O mau humor da vendedora temporária

Era seu primeiro dia de trabalho, em uma Saraiva Mega Store. Foi contratada temporariamente, devido à demanda de Natal, e lhe pareceu bom começar o emprego novo em uma quarta-feira. Quem faz compras na quarta-feira, afinal? As pessoas trabalham durante a semana.

Trabalham e compram livros e CDs, ela logo descobriu. Foi colocada no setor de trocas; embalagem para presente; e pepinos pós-compra. Achou que seria um cargo melhor que caixa ou vendedora. Não era boa com a calculadora e jamais acharia nada naquelas estantes. Seu trabalho era mais tranquilo que esses, pensou. Enganou-se. Em um único expediente, já havia embrulhado mais presentes que em toda sua vida. Contou cinquenta, antes de se embolar com os números.

No seu setor, eram ela e mais duas funcionárias. As outras, experientes e efetivadas, lhe passavam as coordenadas e, mais vezes do que ela julgava aceitável, sumiam. Já era noite, ela estava doida para voltar para casa, e havia uma fila de dez pessoas para, supostamente, atender sozinha. Cadê aquelas vacas?

– Eu vim buscar uma compra que fiz pela Internet. – disse um cliente. É. Esqueci de comentar: seu setor também era responsável pelas compras online de pessoas que não querem pagar o frete e preferem buscar na loja. Mãos de vaca.

Pegou o comprovante de compra e foi procurar o produto. Comparava os algarismos impressos nas caixas com o da identificação da compra no papel, quando o cliente lhe incomodou:

– É um triciclo. Não vai estar nessas caixas pequenas.

Nem sabia que a loja vendia triciclos.

– Aqui está. – entregou a caixa ao homem.

– Não tem papel de presente desse tamanho, né?

– Não.

– Não tem como embrulhar de algum jeito?

– Até tem, mas vai ficar muito feio, juntando vários papéis.

– Ok, faz isso pra mim.

Ele não percebia o tamanho da fila?

– Por que você não bota uma fita?

– Não tenho uma fita.

– Compra. Se fosse uma moto, você ia querer embrulhar também? O normal é colocar uma fita.

– Eu quero que embrulhe.

– Vai ficar brega.

– Deixa que eu faço. – era uma das funcionárias que estava de volta, querendo fingir que é legal. Não era.
Não olhou para a cara do cliente sem noção nem para a da colega de trabalho ridícula. Focou no próximo cliente. Queria eliminar aquela fila. Contou 14 clientes dessa vez. Essas pessoas não tem outra loja para ir?

– É pra presente.

– A notinha, por favor.

– Aqui.

– Vou botar o adesivo. Pode trocar em um mês, em qualquer loja Saraiva. – ela já repetia isso como um mantra e sempre tinha a impressão de que as pessoas a ignoravam.

– Só não coloca esse saquinho vermelho com pinheiros, porque não é presente de Natal. É de aniversário.

– Tudo bem. – pegou o saquinho de presente preto. Ela também preferia aquele. – O vermelho é muito brega, né?

Gostou deste cliente. O próximo era um senhor.

– Quero trocar esse livro. Falaram que é aqui.

– O sistema está fora do ar, senhor.

– Ham.

Ele não entendeu.

– O sistema está fora do ar e pode voltar só amanhã. Não há como fazer isso agora.

– É só fazer a troca manual. – disse a colega de trabalho ridícula, lhe passando uma ficha a ser preenchida, com várias cópias em papel carbono.

A vaca sorriu ironicamente. O velho sorriu vitoriosamente. Ela sorriu amarelo. Gritou para a fila:

– Vai demorar porque o vovô aqui quer que eu faça uma troca manual!

Algumas pessoas olharam feio. Ninguém entendia o porquê de tanto mau humor. Fome? Falta de sexo? Sono? Problemas familiares? Dinheiro? Não. Seu mau humor vinha do trabalho. Não havia estudado quatro anos, escrito monografia e se formado para agora embrulhar presentes dos outros. Entendam.

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