O que deu errado?

– O que você faz aqui? – ele se assustou ao vê-lo sentado no seu sofá, esparramado. Havia desejado encontrá-lo, é verdade, mas achou que isso seria impossível. No mínimo, improvável.
– Quem é você? – a criança se assustou mais ainda ao vê-lo parado ali, atrás do sofá. Aquele homem era feio.
– Não está me reconhecendo? – o adulto começou a achar graça da situação.
– Não te conheço. – o menino percebeu, de alguma maneira, que o estranho era inofensivo.
– Eu sou você. Olha bem.
O estranho era feio, inofensivo e louco.
– Vou chamar minha mãe. – ameaçou.
– Meu Deus! Há quanto tempo não a vejo! Chame-a. – disse, meio emocionado, meio irônico. Nem ele mesmo saberia definir o tom com que sua fala saiu.
– Quem é você? Me diz!
– Já te falei: eu sou você. – estava se cansando daquela ladainha.
– Isso não existe. – o menino também se cansava. Por que os adultos sempre acham que as crianças são idiotas?
– Quem disse? Eu sou você no futuro.
– Tá bom.
Talvez ele fosse embora se a discussão terminasse.
– Você não acredita, né?
– Não. – o garoto não se prestava nem a olhá-lo mais.
– Sempre fui assim, incrédulo, desconfiado, realista.
– Hum.
– Calado também. Mas você se tornará uma matraca quando chegar à minha idade, sabia?
– Duvido muito.
– Você é uma criança insuportável. Não me lembrava de ser tão chato assim.
– Você também não é muito legal, se é para falar.
– É claro! Somos a mesma pessoa.
– Começou…
– Por que você não acredita? Não gosta do que vê?
A criança não respondeu com palavras. Só lançou um olhar de desprezo. Aquele olhar que o faria perder o amor de sua vida vinte anos mais tarde.
– Qual o seu sonho? – a versão mais velha da criatura decidiu mudar o rumo da conversa.
– Conhecer a Disney.
– Eu conheci.
– Sério? – o menino revelou um olhar interessado.
– Sério, com direito a foto com o Mickey e tudo mais.
– Eu prefiro o Pato Donald.
– Eu também, mas falei do Mickey porque ele é o dono do parque. Foi uma viagem inesquecível.
– Você ainda lembra?
– Se eu fui no ano passado…
– Quantos anos você tem?
– 30.
Silêncio.
– Você tem filhos?
– Não.
– Por que foi à Disney?
– Porque era meu sonho.
– Você não tem vergonha?
– Eu não. Você tem?
– Eu sou criança.
– Pois você só terá oportunidade de ir à Disney aos 29 anos.
Silêncio. O menino ficou frustrado com aquela ideia. Não queria ser um mané.
– O que você faz?
– O que você quer ser quando crescer?
– Eu perguntei primeiro.
– Eu vivi primeiro.
O menino revirou os olhos. O adulto achou graça. Ele havia sido um moleque chato, mas cômico.
– Eu quero ser artista.
– Que tipo de artista?
– Famoso.
– Você não será. Nem artista, muito menos famoso.
– Vou ser sim.
– Estou te dando um spoiler, cara. Aceita.
– O que você é? O que eu me tornei? – ele parecia acreditar, finalmente.
– Já fui tanta coisa…
– Mas e agora?
– Funcionário público.
O menino abriu a boca e enfiou o dedo indicador dentro, simulando que forçaria o vômito.
– Eu sei. É chato mesmo.
– Eu não quero me tornar… você.
– Mas vai. Não tem saída.
– Por que você veio me ver? – o menino estava mesmo cedendo aos fatos.
– Queria me lembrar de quem eu era.
– Por quê?
– Porque sim.
– Porque sim não é resposta.
O adulto revirou os olhos. Detestava crianças.
– Eu só queria… Como eu posso dizer? Eu queria entender o que deu errado.
– Nossa vida deu errado? – o molequinho se assustou, apesar das evidências. Era duro ouvir o fracasso da própria boca, ainda que de sua futura boca. A derrota não era uma ideia que passasse por suas fantasias infantis.
– Deu, sim. Já achava isso, mas agora que te revi tenho certeza.
– Você desistiu dos meus sonhos?
– Nossos sonhos. – corrigiu.
– Isso. Nossos sonhos. – o menino parecia quase estimulador.
– Seu sonho não era ir à Disney? Eu consegui. – desconversou, se fazendo de bobo.
– Esse é um dos sonhos. Eu tenho vários. Se você é eu, você sabe.
– É, eu sei. Esse é o nosso problema. Somos ambiciosos demais. Talvez o problema fosse falta de foco.
– Foco?
– Objetivo.
– Eu tenho objetivos. Quero ser artista, famoso e rico.
– Desisti.
– Hã?
– Você perguntou se eu desisti dos nossos sonhos. Se eram esses, eu desisti.
– Por quê?
– Porque não consegui realizá-los enquanto tinha idade para isso. Eram muito difíceis.
– Mas não pode desistir até conseguir. “Querer, poder, conseguir”.
– Querer não é poder nem conseguir. Acredite. Isso foi algo que aprendi na marra.
– Não serei como você. Nunca desistirei dos meus sonhos.
– Eu tenho 30 anos. Você não acha que já é tarde demais para ficar correndo atrás dos seus sonhos?
Silêncio.
– Eu vou conseguir tudo antes disso. – o menino deu de ombros.
– Não vai não. Você não compreende? Sou seu destino.
– Me fala o que você fez de errado! Assim eu posso fazer diferente!
– Isso funcionaria?
– Não sei. Você que tem que saber. Você que é adulto.
– Eu não sei de nada.
– Eu não quero me tornar você. Sério mesmo.
– Se eu pudesse escolher, também não seria eu.
– E quem você seria?
– Você. De novo, digo.
– E ter outra chance?
– Isso também. Mas sabe qual é o nosso maior problema?
– Qual?
– Não temos talento.
– Fale por você.
– Eu falo por mim, mas eu sou você.
– Para de repetir isso o tempo todo. Como foi na Disney?
– Bem patético, na verdade.
– Imagino. Você é deprimente, sabia?
– Sabia. Está decepcionado?
– Sim.
– Eu também ficaria, se fosse criança e soubesse que me tornaria o que me tornei.
– Qual seu sonho agora?
– Não sonho mais.
– Como você consegue?
– Chega uma hora em que você cansa.
– Cansa?
– De se iludir.
– Mas se a vida é ruim, os sonhos são a salvação.
– Não quando você tem 30 anos.
– Os sonhos mudam. Bem, não no seu caso, que vai à Disney. Mas os sonhos mudam. Existem, só que são outros.
– Mas se eu te disse que não sonho.
– Você é tão chato. Como você imagina os próximos anos da sua vida? Como você os deseja?
– Não os desejo. Se tenho um sonho, é voltar a ser você.
– Mas isso não é possível.
– Nenhum dos nossos sonhos foi possível. Entenda.
– Menos a Disney.
– Menos a Disney. – concordou.
– Que bosta.

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2 respostas para O que deu errado?

  1. Adorei seu texto (como sempre) e vi nele uma grande sacada. O sonho de quem não realizou seus sonhos é poder voltar a ser um sonhador. Muito bom, Leonardo!

  2. Lilian Reis

    Adorei! Me identifiquei muito com o texto. À vezes pareço maluca e fico conversando comigo mesma em frente sao espelho. É…é mais ou menos por aí. Muito interessante. Belo texto e muito bem escrito. Abraços Lilian Reis.

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