[Dica da semana] Livro “A Visita Cruel do Tempo”, da Jennifer Egan

A dica desta semana é um livro que eu li no ano passado e fiquei maravilhado. Se chama “A Visita Cruel do Tempo” e foi escrito pela estadunidense Jennifer Egan. Todo mundo deveria ler. De verdade. Sério. Pra ontem.

Segue um texto que escrevi sobre a obra para um trabalho da pós:

a_visita_cruel_do_tempo_jennifer_egan

Ausência de travessões ou aspas para indicar falas. Confusão entre a voz do narrador e a do personagem. Parênteses de mais de um parágrafo. Alternância no foco narrativo. Narrativa não-linear. Mas, mais do que tudo isso, o descompromisso com qualquer padrão – inclusive esses. Jennifer Egan continua quebrando os paradigmas da linguagem em “A Visita Cruel do Tempo” (A Visit From The Goon Squad, 2010), sem perder o encantamento típico de suas obras. Não é à toa que o livro ganhou o Prêmio Pulitzer de Ficção em 2011 – uma aprovação oficial para todas as suas esquisitices, que podem indicar tanto um novo caminho como a consagração de uma vertente alternativa.

As peculiaridades da autora tornam difícil até mesmo o enquadramento do livro em um gênero: são contos interligados ou um romance não-linear? Podem ser os dois. Cada capítulo é focado em um personagem diferente, em uma trama específica e em um momento distinto da cronologia – que vai de 1970 a “um futuro próximo” (estimado em 2020) – não nesta ordem, claramente, senão não seria Egan. Os personagens ora são protagonistas, ora são coadjuvantes, em episódios que vão de um safári na África aos bastidores da indústria musical em Nova York.

Se a autora apostou em um protagonista evidente em “O Torreão” (The Keep, 2006), cuja narrativa também ia e vinha cronologicamente, ela foi além em “A Visita Cruel do Tempo”. Todos os personagens são responsáveis por conduzir a história, sem ser o centro da trama, e estão, de alguma maneira, conectados uns aos outros por encontros e desencontros. Essas conexões e suas consequências no destino de cada pessoa são o tema do livro, que se apropria das redes de contatos do Facebook (há críticas diretas ao site e às relações contemporâneas na trama), reproduzindo-as em suas páginas. O filme “360”, dirigido por Fernando Meirelles, fez algo parecido no cinema.

Ela é assim: de personalidade literária a prori despretensiosa e até equivocada, mas engenhosa e profundamente técnica para tornar viável e acessível uma narrativa complicada e cheia de costuras. A quebra dos paradigmas da linguagem não assusta o leitor, como poderia acontecer, mas o atrai e o encanta. É perceptível que cada parágrafo, cada linha e cada palavra têm uma razão para ter sido escrito como foi. Mais do que a temática, a autora e sua obra impressionam pela estrutura da narrativa. Altamente recomendável.

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