Um passo pra frente, um dois três quatro pra trás

Não gosto de discutir política, porque o debate sempre vira guerra – não no sentido literal da palavra, mas gera aqueles confrontos apaixonados de cabeças fechadas para ideias novas. É um desgaste que, no fim, deixa uns olhando feio para os outros. Evito. Mas eu leio jornal, tenho algumas opiniões formadas e, embora não seja um expert, também não sou nenhum alienado, eu acho. Essas manifestações que tomaram o Brasil desde a semana passada… são uma beleza! Li muitas críticas ao movimento, por que ele não tem um foco e um objetivo específico. Mas o que esperavam? Somos brasileiros. É o Brasil. Há muito do que reclamar, muito para exigir. Os protestos servem, no mínimo, para mostrar completa insatisfação e indignação com o governo. E, que isso esteja acontecendo durante a Copa das Confederações, é a prova de que o povo está cansado de se fazer de bobo.

A sociedade quer sentir orgulho de ser brasileira fora dos campos de futebol. Quer ir para frente, superar a corrupção desenfreada, ter retorno dos impostos pagos, evoluir. Mas, ao mesmo tempo, a Comissão de Direitos Humanos (presidida pelo não menos que detestável Marco Feliciano, que é apenas a testa de ferro de um grupo de políticos tão ou pior que ele) aprovou um projeto que permite psicólogos de promoverem tratamento para curar homossexuais – a chamada “cura gay”. Mas… curar de quê? A orientação sexual não é considerada uma doença ou um distúrbio psicológico desde 1973 pela Associação Americana de Psiquiatria. O “ismo”, que designa enfermidade, foi retirado da palavra homossexual”ismo”, por conta disso. O termo é incorreto desde 1990, quando foi retirado da lista internacional de doenças da Organização Mundial de Saúde. Há décadas, o correto é dizer homossexualidade. E, de preferência, respeitar. Clinicamente, heterossexualidade e homossexualidade estão em pé de igualdade. Mas, no dia-a-dia, sabemos que não é bem assim.

Focando especificamente no Brasil, felizmente, a luta pela igualdade de direitos tem avançado profundamente nos últimos anos, refletindo um panorama internacional. Conquistou-se o direito de união homoafetiva pelo Supremo Tribunal Federal e, mais recentemente, sua equivalência ao casamento civil pelo Conselho Nacional de Justiça – não sem algum estresse. E, agora, esse papo de “cura gay”. Que retrocesso! É completamente incoerente um país reconhecer o casamento entre pessoas do mesmo sexo e, um mês depois, querer tratar a homossexualidade como uma doença. O paradoxo só fica maior quando lembramos que a iniciativa partiu da Comissão de Direitos Humanos, que deveria lutar pelos direitos de, entre outros, da chamada comunidade LGBT (termo que desaprovo, mas utilizo por sua consagração). E não lutar contra ela.

Muito se fala de Feliciano (PSC-SP), que, na minha opinião, realmente é apenas o rosto de um grupo muito bem organizado e esquematizado. Sua nomeação e permanência no cargo – que nitidamente não lhe convém – é apenas mais uma articulação dos jogos políticos entre os partidos. Transcende e muito o indivíduo. E ele sabe disso. Ao ser contrariado pela ministra da Secretaria de Direitos Humanos Maria do Rosário, declarou:

“Para a ministra falar que vai colocar toda máquina do governo para impedir um projeto, acho que ela está mexendo onde não devia. Senhora ministra, juízo. Fale com a sua presidente, porque o ano que vem é político”.

É de uma arrogância típica de quem sabe que os jogos políticos são superiores aos interesses da população. Feliciano acha que faz o que quiser – sem risco de demissão – ignorando que o povo já está nas ruas criticando à máquina governamental. Mas, de qualquer forma, não foi ele que aprovou sozinho esse projeto. Ele não tem poder para isso. A notícia fica mais alarmante porque apenas dois deputados foram contrários ao absurdo na votação. Vale a pena destacá-los: Simplício Araújo (PPS-MA) e Arnaldo Jordy (PPS-PA).

O retrocesso – que contaria a resolução de 1999 do Conselho Federal de Psicologia – é considerado uma vitória da bancada política evangélica, o que também não é o caso. Não gosto de acreditar que qualquer pessoa esteja ganhando algo com isso. A crença religiosa não anula a orientação sexual. Há, acreditem, gays que são evangélicos, que foram criados na Igreja, e sofrem com o conflito do que são com o que acreditam. Esse projeto só alimenta o desprezo, contra o outro e contra si, em contrapartida do Deus da Bíblia, que pregou o amor ao próximo. Evangélicos têm filhos, irmãos, pais, primos, amigos e colegas de trabalho homossexuais, e não podem acreditar que eles estão doentes e passíveis de tratamento. Psicólogos, os que exercem a profissão com ética, podem ajudar esses entes a lidarem com sua condição, mas não torná-los quem não são. É como disseram: “Não há cura para quem não está doente”. Temo pelos filhos dos fundamentalistas.

Mas também não gosto de generalizar. Não são todos evangélicos que pensam como Feliciano. Aliás, acho lamentável que tenhamos que debater homossexualidade à luz de qualquer religião. São vertentes diferentes da vida de um ser humano. Somos um país laico e não podemos ser guiados pela religiosidade de quem está no poder em determinado momento. Sequer deveríamos nos importar com a religião dos governantes – que deveriam saber colocar isso à parte na hora de trabalhar. Religião e orientação sexual, aliás, não deveriam interferir no trabalho de ninguém. Esse seria o correto.

Mas não vivemos em um país correto. E é isso que queremos mudar. Não é a “cura gay”; não são os 20 centavos; não é Feliciano; não é Haddad; não é Paes; não é Alckmin; não é Cabral; não é Dilma/Lula. É tudo isso, é muito mais que isso, que é apenas a superficialidade da pilantragem. Reseta que o país quer construir essa história de outra forma.

Responder a Um passo pra frente, um dois três quatro pra trás

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s