Atormentada

Sento para comer à mesa desse restaurante e te vejo cair vagarosa, discreta e elegantemente do lado de fora. Mesmo assim, enquanto levo a primeira garfada à boca, noto se incomodarem com sua presença. Você tenta não chamar a atenção, mas não passa despercebida. Nunca. Sua falta de jeito deixa as pessoas doentes.

Ouço algumas reclamarem da sua presença. Você não é bem quista aqui, não depois de tantos dias seguidos. Eles te julgam inconveniente, como um cachorro à espera de restos de comida. Neste momento, não te levo a mal, mas admito que também me estressei contigo ontem. Hoje não. Hoje você me traz boas lembranças. Na verdade, gosto de te observar. Sempre gostei. Mas assim, de longe.

Continuo almoçando e percebo sua irritação com a recepção dos demais. Agora, você se joga com mais força e quase se machuca. Suas quedas gritam e se multiplicam. Meu momento contrasta com o seu. Levo o copo de suco de maracujá à boca enquanto te vejo se espatifar de propósito. Não questiono seu comportamento. Já me acostumei.

Nem todo mundo é assim. Há quem corra ou se tranque para te evitar. Não te olham de frente, como eu faço. Ao contrário, tentam escapar da sua cena. Das suas cenas. Sei que você não fica satisfeita com isso. Você poderia vir menos frequentemente, com discrição, mas sua indignação não permite. Esse bullying te revolta. Você não parará até que te aceitem, não é isso?

Vale tudo para se fazer entender, até formar poças de sangue no chão. Você se sacrifica, se perde, se liquidifica, e revolta ainda mais os presentes. As pessoas se perguntam como sairão, com você assustando-as na rua. Atormentada com os comentários, você piora seu teatro barulhento, denso e incansável. A raiva dos outros aumenta a sua e vice-versa. É sempre assim.

Termino minha refeição e você está no que deve ser o clímax da sua histeria. Comporta-se como uma louca. Por isso te odeiam. Mesmo quando você chega serena, sabem que dificilmente irá embora sem os gritos e o sangue. Eu mesmo não sei se tenho disposição para passar por você, que vai querer me agarrar e me causar danos. Eu, que nunca te fiz nada.

Saio, pois não tenho outra opção, e você me agride. Aperto o passo e você me persegue, com gritos no meu ouvido. Tento te ignorar, porque o desdém é a melhor vingança, mas isso não funciona com você. Sinto como se houvesse alguém batendo tampas de panela no meu ouvido, em mim. Por isso te odeiam. Agora, você me traz memórias ruins. Nunca te fiz nada e, sem mais nem menos, você me molha.

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2 respostas para Atormentada

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