Pelo direito à solidão

Ele só queria poder se voltar completamente para si mesmo. Invejava os autistas, que tinham a liberdade social para isso. O autismo, ele acreditava, era como um passe livre para se isolar do mundo sem repressão. Ele, por outro lado, era reprimido. Sentia-se desagradável, maluco mesmo, quando não conseguia interagir com os demais, quando não tolerava a ideia de ter que dirigir a palavra a alguém, quando queria enforcar quem falasse com ele. Sua cabeça explodia, mas ele não podia fazer nada, porque a vida é assim, e não dá para deletar quem lhe cobra participação. E as pessoas cobram mesmo.

Ele tem que sair no fim de semana, tem que ir a aniversários, tem que sorrir, tem que fazer rir, tem que se importar, tem que contar como anda a vida, tem que ter novidades, tem que estar presente. Mais do que isso: tem que desejar estar presente. E tudo o que ele quer é estar ausente – o que não consegue nem mesmo em casa. É o gato a miar, a mãe a chamar, o telefone a tocar, o celular a gritar. O computador é a forma que encontra para evitar conversas domésticas, mas fica suscetível ao acesso dos amigos. Se se cansa deles e vai para a cama, o que houve? Está doente? Está triste? Fala comigo.

Ele não quer falar. A questão é toda essa. Ele não quer! Então, tem que pegar um livro para ler, um jornal para se informar, um filme para ver, algo para assistir. Ele não pode simplesmente fazer nada. Senão, questionamentos, atenção, cobrança, mau humor, estresse. Ele quer se isolar, mas tem que ter desculpas para isso. Não é socialmente aceito preferir a solidão à interação. Quantas vezes já ouviu que ele não é normal? Não se importa. Não quer ser normal. Quer ser ausente.

Dar vida a verbos incessantemente cansa. Não é que ele odeie o mundo, que tenha fobia de pessoas. Ele só gostaria de poder se livrar de todas elas sempre que quisesse ou, melhor, só ter que estar com elas quando quisesse. Ah, as obrigações sociais… Filho, amigo, neto, namorado, irmão, inimigo, colega de classe, colega de trabalho, funcionário, chefe, affair, ex-namorado, ex-marido, tio, primo, argh! Quantos papeis. Quanto tempo gasto em interpretá-los.

Ele não se incomodaria de ser filho uma vez por mês, e amigo, quem sabe, a cada quinze dias – desde que a frequência não se tornasse rotina ou obrigação. Mas isso não é uma opção. Ele tem – veja bem, ele tem! – que ser filho, amigo, neto, namorado (…) simultaneamente e initerruptamente, sempre disponível, sempre de coração aberto. Não é como se pudesse dizer “ai, hoje não estou a fim de ser namorado”. Não! Ele tem que ser. Senão, vira uma loucura. É mais fácil se sabotar para cumprir os papeis sociais do que ter que enfrentar reclamações e reivindicações.

Mais fácil, porém ainda assim um sacrifício. Só dormindo ele encontra a si mesmo. Só dormindo ele tem paz. É só abrir os olhos que começa tudo de novo: solicitações, presença, cobranças, exigências. Por que parece tão fácil para os outros e para ele é tão chato? Dormir é como respirar, tomar fôlego para encarar os próximos passos. Mas ele gostaria de ter direito à solidão acordado. Desconectar-se. Quem sabe um dia. Ainda não.

IMG_4755

Responder a Pelo direito à solidão

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s