Nunca te amarei, mas poderia facilmente me apaixonar por você

De repente, nossos olhares se encontram. Você está de pé, eu estou sentado. A que distância estamos um do outro? Dois metros? Três, talvez? Não sei, não sou bom nisso. Você fixa seu olhar em mim por mais segundos do que o normal. Você se interessou por mim. Desvio meu olhar para o livro que tenho nas mãos, para que você não pense que o interesse é recíproco. Não é.

Tento ler, mas sua presença impede minha concentração. Levanto o olhar em sua busca. Eu te analiso. Você não é bonito, mas também não é feio. Você tem o rosto perturbado. Parece que está esperando alguém, assim de pé, ansioso. Você me olha de novo e me flagra te estudando. Agora você tem certeza que o interesse é recíproco. Desvio meu olhar, mas já é tarde. Você dá uns passos na minha direção. Temo que estabeleça contato. Não estou a fim. Preferiria que você respeitasse isso.

Você não vem. Por que não veio? Não tá a fim? Pensei que estivesse. Finjo ler meu livro, mas não enxergo mais nenhuma letra. Sua presença me faz sentir a adrenalina correndo no meu sangue. Isso não é bom. Adrenalina significa que eu nunca te amarei, mas poderia facilmente me apaixonar por você. Levanto meu olhar de novo e te flagro me olhando. Você agora está a menos de dois metros, com certeza. Se você quiser falar comigo, não precisa nem se aproximar mais.

Não fico te olhando, para que você não ache que estou flertando. Eu me levanto, para que você pense que vou te abordar, mas é lógico que não vou. Caminho até o bebedouro, não sem antes notar que temos praticamente a mesma altura (sentado, achei que você fosse mais alto). Bebo água e volto ao meu lugar. Você me encara de novo, se comunicando com os olhos. De repente, sinto que já temos uma espécie de conexão. Temos um segredo. A gente está conversando com o olhar, e excluindo todos ao nosso redor desse fato. Somos praticamente íntimos, com isso. Só eu e você.

Sento-me de novo e você não para de me olhar. Começo a ficar incomodado com isso. Você tem mesmo um rosto perturbado. Um olhar insano, também. Talvez você seja maluco. Quem você está esperando? Amigo? Namorado? Namorada? Peguete? Você pergunta a hora a uma senhora que passa pela gente. Ouço sua voz. Normal. Não é atraente, nem broxante. Normal. Você podia ter perguntado a hora para mim. Seria uma maneira de iniciar um papo verbal. Ou você não quer? Talvez prefira manter essa magia atmosférica. Não sei qual é a sua. Fico sem saber, porque já está na hora da minha sessão. E você não veio.

Com isso, te esqueço, como se esquece todas as paixões não vividas. Outras vêm, com mais ou menos minutos de duração. E, dois dias depois, te revejo. Estou correndo – atrasado para outra sessão – e você está parado, de pé como sempre, na porta do cinema. Quem você tanto espera? Será você que está sempre adiantado ou a pessoa que está sempre atrasada? Quando nos notamos, o reconhecimento é imediato. A sensação é a de encontrar um velho conhecido. Mas não nos conhecemos. Nós nos vimos há dois dias, apenas.

Você me olha como quem diz “você de novo”, talvez até satisfeito por me rever, e eu tento não te dedicar um olhar significativo. Tento não passar nenhum tipo de mensagem quando te vejo, mas talvez você fantasie algo por trás disso. Passo por você correndo, fingindo ignorar sua presença, mas ciente de que você está pensando “coincidência demais”. Eu também penso isso. Subo correndo para minha sessão. Será que você também vai nessa? Será que você viu a mesma que eu aquele dia? Será que sempre vemos os mesmos filmes? Ou nunca vemos os mesmos? Se nunca entramos na mesma sala, a coincidência é menor, a importância é menor. Mas não sei o que acontece. Tampouco fico te procurando. Eu hein. Passo por você correndo. Mais uma vez, nos passamos. Mas, dessa vez, me pergunto se temos chances de nos revermos de novo em breve. Será possível? Seria legal.

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