O repórter, o diagramador e a troca de papéis

Hoje não tem “novidades da semana”, pela total ausência de novidades (acho que a saga começa a chegar ao fim), então só peço para que quem já leu ou tem interesse em ler meu livro – “Condenáveis – Uma História de Filho e Pai” – coloque-o na sua estante do Skoob. O link está aqui. Para compensar, uma historinha:

O repórter aceitou tomar um chope com o diagramador depois do expediente, mas não deixava de achar a situação curiosa. Eles sempre se cruzavam na redação, mas nunca haviam conversado algo que não fosse estritamente profissional. Não havia entendido o convite, mas cedeu mesmo assim, um pouco pela curiosidade.

Gastou os três primeiros minutos do encontro, no bar, fazendo perguntas ao diagramador, meio pelo hábito, meio por desespero para evitar o silêncio. O colega de trabalho, no entanto, dava respostas vagas, desinteressantes e sem gancho para novos questionamentos. Parecia até que estava ali obrigado. Quando o repórter estava quase desistindo, o diagramador fez uma proposta – a segunda do dia:

– Vamos inverter os papeis?
– Como assim?
– Você está me entrevistando. Quero te entrevistar.
– Hum, okay, tudo bem. Parece divertido.
– Canhoto ou destre?

O repórter ri.

– Isso é mesmo importante?
– Nunca reparei, então é bom esclarecer de uma vez por todas.
– Destre.
– Legal. O que você gosta de ler?
– Biografias, ficção e textos acadêmicos.
– Na verdade, me referia às sessões do jornal.
– Ah. Eu tenho que ler tudo.
– Mas o que gosta? Diga-me três cadernos.
– Cultura, internacional e política, nesta ordem. E você?
– Sou eu quem faço as perguntas.

O repórter riu. O diagramador também, e emendou:

– Como você chegou ao jornal?

O repórter se reacomodou na cadeira e olhou nos olhos do diagramador.

– Prova de estágio. Mas… Você não vai mesmo responder a minha pergunta?
– Mudamos de papeis.
– Eu não vou saber nada de você?
– Você não lida bem com a mudança de personagens hein.
– Eu só acho que não custa nada responder uma pergunta simples.
– Essa não é a regra da brincadeira.
– Não fui eu quem criei as regras.
– Você é muito inflexível.
– Eu? Estou sendo flexível até demais, desde o início.
– Não está não. Você é arbitrário.

O repórter abriu a boca e arregalou os olhos, espantado.

– Você está sendo tão… desagradável. Só rebati uma pergunta. Já entrevistei o presidente e foi mais fácil conseguir respostas dele.
– Olha como você é. “Sabe com quem está falando? Já entrevistei o presidente!”. Bem que eu te achava arrogante e presunçoso.

O repórter revirou os olhos.

– Se você me odeia sem nem me conhecer, porque me convidou?
– Se te odiasse, não teria te convidado.
– Meu Deus! – o repórter não suportava mais.
– Você é filho único?
– Não vou te responder nada enquanto você não me responder primeiro!
– Você não sabe brincar.
– Eu?
– É, você.
– Você prefere não responder uma pergunta idiota só para manter intactas as regras imbecis de uma brincadeira sem cabimento, e eu não sei brincar?
– Não vou discutir com você, porque não adiantaria argumentar. Você não está disposto a analisar sua própria postura.
– Eu que não vou discutir com você!
– Ótimo. – o diagramador deu um gole no chope.
– Ótimo. Quais as suas três sessões favoritas do jornal?

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Uma resposta para O repórter, o diagramador e a troca de papéis

  1. Olá, Leonardo.
    Situação essa hein? rsrsrs
    Já tinha colocado o Condenáveis na minha estante do skoob. Avaliei já, falta pouco pra terminar.
    Abçs.

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