né. Então, sigo enamorado…

[Dica da semana] Websérie “Positivos” quebra tabu ao tratar HIV com naturalidade

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Existem 490 mil brasileiros infectados com HIV no Brasil, de acordo com a organização especial da ONU para a Aids. Então por que não se fala no assunto? A Aids permanece como um tabu, como o câncer foi no passado. Não se toca no seu nome, como se a simples menção à doença já fosse atrai-la. E, como tudo que não é discutido, preza a ignorância – e o consequente preconceito.

Há uma webérie, porém, que trata do assunto com dignidade, profundidade e clareza – Positivos. Escrita e dirigida por Daniel Sena (da série “Apenas Heróis”), a trama acompanha um grupo de amigos portadores do vírus HIV e suas diferentes maneiras de lidar com essa condição. Sem qualquer patrocínio, o projeto independente carece de recursos técnicos, mas é muito interessante e envolvente mesmo assim. Três episódios já foram disponibilizados, e mais um está a caminho na semana que vem. Ao todo, serão cerca de dez.

Eu assisti os três em uma única coisa, e por isso essa é a dica da semana. Acima, coloquei uma foto do meu casal de personagens favorito: Guilherme e Bernardo, interpretados por Hugo Carvalho e Pedro Quevedo. Logo abaixo, você pode conferir um vídeo de divulgação de “Positivos” e, depois, uma rápida conversa que tive com o diretor. Para assistir aos episódios, acesse o site oficial: www.seriepositivos.com

De onde nasceu a ideia para esse projeto?
Daniel Sena – Então, eu já fiz outros projetos do gênero, mas senti a necessidade de tratar de algum tema de forma mais social e infelizmente a Aids é uma doença que atualmente é muito menosprezada pelas pessoas, uma vez que o avanço no tratamento “relaxou” a prevenção. Como eu vi um tio muito querido morrer em decorrência da Aids e convivi com alguns amigos portadores do HIV, achei que seria importante tocar no assunto, mostrando como as pessoas convivem e que é possível viver, apesar do diagnóstico.

Isso que eu ia perguntar, se você já tinha tido uma experiência próxima com a doença, porque a série traz várias informações, sendo um pouco didática também. Era essa a intenção?
Acho que a série foge um pouco do didatismo porque ela foca muito mais no psicológico dos personagens do que informações técnicas da doença, do vírus, mas é claro que em determinados momentos precisamos mostrar coisas técnicas e daí damos oportunidade das pessoas pesquisarem mais sobre aquilo. A AIDS ainda é uma doença que gera muito preconceito e as pessoas são muito mal informadas, sabem o básico e às vezes nem isso.

O objetivo então é quebrar o preconceito?
Em primeiro lugar, “Positivos” é um produto de entretenimento. Tem todos os elementos de um folhetim convencional, mas aborda um tema que é de relevância pra sociedade. Mas a minha vontade enquanto roteirista é sim de quebrar preconceitos e tabus mostrando situações que poderiam acontecer com qualquer pessoa. Os personagens podem facilmente retratar gente que esta perto de nós. Gosto da perspectiva de que os internautas estarão discutindo, refletindo sobre as tramas e questionando também.

E qual o feedback que você já está recebendo?
Todos os dias recebemos mensagens das pessoas apoiando o projeto e contando suas histórias. É uma prova de que estamos no caminho certo. Muita gente sugere situações ou coisas que ainda não abordamos. Muitos se identificam com as histórias, se veem retratados ali e o legal é que o público não é segmentado entre soropositivos e gays, porque a história se tornou universal. Esse é o bom da internet que nos permite essa avaliação imediata. Esta sendo emocionante porque lemos as histórias e os comentários das pessoas. Dá um gás.

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E você pensou em fazer algo específico para a Internet desde o início?
Sim. Desde o início o projeto foi pensado para internet. O custo e a liberdade de expressão contaram muito pra isso. Leva muito tempo para que uma ideia como essa chegue até a televisão, é um processo longo e qual emissora de TV teria a coragem de exibir um produto como “Positivos”?

Eu vi que vocês não contam com nenhum patrocínio, e todo mundo trabalhou de graça. Foi difícil reunir a equipe e o elenco?
O elenco se entregou de tal forma que facilitou muito nosso trabalho. A princípio eu convidei alguns atores, através do Facebook, e expliquei o projeto. Eles aceitaram fazer parte do grupo. Depois, tivemos uma reunião presencial e o elenco foi completado através dos contatos que cada um tinha. Todos entenderam a dimensão do projeto e que não tinham 1 real. O equipamento de gravação foi uma câmera e um microfone que conseguimos emprestado de um aluno de cinema da PUC, o Mateus Cabral que passou a auxiliar na finalização da edição e dando a assistência. Daí eu gravava, dirigia, escrevia o roteiro e todos contribuíam de alguma forma para suprir as deficiências técnicas e dificuldades que apareciam. Foi uma “barra pesada”, mas valeu a pena no final.

Mas você tentou formas de financiamento para o projeto ou decidiu desde o início pela independência?
A principio tentei sim, mas sempre esbarramos na burocracia. Depois, as empresas não se interessam muito por produzir algo especifico para o público gay. Muitas ficam na promessa, então, resolvi juntar gente que quisesse fazer acontecer mesmo com as limitações que podíamos ter. E fizemos. Pode não ter ficado 100%, mas com o que tínhamos em mãos fizemos muito e provamos que se tivermos apoio daqui pra frente podemos ir ainda mais longe.

E para divulgar, tem encontrado espaço?
Ah sim, temos recebido um apoio interessante da mídia. E os internautas que assistem acabam fazendo pressão a medida que o número de acessos aumentam. Esse processo tem sido prazeroso pra gente, porque é meio que um carimbo de que conseguimos atingir nossos objetivos.

Você falou que teve um tio e outros amigos quem tinha Aids. Os personagens foram inspirados em alguém?
O que posso dizer com certeza é que o Hernandes (Carlo Porto) é como eu via o meu tio. A história dele não é a do meu tio, mas é como eu imagino que ele agiria e era o jeito que ele passava pra mim, principalmente o de lidar com o HIV. O Hernandes é uma homenagem a uma das pessoas mais importantes da minha vida e que enfrentou a doença de forma incrível e viveu bem até quando pode. E talvez, o Guilherme tenha muitos traços de um grande amigo meu, que morria de medo de se relacionar com as pessoas por ser HIV positivo. E cada um dos outros personagens tem um pouco de histórias que vi através de relatos, conhecidos…

Ótimo. Obrigado, Daniel. Tem mais alguma coisa que você acha que seja importante falar?
Só que a trilha sonora da série é composta por músicas de artistas independentes e que cederam gentilmente as músicas para o projeto. E agradecer o apoio que as pessoas tem nos dado! Tem sido importante pra todos os envolvidos no processo!

capanova

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