Batata quente

Você abriu a porta e entrou sem pedir permissão. Não gostei. Preferia que houvesse tocado a campainha e perguntado se podia entrar. Eu teria lhe dito para voltar mais tarde. Mas não. Você se impôs e disse que tinha uma entrega para mim. Minha primeira entrega. Era um pacote grande. Enorme. Assustava-me seu tamanho.

Demorei a abri-lo. Tinha medo. Desconhecia seu conteúdo. Não sabia se seria capaz de lidar com aquilo. Pensei em nunca abri-lo, em enterrá-lo. Você nem se preocupou. Tinha certeza que eu abriria, mais cedo ou mais tarde. Não sei por que você confiava nisso, mas confiava. Você se instalou e exigiu espaço na cama de solteiro. Na minha cama de solteiro. Esparramou-se. Fiquei sem lugar. Você não fez perguntas. Deu-me coordenadas. “Aceite a entrega. Abra”. Eu abri.

Saiu uma criatura independente a voar. Voava alto, voava baixo, voava imenso. Eu nunca havia voado. Não sabia se queria, se devia, se podia. Precisava pensar. Mas você não deixou. Colocou-me para voar, com você, com a criatura. Voar era gostoso. Mas não era perfeito, porque eu não tinha controle do voo. Eu queria conduzir.

Você repetiu: a criatura é independente. Era ela quem nos levava, não nós que a conduzíamos. Mas eu queria controlá-la, domesticar seu voo, adequá-lo ao meu tamanho. Diferentemente de você, não me permitia voar dessa maneira. O prazer do início facilmente se tornou desconforto.

Eu tinha que assinar o recibo da entrega. Você me exigia a assinatura. Mas eu não queria mais voar. Não estava preparado para aquela encomenda que não pedi e chegou de repente. Preferi te devolvê-la, com toda sua perspectiva, seu universo, sua honestidade. Você podia levá-la para outra porta.

Oscar 2013: “Argo” ganha troféu de Melhor Filme, mas não é o grande vencedor da noite

oscar2012

Como você já deve ter ouvido falar, a estatueta de Melhor Filme do Oscar 2013 foi para “Argo” – o projeto que catapultou a carreira do Ben Affleck para outro patamar (embora eu desconfie que o prêmio tenha mais a ver com a rede social do George Clooney, co-produtor, do que com Affleck). O longa se tornou favorito na reta final da corrida para a premiação, após vencer todos os prêmios dos sindicatos de Hollywood. Mesmo assim, não se pode dizer que “Argo” foi o grande vencedor da cerimônia. Definitivamente, não.

O filme só venceu mais duas categorias, além da principal: Roteiro Adaptado (Chris Terrio) e Montagem. Fazendo um comparativo com “O Artista”, vencedor do ano passado, “Argo” teve uma vitória inexpressiva. O longa mudo, além da estatueta mais almejada, ganhou outras quatro – incluindo direção e ator, que são categorias importantes. “Argo” sequer conseguiu indicações a esses títulos, que dependiam do trabalho do Affleck, diretor e protagonista.

A ausência de indicação à categoria de interpretação não gerou controvérsias, porque ele é reconhecidamente um ator mediano, mas o mesmo não aconteceu com respeito à direção. Muitos acharam que ele merecia a nomeação e que a ausência desta inviabilizaria o troféu de filme. Faz sentido: como ser o melhor filme sem ter um dos melhores diretores? A Academia, no entanto, pensou diferente.

ang1

O prêmio de direção – e a maioria dos outros – foi para Ang Lee e “As Aventuras de Pi”. Sou suspeito para falar, eu sei, porque minha torcida declarada sempre foi para a história do Pi, que me encantou muito. Mas não há dúvidas: esse foi o grande vencedor da premiação. Além de faturar onze indicações (só perdendo para “Lincoln” com 12), “As Aventuras de Pi” levou quatro troféus para casa – sendo o de direção um dos mais desejados (tendo Steven Spielberg como concorrente).

“Lincoln”, ao contrário das expectativas, venceu só duas categorias, tornando-se o azarão do ano. Até “Os Miseráveis”, que não era um dos favoritos, se saiu melhor, com três troféus. Nem “Argo” nem “Pi”, no entanto, levaram os prêmios de atuação – como previsto. Daniel Day-Lewis (“Lincoln”), Jennifer Lawrence (“O Lado Bom da Vida”), Christoph Waltz (“Django Livre”) e Anne Hathaway (“Os Miseráveis”) foram os escolhidos. Nota-se uma divisão aleatória e diversificada. “Argo” venceu, mas não brilhou.

525409_10152637658715393_153852587_n

Confira a lista de vencedores:

Melhor Filme: Argo
Melhor Ator: Daniel Day-Lewis (Lincoln), que subiu no palco para fazer piadinhas
Melhor Atriz: Jennifer Lawrence (O Lado Bom da Vida), que levou um tombo
Melhor Diretor: Ang Lee (As Aventuras de Pi)
Melhor Ator Coadjuvante: Christoph Waltz (Django Livre), de novo com Tarantino
Melhor Atriz Coadjuvante: Anne Hathaway (Os Miseráveis), do famoso farol aceso
Melhor Roteiro Original: Quentin Tarantino (Django Livre), aparentemente querido
Melhor Roteiro Adaptado: Chris Terrio (Argo)
Melhor Filme Estrangeiro: Amor
Melhor Direção de Arte: Lincoln
Melhores Efeitos Visuais: As Aventuras de Pi
Melhor Fotografia: As Aventuras de Pi
Melhor Montagem: Argo
Melhor Maquiagem e Cabelo: Os Miseráveis
Melhor Figurino: Anna Karenina
Melhor Canção Original: “Skyfall” – Adele (007 – Operação Skyfall), que não foi aplaudida de pé
Melhor Trilha-Sonora: As Aventuras de Pi
Melhor Edição de Som: A Hora Mais Escura e 007 – Operação Skyfall
Melhor Mixagem de Som: Os Miseráveis
Melhor Longa-Metragem de Documentário: Searching For Sugar Man
Melhor Curta-Metragem de Documentário: Inocente
Melhor Curta-Metragem: Curfew
Melhor Longa Animado: Valente
Melhor Curta Animado: Paperman

Momentos da noite:

736685553

736739206

1852_268282523303745_506308821_n

Carta do Tio Léo #2: carnaval, “10 coisas que aprendi com ‘Condenáveis'” e amigo chileno

Oi, tudo bem?

Não sei que fevereiro vocês viveram, mas o meu voou, ainda mais com o Carnaval, para encurtar mais o mês. Não consegui ver minha Beija-Flor na Sapucaí neste ano (e ela não venceu o carnaval carioca de novo, o que muito me irrita), mas me diverti bastante. Assisti aos desfiles do Grupo A, fui a dois blocos (não é muito minha praia) e a uma festa no Circo Voador, com a bateria da azul-e-branco de Nilópolis. Lavei a alma nesta festa, cantando os sambas da minha escola.

É engraçado, porque muita gente se surpreende que eu goste tanto de carnaval. Dizem que não tem nada a ver comigo. Mas eu gosto tanto! Desde pequenininho. Quando criança, adorava me fantasiar – o que não faço mais – e exigia uma fantasia diferente a cada ano. Naquela época, minha mãe não me levava aos desfiles, mas íamos à Avenida Presidente Vargas para ver os carros alegóricos. Eu já era deslumbrado com aquela beleza – e já era Beija-Flor.

65575_10151452232821351_739423252_n

Ao contrário do que muitos pensam, a ideia de “fugir do carnaval” não combina comigo. É mais fácil ele fugir de mim do que eu dele. Adoro. Quando estou na Marquês de Sapucaí, sinto-me realizado. Para mim, carnaval é aquilo que eu vejo lá. A bateria toca na alma. É bom demais! Viajar é fora de questão. Ano que vem, quero desfilar. Botei isso na cabeça. Será que rola? Tomara.

Fora o carnaval, meu fevereiro não teve muito mais. Estou cheio de problemas, na verdade, o que tem me estressado bastante, mas não quero falar sobre isso. Vamos ser positivos aqui, que é o melhor que a gente faz. Saíram mais duas resenhas de “Condenáveis – Uma História de Filho e Pai”, ambas favoráveis. Uma foi Ideias de Canário, no qual a professora Carmen Marchado fez uma lista com as dez coisas que ela aprendeu lendo o livro (ficou muito legal! Vale a pena ver!), e a outra saiu no Palavras de um livro (leia aqui).

Não tenho muito a dizer dessa vez. Era para eu estar com um amigo hospedado aqui em casa, mas ele cancelou a viagem de última hora por problemas familiares. O conheci quando fui à Santiago, em 2010, e agora ele finalmente viria conhecer o Rio de Janeiro, como sempre quis. “Como faço para ir do Rio de Janeiro à Copacabana?” – me perguntou uma vez. hahahahah Figura.

Que venha março para todos nós! Curitiba, tô chegando… 😉

Obrigado pela atenção,

Tio Léo

[Dica da semana] Fazer bolão para o Oscar 2013, que acontece no domingo

OSCAR-2013-Promo-Poster-02

A dica da semana é fazer bolão com os amigos pra tentar acertar a lista de vencedores do Oscar 2013. Dá para preparar a pipoca, reunir a galera, se jogar no sofá e torcer pelos seus escolhidos! Para te ajudar, preparei uma listinha com os favoritos, baseada nos vencedores das principais premiações pré-Oscar.

Como foi acompanhado aqui no blog, corri contra o tempo para assistir ao máximo de filmes indicados e assim poder formar minha opinião. Então, além de dizer as apostas para os vencedores deste ano, também coloco embaixo para quem vai minha torcida. Façam suas listinhas também! Depois a gente compara 😉

MELHOR FILME
Aposta: “Argo”, que venceu todas as premiações importantes dos diversos sindicatos, mesmo sem conseguir uma indicação do Ben Affleck a diretor.
Torcida: “As Aventuras de Pi”, que foi o filme que mais encantou e impressionou neste ano.

MELHOR DIRETOR
Aposta: Steven Spielberg, porque “Lincoln” não deve levar o prêmio principal, apesar de ter sido o favorito por muito tempo.
Torcida: Ang Lee (“As Aventuras de Pi”).

MELHOR ATOR
Aposta: Daniel Day-Lewis (“Lincoln”), favoritíssimo.
Torcida: Daniel Day-Lewis.

MELHOR ATRIZ
Aposta: Jennifer Lawrence (“O Lado Bom da Vida”), vencedora do prêmio do sindicato dos atores.
Torcida: Quvenzhané Wallis (“Indomável Sonhadora”), que conduziu o filme sozinha com a maestria que muita gente grande não tem.

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Aposta: Tommy Lee Jones (“Lincoln”), também vencedor da premiação do sindicato.
Torcida: Robert De Niro (“O Lado Bom da Vida”) e o próprio Tommy Lee Jones.

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Aposta: Anne Hathaway (“Os Miseráveis”), mais que favorita.
Torcida: Anne Hathaway, porque está na hora de receber uma estatueta e porque não há interpretações indicadas à altura.

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Aposta: Mark Boal (“A Hora Mais Escura”), vencedor da premiação do sindicato dos roteiristas.
Torcida: Wes Anderson e Roman Coppola (“Moonrise Kingdom”), porque é um filme lindo e deveria ter sido melhor representado na premiação.

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Aposta: Chris Terrio (“Argo”), vencedor da premiação do sindicato dos roteiristas.
Torcida: David Magee (“As Aventuras de Pi”).

MELHOR FILME EM LÍNGUA ESTRANGEIRA
Aposta: “Amor”, que dificilmente não levará essa.
Torcida: “No”, que todos deveriam assistir, aliás.

Prefiro não opinar sobre as categorias técnicas, embora minha torcida seja assumida para “As Aventuras de Pi” (com exceção do figurino, que tem que ser de “Anna Karenina” – olha eu já dando pitaco!). Também não farei apostas para as categorias referentes às animações e aos documentários, porque não os vi. Então, a lista termina aqui. Os resultados oficiais, claro, serão divulgados lá em Los Angeles 😉

Maratona Oscar 2013: O Amante da Rainha

Esse post faz parte da maratona contra o tempo para ver o máximo de filmes possíveis antes da cerimônia do Oscar 2013, marcada para o dia 24 de fevereiro (acompanhe o processo)

Indicação: Melhor Filme Estrangeiro

Vi “O Amante da Rainha” no cinema na semana passada e esqueci de comentar minha opinião aqui. O filme – que representa a Dinamarca na disputa pela estatueta – é um típico de reinado, ou seja, jogando todos os podres da realeza no ventilador. Temos um rei louco, uma rainha adúltera, um médico manipulador socialista, uma madrasta a fim de um golpe de Estado, enfim, todos os ingredientes típicos.

O filme não é ruim, mas também não é bom, porque dá a impressão de que você já o assistiu antes – milhares de vezes. De forma alguma, equipara-se a “No” (Chile), “Amour” (França) ou “War Witch” (Canadá), os outros longas concorrentes ao título de Melhor Filme Estrangeiro. Todos são menos óbvios e apresentam elementos mais originais.

En-kongelig-affære

Maratona Oscar 2013: A Hora Mais Escura

Esse post faz parte da maratona contra o tempo para ver o máximo de filmes possíveis antes da cerimônia do Oscar 2013, marcada para o dia 24 de fevereiro (acompanhe o processo)

Indicações: Melhor Filme, Atriz (Jessica Chastain), Roteiro Original, Edição e Edição de Som.

“A Hora Mais Escura”, de todos os filmes indicados à categoria principal do Oscar 2013, era com certeza o que eu menos queria ver. Tanto é que deixei para a reta final da maratona. A proposta de um filme sobre a caça ao Bin Laden não me atraiu, ainda mais dirigido pela Kathryn Bigelow – do premiado “Guerra ao Terror” (2008), que detestei. Mas, no fim das contas, essa foi mais uma surpresa feliz do ano. Gostei.

Trata-se de mais um filme político – e um filme político norte-americano, do jeito que eles gostam (como “Lincoln” e “Argo”). No caso, eles são meras vítimas do terrorismo, dispostos a fazer justiça (a sua justiça) com o grande vilão, que é a Al-Qaeda. Para isso, busca-se o extermínio do líder Osama Bin Laden. Qualquer opinião discordante disso não coube no roteiro – o que já o faz menos merecedor dos títulos de Melhor Filme e Roteiro Original para mim. Para eles, isso é um mérito.

Há, no entanto, muitos pontos positivos. A história começa em 2001, após o atentado de 11 de setembro, e vai até 2011, quando os EUA conseguem assassinar Bin Laden, e essa passagem de tempo é muito bem dirigida. O amadurecimento dos personagens, que ficam mais duros, frios e estressados ao longo da história, também é muito bem explorado, principalmente na personagem principal – a agente da CIA Maya. Jessica Chastain está ótima no papel, que conduz toda a trama.

A atriz não está encantadora como Quvenzhané Wallis (“Indomável Sonhadora”), tocante como Emmanuelle Riva (“Amor”), arrebatadora como Naomi Watts (“O Impossível”), nem delirante como Jennifer Lawrence (“O Lado Bom da Vida”). Mas fez um trabalho belíssimo em sua sutileza. A última cena do filme é muito específica da obsessão da personagem por solucionar o caso – mas a Academia provavelmente escolherá um dos momentos explosivos para mostrar na premiação. Pena. De qualquer forma, ela e o filme dificilmente ganharão qualquer estatueta. Não tem força para isso.

movies_zero_dark_thirty_still_3

[Dica da semana] “Love For $ale”, música nova do Jamie Cullum

jamiecullum

Mais de três anos após o lançamento do álbum “The Pursuit”, Jamie Cullum está com trabalho novo. O cantor, compositor, instrumentista e, desde 2010, locutor de rádio liberou uma música inédita em seu site oficial para download gratuito (para baixar, clique aqui). A faixa se chama “Love For $ale” e tem participação do rapper Roots Manuva.

Como tudo que já ouvi do Cullum, a música é muito boa! Já viciei. Tem toda aquela ginga e elegância dele, acompanhadas da sujeira do Roots Manuva, que ficou muito boa também. Brincar com os diferentes estilos, aliás, é algo que o Cullum faz muito bem (lembra da versão de “Don’t Stop the Music”, mil vezes melhor que a original?). Para completar, “Love For $ale” já tem clipe, que também está incrível. Vamos assistir?

As novidades envolvendo o inglês incluem ainda a mudança de gravadora (da Decca Records para a Island Records) e um novo CD. As notícias são que o álbum já está finalizado e seu lançamento será anunciado nas próximas semanas. Ansiosos? Eu estou.

Sem mais publicações