Somos o que deixamos de fazer

É muito complicado ser avaliado e rotulado pelos outros enquanto ainda estou em processo de autoconhecimento. O problema, aliás, é que esse autodescobrimento não terminará nunca. Mesmo assim, as pessoas têm certeza que sabem quem eu sou, ainda que nem eu mesmo esteja 100% certo do meu perfil completo. Falo na primeira pessoa do singular, mas poderia falar no plural. Isso é um problema universal: o julgamento simultâneo ao aprendizado. Não é?

O jornalista Pedro Bial falou uma vez, em um daqueles discursos de eliminação do “Big Brother Brasil”, que a gente se perde entre quem achamos que somos, quem queremos parecer ser e quem os outros acham que somos. Concordo e reflito constantemente sobre isso. Quem sou eu afinal? Quem é você? Você sabe? Tem certeza?

Às vezes, acredito que nossa verdadeira essência é mais detectável internamente do que externamente. Ela tem menos a ver com nossas ações do que com as razões que nos levam a cometê-las. Mais do que isso, acho que somos, na verdade, o equivalente do que deixamos de fazer – e não do que fazemos. Apesar de existirem leis, normas de conduta e costumes, a verdade é que podemos fazer qualquer coisa (e sofrer as consequências, é claro), mas escolhemos não fazer algumas. Esse é o caminho para descobrirmos quem somos. Por que não fazemos isso ou aquilo?

Não comer carne, não transar no primeiro encontro (ou antes do casamento!), não dar esmolas, não ter filhos, não casar, não tirar ninguém para dançar, não tomar refrigerante, não usar o Twitter ou Facebook, não assistir à TV, não beber, não fumar, não dirigir, não falar mal dos outros, não namorar, não guardar segredos, não chorar em público, não usar pochete, não fazer o teste do bafômetro, enfim. Os ‘não’ parecem mais ricos, porque pedem justificativas imediatas e ajudam melhor a pintar o quadro que é alguém.

Minha catequista, quando eu era criança, pensava diferente. Para ela, não bastava não fazer “nada errado” para ser uma “boa pessoa”. Deveríamos fazer “boas ações” para chegarmos lá. Mas isso era só a opinião dela – ou da Igreja (não sei ao certo). Concordei com isso por algum tempo, mas não mais. O mundo está cada vez mais uma selva, como se a humanidade estivesse retrocedendo, então podemos ser considerados bons se não matamos, roubamos, chantageamos, enganamos, mentimos, agredimos, ainda que não façamos nada relevantemente positivo. Se nada disso servir para ser classificado como “bom”, no entanto, não deixa de servir para definir-nos. Mas a verdade é que a própria constatação de querer ser bom já diz muito sobre a gente. Importar-nos com isso já nos define. É assim que eu penso hoje, nesse instante. Amanhã, não sei.

Anúncios

Responder a Somos o que deixamos de fazer

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s