Carta do Tio Léo #6: Ivete, Condenáveis, monografia e o tempo

Oi querido(a) leitor(a) (se é que existe alguém aí!),

Junho foi uma loucura pra mim, e realmente espero que não tenha sido sequer parecido para você. Foram tantos altos e baixos que cheguei esgotado – em todos os sentidos – ao fim do mês. Mas, como sei que “não está fácil para ninguém”, não quero vir aqui me lamentar, embora isso pudesse ser bem divertido também. Eu gosto de reclamar. Não nego. Mas vamos falar de coisa boa! (e não é a iogurteira Top Therm)

Para começar, consegui entregar meu livro para o cineasta Matheus Souza e para a cantora Sandy. Agora, não tenho mais nenhuma cópia de divulgação em casa e preciso encomendar mais. Mas fiquei feliz com os destinos desses exemplares. A Sandy, pelo visto, não havia recebido o outro que mandei para ela naquela gravação do “Caldeirão do Huck” (onde será que foi parar, então?). Ela parecia surpresa de eu ter escrito um livro e foi convincente ao dizer que o leria. Espero que leia mesmo.

Estive com ela na gravação de “Um Banquinho, um Violão”, um DVD da Universal Music, com vários artistas. Foi um dos melhores encontros com a Sandy desde que eu era criança, porque senti que ela estava me respeitando como profissional, e isso é muito importante pra mim. Além dela, a Ivete Sangalo também estava lá e pude entrevistá-la, junto com mais dois repórteres. Ela é incrível! Ri do início ao fim com o jeito dela – totalmente elétrico. Ela não consegue se concentrar em nada, porque está ligada em tudo que acontece ao seu redor: quer tirar foto com todos, cumprimentar a todos, fazer a social com todos. É uma loucura! Deve ser difícil ser Ivete. Mas é por isso que todos gostam dela…

Também estive com a Anitta, essa cantora de funk melody que está fazendo sucesso com “Show das Poderosas”. Escrevi uma resenha sobre o show a que assisti, caso não tenha visto. Pude entrevistá-la rapidamente, e é legal presenciar um artista em ascensão, por mais que eu não seja fã do seu trabalho. É interessante poder analisar os erros e acertos do início de uma carreira. Uma amiga minha está trabalhando com ela (Erica, na foto acima), então só tenho motivos para torcer 😉

Mudando completamente de assunto, há a monografia. Consegui escrever mais do que esperava neste mês e estou finalizando o segundo capítulo, de certa maneira. O problema é que ando muito inseguro quanto a esse trabalho. Queria estar mais confiante sobre o que estou fazendo. Conversarei com meu orientador sobre isso. Tenho que acreditar no que estou fazendo, senão ninguém vai acreditar, né?

Que medo! Monografia da pós-graduação chegando ao fim! Como a vida corre… Tudo passa rápido demais. Acho que tenho um ritmo mais lento que o do relógio – deve ser herança biológica da família mineira da vovó. Minha impressão é que cresci rápido demais, estou envelhecendo rápido demais e o calendário anual é descartado rápido demais. Dá vontade de gritar “para!”. Não consigo fazer tudo o que quero desse jeito. Bate um desesperozinho imaginar que o tempo pode seguir, me deixando pra trás.

Eu sou a pessoa mais neurótica que conheço com relação ao avanço do tempo, mas não quero ficar falando disso aqui. Era para ser um post positivo. Só que eu me lembro que vamos entrar no SEGUNDO SEMESTRE e, bem, piro. Segundo semestre de 2013! 2013! Pisca só para você ver se daqui a pouco já não é 2023. Não me surpreenderia.

Até lá. Ou até julho mesmo,

Tio Léo

[Dica da Semana] Baixe “Condenáveis – Uma História de Filho e Pai” GRATUITAMENTE!

Não parece, mas é verdade: já faz um ano do lançamento do livro Condenáveis – Uma História de Filho e Pai. Para comemorar, decidi disponibilizar o e-book para download gratuito. Quem quiser receber o arquivo (em pdf), basta preencher o formulário abaixo. Agora, não tem mais desculpa para deixar de ler 😉

A sinopse, para quem ainda não conhece, é essa:

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FORMULÁRIO

Para quem não gosta de e-book, seguem as vendas do formato impresso aqui.

Pop nacional em inglês: Bernardo Falcone, Jullie e Filipe Guerra discutem a prática de gravar em outro idioma

Gravar em inglês é uma tendência cada vez mais forte para os artistas brasileiros, dispostos a conquistar o mercado internacional. Mas o assunto ainda é polêmico, principalmente no que se refere à música pop. Trabalhos como os da Wanessa, da Lorena Simpson e do P9, na língua inglesa, ainda podem ser chamados de “pop nacional”? Para responder essa questão, o POPLine conversou com o DJ e produtor Filipe Guerra, a cantora Jullie e o cantor e ator Bernardo Falcone.

Com o recém-lançado EP “Follow You” totalmente em inglês, Filipe Guerra defende a prática. “Isso é uma coisa que existe no mercado há 20 anos. Não é nem de agora. Todo mundo que faz música eletrônica sempre fez em inglês”, explicou. “Os italianos que fazem ‘dance music’, os romenos que fazem ‘dance music’, todos fazem em inglês, porque é uma linguagem mundial”.

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Bernardo Falcone concorda e também gravou seu primeiro álbum, ainda inédito, inteiramente em inglês. Para ele, é uma questão “estética”. Soa melhor aos seus ouvidos. “Combina com o pop, principalmente o eletrônico. Eu quero ouvir essas músicas nas pistas. Quero que todo mundo dance na noite”, explica. No single “Secret Place”, ele e Jullie fazem um dueto neste idioma. “Todo mundo fala ‘ai, pop em inglês, então não é pop nacional’. Mas todos os envolvidos são brasileiros, desde mim, que escrevo as letras, até o produtor. É cantado em inglês, mas é nacional. Tenho orgulho de ser brasileiro”, afirmou.

A parceira Jullie, no entanto, prefere gravar em português e foi o que fez no seu EP novo, chamado “Gasolina”. Mesmo assim, ela admite que às vezes as músicas soam melhores em inglês. “Para dançar na noite, ainda acho que existe um certo, não digo preconceito, mas uma resistência para a música em português. Mas isso está mudando. Se você chegar com um trabalho legal, acho que pode rolar também. Tanto em português quanto em inglês”, opinou.

Guerra também nota uma mudança no cenário musical. Para ele, as pessoas se atentam ao fato de brasileiros gravando em inglês justamente por causa da valorização internacional do país. O Brasil, afinal, está na moda. O português, por sua vez, já ganhou o mundo com Michel Teló e Gusttavo Lima. “E tem a Anitta agora. Meus amigos da Itália e de Nova York já conhecem suas músicas. Acredito que agora vai haver uma mudança”, apostou. “É que sempre tem que ter a primeira pessoa para dar a cara à tapa”.

Apesar disso, ele, assim como Falcone, não acha que as músicas são menos brasileiras por serem cantadas em inglês. O DJ garante que sempre insere elementos de sua nacionalidade em todos seus trabalhos. E não se privaria de fazer algo em português, como Jullie. Falcone também não. “As ideias vêm em inglês. Se viessem em português, abraçaria a oportunidade”, concluiu.

Por Leonardo Torres
Foto: Álvaro Velasquez
Postado no Portal POPLine
http://portalpopline.com.br/pop-nacional-em-ingles-bernardo-falcone-jullie-e-filipe-guerra-discutem-a-pratica-de-gravar-em-outro-idioma/

Resenha: Anitta – Chá da Anitta – Fundição Progresso

As cortinas se abrem e expõem o cenário de uma floresta encantada. Da parte superior da boca de cena, a personagem Alice cai no palco. Ainda suspensa, Anitta aparece em uma gaiola, vestida como a Rainha de Copas, e começa a cantar “Show das Poderosas”. É o início do “Chá da Alice” (que ganhou uma edição especial chamada “Chá da Anitta”) – festa temática que lotou a Fundição Progresso, no Rio de Janeiro, no fim da noite de sábado (22/6).

Fui parar lá a trabalho, com a missão de entrevistar a cantora, que tem sido associada às palavras “fenômeno”, “inovação” e “funk melody”. Ela, certamente, não faz minha cabeça e não é o tipo de música que eu ouço ou aprecio. Mas respeito todo e qualquer tipo de trabalho e, assim, lá estava eu – até um pouco curioso. Será que ela era mesmo isso tudo que diziam?

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Bem, Anitta é, de fato, um fenômeno: ingressos esgotados, casa abarrotada de gente, filas enormes, fãs com as músicas na ponta da língua. Não há dúvidas de que ela conquistou rapidamente um patamar invejável. De uma artista de nicho, ela vem se tornando cada vez mais mainstream, e isso se reflete também na sua produção. A estrutura do show não parece de iniciante. Os cenários são ousados e bem acabados; e, além da banda, há 25 dançarinos no palco. Número, aliás, exagerado. Às vezes, ela desaparece no meio de tanta gente.

Só que, pelo menos nesse show a que assisti, Anitta não trouxe nenhuma inovação, pelo contrário. O show-espetáculo existe na indústria brasileira há décadas. Sandy & Junior, por exemplo, ficaram conhecidos por esse formato, e a dupla não existe mais há seis anos. Musicalmente, Anitta também não traz novidades. Ela não é a primeira a propor um funk “família” – sem palavrões, temáticas explicitamente sexuais ou apologia ao tráfico de drogas. MC Koringa, Mc Bola, Mc Leozinho, entre outros, fazem o mesmo – com o potencial vocal nivelado por baixo, da mesma maneira. E Kelly Key? Lembra dela? Tenho a impressão de que Anitta faz e conquista o que Kelly fez e conquistou na década passada. Os produtores do seu álbum, aliás, são os mesmos do primeiro CD da então esposa do Latino. Inovação, então, deveria dar lugar para apropriação. Anitta é a Kelly Key contemporânea.

Isso é o chamado funk melody – ou pop funk, como define o verbete da Wikipedia: “estilo musical que faz grande uso de samplers e baterias eletrônicas”. Só que aí eu tenho que concordar com Anitta, que rejeita esse rótulo, porque o considera restritivo. No show, ela canta funk, pop, axé, rock. Kelly Key está entre os covers, mas Mariah Carey, Claudia Leitte e Los Hermanos também. Parece até que falta um norte para ela. Além disso, o número de covers é exagerado. Ela está prestes a lançar um álbum e se desculpa com o público quando canta “músicas novas”. Complicado. Optar por versões em vez do trabalho autoral pode ser ótimo para animar blocos – como Preta Gil – mas não para consolidar uma carreira e um nome.

De qualquer forma, erros são comuns no início da carreira. Na entrevista que fiz com ela, a própria admitiu que a convenceram a dar um passo para trás em suas ambições para o primeiro CD. “Eu queria chocar”, Anitta disse. Mas, em vez disso, ela só vai se apresentar ao país – o que é uma boa decisão. Ela está só começando e, se bem aconselhada, pode, sim, trazer algo inovador. Faltam bons mentores. Disposição para trabalhar a menina tem.

Alguns vídeos que fiz:

Entrevista: Anitta fala sobre seu primeiro álbum, próximo clipe, planos para DVD e alfinetada de Karol K.

Anitta só tem tempo para trabalhar, desde que se tornou um fenômeno nacional da indústria de shows. Frequentemente, ela faz até três eventos por noite. No sábado (22/6), foram dois: um show no Morro na Urca e outro na Fundição Progresso – ambos no Rio de Janeiro, ambos com ingressos esgotados. A correria é tanta que ela não tem tempo de ler todas as notícias que saem a seu respeito. Foi o POPLine que lhe contou sobre a declaração da cantora Karol K., ex-candidata do “The Voice” e do “Fábrica de Estrelas”, que a convocou para um desafio para ver “quem canta de verdade”. O convite, no entanto, foi rejeitado. “Olha, eu não estou na minha vida para competir, só para fazer o meu”, respondeu, entre risos.

De qualquer forma, ela não teria espaço na agenda para inserir o duelo. Anitta tem se dividido entre gravações de programas de TV; entrevistas para rádios; a turnê “Show das Poderosas”; apresentações menores, fora da turnê; gravações de videoclipes; preparativos para o lançamento do seu primeiro álbum, que chegará às lojas no dia 9 de julho; planos para gravar um DVD ao vivo no fim do ano… Ufa! A lista é interminável. “Eu só estou trabalhando, trabalhando, trabalhando. Dormindo um pouquinho e trabalhando, trabalhando, trabalhando”, constatou a artista.

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Ela, definitivamente, não para – como o título do seu próximo single. Na semana que vem, ela gravará o clipe de “Não Para”, que teve o roteiro escrito por ela mesma. É esse tipo de cuidado, acredita a cantora, que atrai o público gay, parcela majoritária do show que fez na Fundição Progresso, na festa “Chá da Anitta” (veja vídeos). “O público gay é muito mais crítico, né? Eles gostam do trabalho bem feito, dos detalhes, e eu cuido disso e eles acabam gostando”, disse.

– Essa festa é muito frequentada pela comunidade LGBT e você é muito querida pelos gays. Como é sua relação com esse público?
ANITTA:
Eu tenho muitos amigos gays, lésbicas e adoro todos meus amigos. Não faço diferença entre gay, lésbica, negro, branco… Eu faço diferença entre pessoa boa e pessoa ruim, sabe? Não importa a opção sexual ou a cor, nada. O que importa é o caráter. Não tenho essa diferença que a sociedade faz das pessoas com relação à opção sexual. Quando vejo essas palhaçadas de preconceito, eu fico pê…

– E por que você acha que é tão querida pelos gays?
ANITTA:
Talvez não só por isso, mas pelo que eu levo no show: o canto, a dança, o cenário. O público gay é um público mais crítico, né? Eles percebem tudo. Eles não estão ali só para beber e pegar um monte de gente. Eles gostam do trabalho bem feito, dos detalhes, e eu cuido disso e eles acabam gostando.

– Você está solteira. Como lida com o assédio, tanto dos homens quanto das mulheres?
ANITTA:
Olha, eu não sei como eu lido, porque não tenho muito tempo para lidar com isso. Eu só estou trabalhando, trabalhando, trabalhando. Dormindo um pouquinho e trabalhando, trabalhando, trabalhando. Quando eu tinha tempo, eu recebia mais cantadas, porque tinha tempo de ver as pessoas assediando. Hoje em dia, eu tenho muito menos tempo para ver, então parece que é menor [o assédio], mas sei que é bem mais. Eu é que não consigo captar.

– Falando em trabalho, você está prestes a lançar seu primeiro álbum. O que isso significa para você?
ANITTA:
É um início e uma conquista. Eu queria chocar, fazer um CD inovador, com um monte de coisas, e me abriram à cabeça para mostrar que não é em todo lugar que as pessoas sabem quem eu sou desde a primeira música. A gente fez um CD para me apresentar para o Brasil inteiro, com os sucessos que fizeram minha carreira acontecer e algumas novidades.

– Quanto tempo você trabalhou nesse álbum?
ANITTA:
Muito tempo, porque minha agenda foi apertando muito conforme meu trabalho foi bombando. Não dava tempo de colocar voz, de terminar uma produção… E muitos arranjos fui eu que projetei junto com meus produtores. Então, eu não tinha tempo para fazer isso. Minha agenda era muito apertada e aí demorou bastante.

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– Você já sabe qual vai ser a próxima música de trabalho e se vai ter clipe?
ANITTA:
Sabemos. O nome dela é “Não Para” e a gente vai gravar semana que vem. O roteiro do clipe é meu, mas não vou contar como é que vai ser. Está bem interessante, bem legal.

– E DVD? Vai ter esse ano?
ANITTA:
Então, primeiro eu vou lançar o CD agora, dia 9 de julho. Depois, bem no fim do ano ou início de janeiro, não me lembro direito, a gente vai gravar o DVD, já com todas as músicas do CD que a gente vai trabalhar ao longo do ano, e algumas novidades. Haverá algumas participações, para mostrar esse show em formato de espetáculo que a gente faz.

– Com quem você gostaria de fazer participações?
ANITTA:
Ah, eu ainda não vou falar, senão quebra o sigilo e as negociações que nem foram feitas ainda. Mas eu vou chamar pessoas que eu gosto, que eu admiro, que eu fui fã, enfim.

– Será o mesmo show da turnê que estreou neste mês?
ANITTA:
Não, a gente muda sempre. Só os da turnê “Show das Poderosas” que a gente tem feito igualzinho. A gente está sempre mudando e, no DVD, com certeza vai estar diferente.

– Uma cantora chamada Karol K. (ex-candidata do “The Voice”, do “Fábrica de Estrelas” e do “High School Musical – A Seleção”), que está sendo lançada pela Valesca Popozuda, deu uma entrevista falando sobre você hoje. Chegou a ler.?
ANITTA:
Não…

– Ela falou que não quer ser comparada a você. Mas, como comparam, ela propunha o desafio de colocar as duas no palco, com um violão e um microfone, para “ver quem canta de verdade”.
ANITTA:
Olha, eu não estou na minha vida para competir, só para fazer o meu. (risos) Tá?

Por Leonardo Torres
Fotos: Álvaro Velasquez
Publicado no Portal POPLine
http://portalpopline.com.br/entrevista-anitta-fala-sobre-seu-primeiro-album-proximo-clipe-planos-para-dvd-e-alfinetada-de-karol-k/

[Dica da Semana] Antes da Meia-Noite

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Coincidentemente, meu primeiro contato com a franquia de filmes “Antes do Amanhecer” (1995) aconteceu às vésperas da estreia do terceiro longa aqui no Brasil, o Antes da Meia-Noite (2013), que chegou aos cinemas no Dia dos Namorados. Um mês antes, li a sinopse de “Antes do Pôr do Sol” (2004) – o segundo da série – no verso do DVD em uma loja, assisti e me apaixonei. Valeu cinco estrelinhas. Então, descobri que havia um filme anterior, que deu origem àquilo tudo, e também o vi, aguardando ansiosamente pelo terceiro, que teve sua primeira exibição no Festival de Sundance. E eu gosto de Sundance.

Como disse, eu vi antes o segundo filme da franquia – que continua sendo meu favorito. Mas hoje quero falar do “Antes da Meia-Noite”, esse que está nos cinemas e você deveria ir assistir. Estrelado por Julie Delpy e Ethan Hawke, que dão vida ao casal Céline e Jesse, e também co-assinam o roteiro com o diretor Richard Linklater, o filme acompanha o casal em uma viagem à Grécia, 18 anos depois do seu primeiro encontro em um trem rumo à Viena.

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Logo na segunda cena, descobre-se que os dois se casaram após o segundo encontro, em Paris (retratado no segundo filme), e tiveram duas filhas. Assim, o espectador entende que eles tiveram uma vida em comum, finalmente, e que a gente perdeu isso! Ineditamente, não acompanhamos todos seus dias! É um cenário completamente novo, com os dois íntimos, envelhecidos e mais cômicos do que românticos – como acontece com toda relação de amor, que tende para a amizade com o passar dos anos. Sim, eles ainda estão apaixonados e, sim, ainda são nosso casalzinho favorito, mas agora eles se conhecem mais e se idealizam menos.

“Antes da Meia-Noite” traz tudo o que um relacionamento de anos pode trazer: ressentimentos, cobranças, rotina, cumplicidade, confiança e comprovação do amor. Basicamente, tudo o que eles não tinham nos filmes anteriores. Antes, as situações dos encontros eram muito especiais, com personagens muito realistas e carismáticos. Agora, as situações são realistas e carismáticas e eles que se tornaram especiais. Não há mais espaço para o ideal.

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A experiência, repito, é totalmente diferente dos roteiros anteriores. Até mesmo o título – “Antes da Meia-Noite” – induz ao erro. Agora, eles não têm mais um limite de tempo para passarem juntos, como no primeiro, que poderiam se conhecer até o amanhecer, ou no segundo, quando matariam a saudade até o anoitecer. Pelo contrário, agora têm uma vida inteira para trás e para frente. Dos anteriores, permanece a linguagem: os diálogos incríveis, as cenas longas, e o fluxo de pensamento oral da Céline. A segunda cena é um plano sequência interminável (de bom) dos dois dentro de um carro, dirigindo para o hotel. A sensação é a de assistir ao pay per view de um reality show.

Eu gostei e acho que você também vai gostar 😛 Caso não tenha visto os filmes anteriores, não tem problema. Dá para assistir independentemente disso. Mas, claro, tudo fica melhor se você conhece a história completa da trilogia. Os filmes são facilmente acháveis na Internet. Aproveite. São românticos, mas não são melosos, com potencial para agradar a todos. A dica da semana é essa.

Um passo pra frente, um dois três quatro pra trás

Não gosto de discutir política, porque o debate sempre vira guerra – não no sentido literal da palavra, mas gera aqueles confrontos apaixonados de cabeças fechadas para ideias novas. É um desgaste que, no fim, deixa uns olhando feio para os outros. Evito. Mas eu leio jornal, tenho algumas opiniões formadas e, embora não seja um expert, também não sou nenhum alienado, eu acho. Essas manifestações que tomaram o Brasil desde a semana passada… são uma beleza! Li muitas críticas ao movimento, por que ele não tem um foco e um objetivo específico. Mas o que esperavam? Somos brasileiros. É o Brasil. Há muito do que reclamar, muito para exigir. Os protestos servem, no mínimo, para mostrar completa insatisfação e indignação com o governo. E, que isso esteja acontecendo durante a Copa das Confederações, é a prova de que o povo está cansado de se fazer de bobo.

A sociedade quer sentir orgulho de ser brasileira fora dos campos de futebol. Quer ir para frente, superar a corrupção desenfreada, ter retorno dos impostos pagos, evoluir. Mas, ao mesmo tempo, a Comissão de Direitos Humanos (presidida pelo não menos que detestável Marco Feliciano, que é apenas a testa de ferro de um grupo de políticos tão ou pior que ele) aprovou um projeto que permite psicólogos de promoverem tratamento para curar homossexuais – a chamada “cura gay”. Mas… curar de quê? A orientação sexual não é considerada uma doença ou um distúrbio psicológico desde 1973 pela Associação Americana de Psiquiatria. O “ismo”, que designa enfermidade, foi retirado da palavra homossexual”ismo”, por conta disso. O termo é incorreto desde 1990, quando foi retirado da lista internacional de doenças da Organização Mundial de Saúde. Há décadas, o correto é dizer homossexualidade. E, de preferência, respeitar. Clinicamente, heterossexualidade e homossexualidade estão em pé de igualdade. Mas, no dia-a-dia, sabemos que não é bem assim.

Focando especificamente no Brasil, felizmente, a luta pela igualdade de direitos tem avançado profundamente nos últimos anos, refletindo um panorama internacional. Conquistou-se o direito de união homoafetiva pelo Supremo Tribunal Federal e, mais recentemente, sua equivalência ao casamento civil pelo Conselho Nacional de Justiça – não sem algum estresse. E, agora, esse papo de “cura gay”. Que retrocesso! É completamente incoerente um país reconhecer o casamento entre pessoas do mesmo sexo e, um mês depois, querer tratar a homossexualidade como uma doença. O paradoxo só fica maior quando lembramos que a iniciativa partiu da Comissão de Direitos Humanos, que deveria lutar pelos direitos de, entre outros, da chamada comunidade LGBT (termo que desaprovo, mas utilizo por sua consagração). E não lutar contra ela.

Muito se fala de Feliciano (PSC-SP), que, na minha opinião, realmente é apenas o rosto de um grupo muito bem organizado e esquematizado. Sua nomeação e permanência no cargo – que nitidamente não lhe convém – é apenas mais uma articulação dos jogos políticos entre os partidos. Transcende e muito o indivíduo. E ele sabe disso. Ao ser contrariado pela ministra da Secretaria de Direitos Humanos Maria do Rosário, declarou:

“Para a ministra falar que vai colocar toda máquina do governo para impedir um projeto, acho que ela está mexendo onde não devia. Senhora ministra, juízo. Fale com a sua presidente, porque o ano que vem é político”.

É de uma arrogância típica de quem sabe que os jogos políticos são superiores aos interesses da população. Feliciano acha que faz o que quiser – sem risco de demissão – ignorando que o povo já está nas ruas criticando à máquina governamental. Mas, de qualquer forma, não foi ele que aprovou sozinho esse projeto. Ele não tem poder para isso. A notícia fica mais alarmante porque apenas dois deputados foram contrários ao absurdo na votação. Vale a pena destacá-los: Simplício Araújo (PPS-MA) e Arnaldo Jordy (PPS-PA).

O retrocesso – que contaria a resolução de 1999 do Conselho Federal de Psicologia – é considerado uma vitória da bancada política evangélica, o que também não é o caso. Não gosto de acreditar que qualquer pessoa esteja ganhando algo com isso. A crença religiosa não anula a orientação sexual. Há, acreditem, gays que são evangélicos, que foram criados na Igreja, e sofrem com o conflito do que são com o que acreditam. Esse projeto só alimenta o desprezo, contra o outro e contra si, em contrapartida do Deus da Bíblia, que pregou o amor ao próximo. Evangélicos têm filhos, irmãos, pais, primos, amigos e colegas de trabalho homossexuais, e não podem acreditar que eles estão doentes e passíveis de tratamento. Psicólogos, os que exercem a profissão com ética, podem ajudar esses entes a lidarem com sua condição, mas não torná-los quem não são. É como disseram: “Não há cura para quem não está doente”. Temo pelos filhos dos fundamentalistas.

Mas também não gosto de generalizar. Não são todos evangélicos que pensam como Feliciano. Aliás, acho lamentável que tenhamos que debater homossexualidade à luz de qualquer religião. São vertentes diferentes da vida de um ser humano. Somos um país laico e não podemos ser guiados pela religiosidade de quem está no poder em determinado momento. Sequer deveríamos nos importar com a religião dos governantes – que deveriam saber colocar isso à parte na hora de trabalhar. Religião e orientação sexual, aliás, não deveriam interferir no trabalho de ninguém. Esse seria o correto.

Mas não vivemos em um país correto. E é isso que queremos mudar. Não é a “cura gay”; não são os 20 centavos; não é Feliciano; não é Haddad; não é Paes; não é Alckmin; não é Cabral; não é Dilma/Lula. É tudo isso, é muito mais que isso, que é apenas a superficialidade da pilantragem. Reseta que o país quer construir essa história de outra forma.

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