Carta do Tio Léo #1: Parapente, amizade à distância e livro

Oi queridos, tudo bem?

Hoje é o último domingo do mês e, como prometido, é dia “da carta do tio Léo” – a primeira de muitas, eu espero. Janeiro também passou incrivelmente rápido para vocês? Para mim, voou, infelizmente. Preferia que tivesse dado uma arrastada para que eu pudesse fazer tudo que tinha planejado (não fiz quase nada). Ainda choveu o mês inteiro, o que fez com que eu passasse a maior parte do tempo em casa.

Comprei um voo de parapente no fim do ano passado e não tive a chance de usá-lo. Choveu sempre que liguei para marcar. Incrível. O tempo parecia melhorar, eu telefonava e começava a chover de novo. Fiquei até com medo de que fosse uma espécie de aviso do destino para eu não me arriscar. Mas… eu quero voar! E voarei, possivelmente, no mês que vem. Ansioso.

Enquanto isso não acontece, desfruto de outras alegrias. Um superamigo de São Paulo está aqui no Rio, e eu me divirto muito sempre que nos encontramos. Além disso, também planejo ir à Curitiba conhecer pessoalmente um amigo de anos pela internet (já tô de passagens compradas!). Não gosto do termo “amigo virtual”, porque ninguém é virtual. Somos reais, com sentimentos de verdade. A convivência que pode ser virtual. Só isso. Não vejo nenhum demérito, aliás. Sou muito mais próximo de amigos geograficamente distantes, com quem mantenho contato pela internet, do que outros que vivem perto de mim. Qualquer desmerecimento nesse sentido é uma grande bobagem. O que importa é a vontade das pessoas de estarem perto.

Eu e Filipe, de Sampa, aqui no Rio

Eu e Filipe, de Sampa, aqui no Rio

Quando era novinho, tive a chance de conhecer uma garota chamada Rúbia, com quem tive uma amizade intensa e efêmera. O pouco tempo que passamos juntos foi o suficiente para que ela me passasse um ensinamento: o mundo é grande demais para ficarmos presos em um único lugar. A gente tem que circular, conhecer pessoas. Há muita gente incrível por aí. Eu que não vou deixar de manter amizades verdadeiras e sinceras com pessoas encantadoras só porque estão distantes geograficamente. Bobeira! Contra isso, a gente dá um jeito 😉

Mudando de assunto, também há novidades sobre “Condenáveis”. Saíram mais quatro resenhas: no Palavras ao vento (“Foi triste observar os momentos constrangedores que o Leonardo vivenciou”), no Ponto Livro (“…o autor tem talento para narrativa”), no Enquanto Escrevo um Livro (“Me fez pensar tanto esta leitura. Ficou um pedaço da história aqui comigo”) e no Magia Literária (“Posso dizer que o livro mexeu muito comigo. Me identifiquei muito com os pensamentos de Leonardo”). O interessante é que os blogueiros também passaram por conflitos com os pais, então pudemos ter ótimas conversas via e-mail. É bom que, ao compartilharmos nossas experiências, nos ajudamos. Esse livro está me fazendo conhecer muita gente fofa!

Há mais resenhas para sair neste ano. Muitos blogueiros estão com o e-book para ler e já fiz uma pressão neles para que não se esqueçam. De qualquer forma, o ano está só começando! 2013 será ano de monografia da pós, de esboço do livro novo, de muita coisa boa. Vamos torcer 😉

Abraço,

Tio Léo

Anúncios

[Dica da semana] Livro “A Visita Cruel do Tempo”, da Jennifer Egan

A dica desta semana é um livro que eu li no ano passado e fiquei maravilhado. Se chama “A Visita Cruel do Tempo” e foi escrito pela estadunidense Jennifer Egan. Todo mundo deveria ler. De verdade. Sério. Pra ontem.

Segue um texto que escrevi sobre a obra para um trabalho da pós:

a_visita_cruel_do_tempo_jennifer_egan

Ausência de travessões ou aspas para indicar falas. Confusão entre a voz do narrador e a do personagem. Parênteses de mais de um parágrafo. Alternância no foco narrativo. Narrativa não-linear. Mas, mais do que tudo isso, o descompromisso com qualquer padrão – inclusive esses. Jennifer Egan continua quebrando os paradigmas da linguagem em “A Visita Cruel do Tempo” (A Visit From The Goon Squad, 2010), sem perder o encantamento típico de suas obras. Não é à toa que o livro ganhou o Prêmio Pulitzer de Ficção em 2011 – uma aprovação oficial para todas as suas esquisitices, que podem indicar tanto um novo caminho como a consagração de uma vertente alternativa.

As peculiaridades da autora tornam difícil até mesmo o enquadramento do livro em um gênero: são contos interligados ou um romance não-linear? Podem ser os dois. Cada capítulo é focado em um personagem diferente, em uma trama específica e em um momento distinto da cronologia – que vai de 1970 a “um futuro próximo” (estimado em 2020) – não nesta ordem, claramente, senão não seria Egan. Os personagens ora são protagonistas, ora são coadjuvantes, em episódios que vão de um safári na África aos bastidores da indústria musical em Nova York.

Se a autora apostou em um protagonista evidente em “O Torreão” (The Keep, 2006), cuja narrativa também ia e vinha cronologicamente, ela foi além em “A Visita Cruel do Tempo”. Todos os personagens são responsáveis por conduzir a história, sem ser o centro da trama, e estão, de alguma maneira, conectados uns aos outros por encontros e desencontros. Essas conexões e suas consequências no destino de cada pessoa são o tema do livro, que se apropria das redes de contatos do Facebook (há críticas diretas ao site e às relações contemporâneas na trama), reproduzindo-as em suas páginas. O filme “360”, dirigido por Fernando Meirelles, fez algo parecido no cinema.

Ela é assim: de personalidade literária a prori despretensiosa e até equivocada, mas engenhosa e profundamente técnica para tornar viável e acessível uma narrativa complicada e cheia de costuras. A quebra dos paradigmas da linguagem não assusta o leitor, como poderia acontecer, mas o atrai e o encanta. É perceptível que cada parágrafo, cada linha e cada palavra têm uma razão para ter sido escrito como foi. Mais do que a temática, a autora e sua obra impressionam pela estrutura da narrativa. Altamente recomendável.

Maratona Oscar 2012: Hitchcock e Anna Karenina

Esse post faz parte da maratona contra o tempo para ver o máximo de filmes possíveis antes da cerimônia do Oscar 2013, marcada para o dia 24 de fevereiro (acompanhe o processo).

Admito publicamente que estou adiando o dia em que assistirei “Os Miseráveis” (odeio musicais) e “A Hora Mais Escura” (detestei o filme anterior da Kathryn Bigelow, “Guerra ao Terror”). Os verei, claro, mas na reta final da maratona. São os únicos que faltam para mim da categoria Melhor Filme. Enquanto isso, assisto aos que me interessam mais.

hitchcock-annakarenina

Hitchcokindicado a Melhor Maquiagem e Penteado

Gostei bastante, embora pareça um telefilme. Apesar do título, a trama é focada no relacionamento do cineasta com a mulher Alma Reville durante as filmagens de “Psicose”. Os intérpretes Anthony Hopkins e Helen Mirren, aliás, estão impecáveis no papeis. Quanto às maquiagens e aos penteados, só digo uma coisa: demorei muito para sacar que era Hopkins quem interpretava Hitchcock. “Quem é esse ator? Muito bom…”

Anna Kareninaindicado a Melhor Fotografia, Figurino, Trilha Sonora e Direção de Arte

O filme acabou e eu levei alguns minutos para decidir se havia gostado ou não. Fiquei com o não, porque foi uma experiência muito maçante. A convergência entre teatro e cinema, que me surpreendia sempre que era explicitada, é linda, de verdade. Fotografia, figurinos e direção de arte mereceram as indicações, porque são mesmo os melhores aspectos dessa produção. É muito visual (e conseguiram deixar o Jude Law feio!). Mas para por aí. A trama é arrastada e devagar, o que me deu a impressão de ‘encheção’ de linguiça. Anna Karenina (interpretada por Keira Knightley) é uma personagem tão rica e acho que merecia um filme mais empolgante.

Atormentada

Sento para comer à mesa desse restaurante e te vejo cair vagarosa, discreta e elegantemente do lado de fora. Mesmo assim, enquanto levo a primeira garfada à boca, noto se incomodarem com sua presença. Você tenta não chamar a atenção, mas não passa despercebida. Nunca. Sua falta de jeito deixa as pessoas doentes.

Ouço algumas reclamarem da sua presença. Você não é bem quista aqui, não depois de tantos dias seguidos. Eles te julgam inconveniente, como um cachorro à espera de restos de comida. Neste momento, não te levo a mal, mas admito que também me estressei contigo ontem. Hoje não. Hoje você me traz boas lembranças. Na verdade, gosto de te observar. Sempre gostei. Mas assim, de longe.

Continuo almoçando e percebo sua irritação com a recepção dos demais. Agora, você se joga com mais força e quase se machuca. Suas quedas gritam e se multiplicam. Meu momento contrasta com o seu. Levo o copo de suco de maracujá à boca enquanto te vejo se espatifar de propósito. Não questiono seu comportamento. Já me acostumei.

Nem todo mundo é assim. Há quem corra ou se tranque para te evitar. Não te olham de frente, como eu faço. Ao contrário, tentam escapar da sua cena. Das suas cenas. Sei que você não fica satisfeita com isso. Você poderia vir menos frequentemente, com discrição, mas sua indignação não permite. Esse bullying te revolta. Você não parará até que te aceitem, não é isso?

Vale tudo para se fazer entender, até formar poças de sangue no chão. Você se sacrifica, se perde, se liquidifica, e revolta ainda mais os presentes. As pessoas se perguntam como sairão, com você assustando-as na rua. Atormentada com os comentários, você piora seu teatro barulhento, denso e incansável. A raiva dos outros aumenta a sua e vice-versa. É sempre assim.

Termino minha refeição e você está no que deve ser o clímax da sua histeria. Comporta-se como uma louca. Por isso te odeiam. Mesmo quando você chega serena, sabem que dificilmente irá embora sem os gritos e o sangue. Eu mesmo não sei se tenho disposição para passar por você, que vai querer me agarrar e me causar danos. Eu, que nunca te fiz nada.

Saio, pois não tenho outra opção, e você me agride. Aperto o passo e você me persegue, com gritos no meu ouvido. Tento te ignorar, porque o desdém é a melhor vingança, mas isso não funciona com você. Sinto como se houvesse alguém batendo tampas de panela no meu ouvido, em mim. Por isso te odeiam. Agora, você me traz memórias ruins. Nunca te fiz nada e, sem mais nem menos, você me molha.

[Dica da semana] Maria Gadú no Circo Voador

maria-gadu_620X350

A dica da semana é o show da Maria Gadú. A cantora vai se apresentar no Circo Voador, no Rio de Janeiro, no sábado (19/1), com a turnê do álbum “Mais Uma Página”, que já passou pela cidade no ano passado, como resenhei. Mas Gadú nunca é demais e o ingresso está baratinho: R$70 (meia-entrada: R$35).

Além disso, o show terá as participações especiais do Cícero e do Paulinho Moska. Nos intervalos, também vai ter DJ Lili Prohmann. Tá bom demais!

Para quem não sabe, “Mais Uma Página” é o CD com as músicas “Oração ao Tempo” e “Axé Acappela”. Mas claro que os sucessos do primeiro álbum não ficarão de fora. Ou seja, tem que ir!

A quem não é do Rio de Janeiro e não pode ir ao show, a dica é ouvir esse dueto com Tony Bennett, que eu mesmo só conheci nesta semana:

Maratona Oscar 2012: O Lado Bom da Vida

Esse post faz parte da maratona contra o tempo para ver o máximo de filmes possíveis antes da cerimônia do Oscar 2013, marcada para o dia 24 de fevereiro (acompanhe o processo)

Indicações: Melhor Filme, Diretor, Ator, Ator Coadjuvante, Atriz, Atriz Coadjuvante, Roteiro e Edição.

Meus filmes favoritos são sobre humanos e suas relações intra e interpessoais. Não são necessários superproduções, efeitos especiais ou assassinatos a serem desvendados. As pessoas já são complexas demais e rendem material excessivo. Quando digo humanos não me refiro à humanidade. Gosto das histórias que se aprofundam nas singularidades de cada pessoa, muito mais do que aquelas que nos tratam como parte de um todo generalizado e homogêneo. “O Lado Bom da Vida” é do jeito que eu gosto.

Simpatizei com esse filme desde que li o primeiro argumento no ano retrasado e vi as primeiras fotos das filmagens, quando ainda trabalhava na Pipoca Moderna. Não entendia por que Bradley Cooper corria vestido com um saco de lixo e isso me inquietava a cada nova imagem que era divulgada pelos paparazzi. Em outras palavras, estava muito ansioso para assistir ao longa, com todo aquele risco de ter uma grande decepção. Mas não tive.

A trama acompanha a saída do Pat Solitano Jr. (Bradley Cooper) de um sanatório e sua tentativa de se reintegrar na sociedade, apesar de uma ordem de restrição de aproximação da sua ex-mulher, por quem ainda é apaixonado. Nesse contexto, ele conhece Tiffany (Jennifer Lawrence), uma vizinha que também tem seus problemas psicológicos, decorrentes da morte do marido. Parece simples, mas é encantador. O filme mergulha no que há de melhor e pior no ser humano, com todas suas peculiaridades gritantes.

New-The-Silver-Linings-Playbook-still-HQ-jennifer-lawrence-32277883-1200-724

É um merecido candidato ao Oscar, embora eu duvide que vença a categoria principal. Bradley Cooper, indicado a melhor ator, está surpreendente como eu nunca achei que fosse capaz de vê-lo. Meus parabéns. Isso conta muita para a Academia: quando você passa anos fazendo papeis babacas e, de repente, investe em um personagem complexo. Foi assim que Sandra Bullock garantiu o troféu dela. Já Jennifer Lawrence, que concorre pela segunda vez à melhor atriz, está ainda melhor que Cooper, mas foi indicada, de novo, em um ano disputadíssimo. Emmanuelle Riva (“Amor”), Quvenzhané Wallis (“Indomável Sonhadora”) e Naomi Watts (“O Impossível”) estão superiores. Ela terá que se contentar com o Globo de Ouro.

David O. Russell, o diretor, também não deve levar a estatueta, e o roteiro, incrível, terá que enfrentar “Argo”, “Lincoln”, “Indomável Sonhadora” e “As Aventuras de Pi”. Difícil. Sobre Robert De Niro e Jacki Weaver, indicados às categorias de coadjuvantes, prefiro não comentar ainda. Eles estão bons, sim, mas não sei se premiáveis. Eu amei – de verdade – “O Lado Bom da Vida”, mas acho que ele será o azarão da festa, infelizmente.

oladobomdavida

Maratona Oscar 2013: Rebelle (War Witch)

Esse post faz parte da maratona contra o tempo para ver o máximo de filmes possíveis antes da cerimônia do Oscar 2013, marcada para o dia 24 de fevereiro (acompanhe o processo)

Indicação: Melhor filme em língua estrangeira.

“Rebelle”/”War Witch”, apresentado na última Mostra de São Paulo como “A Feiticeira da Guerra”, é realmente bom (mas ainda prefiro “No”). A protagonista Rachel Mwana (premiada no Festival de Berlim) dá um show nas cenas mais fortes e nos delírios de sua personagem, e o roteiro do Kim Nguyen é muito bem amarrado.

O filme é, na verdade, muito bonito – principalmente no que concerne à parte estética. A fotografia é lírica, poética, delicada, contemplativa. Justamente por isso, senti certo incômodo, porque a temática pede outra abordagem. Esperava imagens mais duras, chocantes, desagradáveis. A trama conta a história de uma adolescente sequestrada para lutar em uma guerra civil na África após o assassinato dos seus pais. Ela aprende a manusear armas e assassinar desconhecidos, e é abusada sexualmente. Não há nada delicado nisso. Mas a direção dá um tratamento de conto de fadas à tragédia.

Outros filmes que abordam realidades cruéis, como “A Informante” (The Whistleblower), “Redenção” (Machine Gun Preacher) e os nossos brasileiros do gênero favela movie são mais felizes neste ponto. Não digo que sejam melhores que “Rebelle”, porque dificilmente seriam, mas são menos suaves, mais críveis. No entanto, o representante do Canadá no Oscar se diferencia por narrar a realidade da guerra civil africana a partir de um personagem nativo. As produções internacionais tem mania de querer contar essas histórias pelo ponto de vista de um observador estrangeiro. Disso, eu gostei.

rebelle1

Sem mais publicações