Still Into You

Ele o viu do outro lado da rua e sorriu. Não era uma surpresa revê-lo, ele não poderia dizer isso. Sempre soube que o encontraria quando voltasse à cidade. Por isso nunca havia voltado, por isso retornou agora. Não era uma cidade pequena, mas também não era nenhuma São Paulo. Qual a probabilidade de ele desembarcar e embarcar ileso? Pouca. Nenhuma. No fundo, ele ansiava por esse encontro. Todas as idas aos shoppings, aos cafés e às galerias eram desculpas para estar na rua e permitir que o destino se cumprisse. Aquela viagem era uma desculpa.
Agora, que estavam se vendo, ele não sabia como agir – e o outro se aproximava, atravessava a rua justamente para falar-lhe. Deu-se conta de que tinha mãos e não sabia o que fazer com elas. Colocar nos bolsos? Na cintura? Roer unha? Deixar que uma segurasse a outra? Ele teria que usar a direita para cumprimentá-lo. É. Isso. Por que estava agindo como retardado? Já havia ensaiado essa cena tantas vezes. Não é como se fosse uma novidade. Ele simplesmente conhecia todos os rumos possíveis. Até havia escrito alguns, aqueles mais interessantes.
O outro exibia um semblante simpático de surpresa, com a boca aberta, com os dentes à mostra. Por que tanto espanto? Achou que nunca mais o veria? Tudo bem que ele havia dito isso – “Você nunca mais vai me ver na sua vida!” – mas o outro não podia ter achado que era verdade. Achou que ele nunca mais voltaria à cidade? Não era como se o outro fosse dono do território. Não mesmo. Ele não guiaria sua vida para evitá-lo. Não deixaria de viajar para lhe dar o prazer de sua ausência.
– Uau! – o outro estava mesmo surpreso.
Ele esticou a mão, meio sem jeito, percebendo que nunca havia ensaiado a linguagem corporal. O outro, ao que pareceu, achou o gesto insolente e o puxou para um abraço de camaradas. Julgava que tinham intimidade para isso. Ele não pensava mais assim.
– Você não mudou nada!
Ele não podia dizer o mesmo. O outro havia mudado. Tanto. Parecia mais homem agora. Sua postura era mais rígida, mais esguia, resultado de sua neurose em ser reto. A barba bem feita também lhe caía bem. Dava-lhe seriedade, ainda mais com aquele terno. O outro nunca havia usado barba antes. O amadurecimento lhe fizera bem, se ignorasse o fato dos cigarros. O outro havia voltado a fumar – dava para sentir o cheiro entranhado em sua roupa – e emagrecido por causa disso. Nenhuma semente havia ficado daqueles anos em que ele recriminou tanto o tabagismo. Uma pena.
– O que você está fazendo aqui?
Ele sabia que essa seria a primeira pergunta feita, e isso o irritava tanto! Não era da sua conta o que estava fazendo ali. Não lhe importava mais. Ele tinha o direito de transitar por onde bem entendesse, inclusive na rua do seu trabalho. Ele por acaso estava lhe perguntando por que havia voltado a fumar? Não, porque esse tipo de interferência agora era descabida. Cada um com seu cada um.
– A passeio. E você?
– Eu trabalho logo ali.
– Ah, é? Que legal. Parece que as coisas deram certo mesmo pra você.
– Pra você também. – o outro sorriu satisfeito. Parecia que estava gostando do encontro e da ideia de terem triunfado. Idiota. – Faz quanto tempo mesmo?
Dez anos. Completados ontem.
– Hum… Não sei. Cinco, seis anos?
– Que isso! Muito mais! Acho que dez. É, acho que dez anos.
– Será? O tempo voa… – dissimulou, mas estava contente pelo outro saber que eram dez anos.
Era estranho ouvir sua voz de novo, depois de uma década. Era desconfortável se olharem. Ele queria vê-lo, analisá-lo, quiçá estudá-lo, mas não assim, não animado, de forma recíproca. Essa proximidade o incomodava. Por que o outro parecia agir com naturalidade? O reencontro não tinha nada de natural. Era bizarro e, deu-se conta, desnecessário. Não sabia por que havia se proposto a isso.
– Veio sozinho?
– Não. Trouxe uns amigos.
Era mentira. Ninguém sabia que ele estava ali, porque todos julgariam seus motivos, e ele não queria que ninguém pensasse que aquela não era uma história superada. Publicamente, era. Ele havia tido outros relacionamentos depois daquele. Não fazia sentido – para os outros – ficar preso àquilo.
– Que pena que a gente perdeu contato. Por que isso aconteceu? Gosto tanto de você.
Da última vez, o outro o amava. Agora, gosta.
– A gente não perdeu contato. Você simplesmente não cumpriu com sua promessa e eu não podia fazer isso por você. – ele sabia que o meio da rua não era o local ideal para esse tipo de cena, mas precisava falar o que estava entalado. Só se controlou para não soar histérico.
– Que promessa?
O outro só podia estar brincando.
– Você só pode estar brincando. – ele o encarou, como se isso forçasse o outro a se lembrar de tudo que se confidenciaram no passado – Prometemos que seríamos amigos depois do término.
– Nós estamos conversando como amigos agora, eu acho.
Imbecil. Não resistiu a olhá-lo com desdém.
– Você não sabia nem se eu estava vivo ou morto. Isso não soa como amizade.
– Por favor, não estrague esse momento. Estava feliz de te rever.
Odiava esse jeitinho do outro de querer colocar panos quentes em vez de encarar os fatos. Ou essa mania de mostrar insatisfação com a sua irritação. Era como se o outro quisesse sempre roubar a cena. Quem estava irritado e indignado era ele, mas o outro fazia questão de dizer que não estava mais feliz… justamente por causa disso. Em vez de tentar consertar a situação, optava por apontar seu poder de estrago. Mas ele não deixaria o jogo ser virado assim tão facilmente.
– Depois que você começou a namorar o Carlos, esqueceu que eu existia. – ele sentiu que o outro ia dizer alguma coisa, mas continuou falando, aumentando o volume da voz para impedi-lo e inibi-lo – Eu entendo perfeitamente que ele não gostava de mim. Mas nós tínhamos uma promessa.
– Não vejo o Carlinhos há, sei lá, oito anos.
– Não estou nem aí para quem você tem visto ou não. Será que você não entende?
– Não, não entendo. Já passou tanto tempo. Por que você está falando comigo desse jeito?
É. Por quê? Ele não sabia por que ainda estava magoado, nem por que ainda pensava no outro depois de dez anos. Só sabia que havia cruzado a fronteira para encontrá-lo de novo. Havia passado os últimos dez anos tentando racionalizar seus sentimentos e suas sensações, e agora estava simplesmente seguindo seus instintos. Na falta de respostas, ironia:
– Desculpa se não trouxe flores.
– Eu gosto tanto de você. – o outro fazia aquela cara de cachorro abandonado, apostando em sua compaixão. Mas ele resistiria. Não entregaria os pontos facilmente. Queria perturbá-lo, dividir aquele tormento, que era tão seu, mas deveria ser deles.
– Não gosta nada. Você não me deu parabéns em nenhum aniversário meu.
– Você sabe que sou ruim com datas. Eu sempre lembrava atrasado.
– E foi frio todas as vezes que eu te desejei feliz aniversário. – ele fez aquela cara irônica. Tinha réplicas para tudo. O outro não venceria essa batalha. Não eram mais um time e ele havia aprendido a jogar sozinho. Venceria. Viajou para isso.
– Frio? Como frio? Eu me perguntava, todo ano, se você se lembraria da data.
– E eu me perguntava se finalmente a esqueceria.
– A gente nunca vai se esquecer um do outro. Desiste.
– Você se esqueceu.
– Não me esqueci. Todos meus namorados odiavam seu fantasma.
Ele sentiu uma ponta de prazer ao pensar que, de fato, havia causado alguns estragos.
– Eu sei que você não acredita. Sei que errei, que não cumpri a promessa, que fui um idiota. Mas você ainda é minha melhor referência de um relacionamento saudável. Você foi muito especial para mim. Isso não se apaga.
Ele ficou constrangido. Já havia pensado, nos seus ensaios, na possibilidade do outro dizer algo semelhante, mas essa era uma chance remota. De todos os desfechos para aquele encontro, esse parecia ser o menos crível. O outro estava falando como se fosse ele, desabafando-lhe o que ele já havia desabafado em anos de terapia, com as mesmas palavras. Abraçou-o. O outro riu.
– Você sempre achou que o meio da rua era o melhor lugar para fazer uma cena.
– Idiota.
Agora parecia que nenhum minuto havia se passado, quanto mais dez anos. Abraçados, implicando um com o outro, como sempre fizeram. Havia restado mais do que ele pensara daquilo tudo. Sentia-se com 20 anos de novo. Quase feliz. Satisfeito. Realizado. Talvez tudo o que ele quisesse aqueles anos todos, sem saber, era permitir-se aquele abraço cúmplice.
– Odeio te amar.
– Então não pense nisso.
E abraçados permaneceram por mais um rápido e silencioso minuto, até que tocasse o celular de um deles. A vibração no bolso os chamou de volta à vida e fez ambos perceberem sua capacidade de ignorar o mundo quando estava juntos. Voltaram a incomodar-se com o vai-e-vem de gente e com os constantes empurrões. Ouviram os barulhos do trânsito, o falatório e a agitação da cidade novamente. Até o cheiro da poluição ganhou importância. Era como se o relógio tivesse voltado a andar, e eles sabiam o que isso significava.

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