O acampamento no shopping

Ele estava no último andar do shopping, procurando uma amiga, da qual havia se perdido, quando entrou em um corredor inusitado. O chão estava tomado por colchonetes e sacos de dormir, com uma galera acampando. Ele achou estranho, claro, mas se lembrou dos jovens da Jornada Mundial, que viu dormirem no chão de uma galeria, e acabou aceitando rapidamente a situação apresentada. Havia pessoas dormindo também dentro das lojas, que não funcionavam, mas estavam com as portas abertas. Como faltava pouco para o shopping fechar, achou que pudesse ter algo a ver. O fato extraordinário deveria ter algum sentido, que não lhe competia saber.

Aos poucos, cruzou o corredor, pulando braços e pernas, e evitando pisar nos colchões. Ninguém parecia se incomodar com sua presença, nem se envergonhar por sua condição. Estavam ali por direito, parecia. Não era como se protestassem, também. Esticavam-se nos sacos de dormir no corredor do shopping como quem espreguiça na cama de um lar. Ele se lembrou de sua época de acampamento, que era ao ar livre, e sentiu um pouco de nostalgia.

Quando, por fim, chegou ao outro lado do corredor, percebeu que não havia saída. E sua amiga tampouco estava lá. Olhou para trás, para o caminho de volta que teria que fazer, e riu. Que situação. Ele queria cruzar aquilo de novo? Pegou o celular para enviar uma mensagem a ela (“Cadê você? Estou encurralado”), quando um dos acampados lhe convidou para se sentar em seu colchão. “Se não vai cruzar de volta, é melhor sentar”, disse. O garoto era bonitinho, ele notou. E simpático. Sentou-se.

Perguntou o que era aquilo tudo. “Um acampamento”. Mas no shopping? “No shopping. Por que não?”. Você acha isso normal?, perguntou, por fim revelando para si mesmo que não aceitava aquela surpresa. “Pra mim, é normal. Pra gente, é. Pra você não?” Não. Mas não disse isso. Sorriu. Achou graça. Gostava do garoto. Queria ficar mais tempo com ele. Não desejava mais ir embora. Quando vão levantar acampamento?, brincou. “Antes do shopping abrir amanhã”. Então temos a noite inteira pela frente? “Por que tantas perguntas?”.

Conversaram até cair no sono. Foi como se o diálogo não tivesse finalizado, mas sim sido emendado pelos sonhos. Ele sonhou com o garoto, como se a noite tivesse continuado em sua imaginação. Mas, quando acordou, o menino não estava mais lá. Não havia mais gente, não havia colchonete, não havia mais shopping. Assim, desperto.

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