Dificuldade em escutar “Um Homem Qualquer” “No Meio da Rua”

Assisti ao filme “Um Homem Qualquer”, que estreia nesta sexta (31/8), em uma sessão fechada no início da semana. Na mesma noite, também vi, desta vez pela TV, o longa “No Meio da Rua” (2006). Os dois retratam, em circunstâncias diferentes, as condições de vida dos moradores de rua. Feliz coincidência, que me fez repensar algumas questões.

Na faculdade, entrevistei alguns moradores de rua para um trabalho. O que ficou daquela experiência foi a impressão de que essas pessoas são tratadas como se fossem invisíveis. Não desviamos só nosso caminho dos seus corpos estirados sob papelões no chão, mas também desviamos nosso olhar para não encará-los. Não olhamos esses seres humanos, muito menos em seus olhos. Eles fazem parte da nossa realidade, mas precisamos esquecer disso para seguir em frente. Preferimos assim. Triste, mas é verdade.

Os filmes, no entanto, me levaram além. Essas pessoas também não são ouvidas – o que eu deveria ter percebido quando fiz aquele trabalho. Acostumadas a serem evitadas, elas mesmas se surpreendem quando são abordadas por alguém. São como párias da sociedade, o que é ainda mais lamentável. Em “Um Homem Qualquer”, Carlos Vereza interpreta brilhantemente um morador de rua que, no passado, era psiquiatra e professor acadêmico. Um cara inteligente. Em “No Meio da Rua”, Guilherme Vieira é um garotinho rico, que tem tudo o que quer, e se muda para uma favela para recuperar uma espécie de gameboy. Dado como sequestrado, ele faz malabares no sinal para ajudar nas despesas do barraco que o acolheu. Ambos os personagens trazem um passado inimaginável quando você os vê maltrapilhos e sujos.

O problema é que a gente acha que já sabe de tudo e faz uma série de generalizações. Quando vemos um morador de rua – de relance, desviando o olhar – imediatamente criamos uma identidade para eles. Drogados, vagabundos, assaltantes, pedintes – os adjetivos não costumam variar mais do que isso. Agora, de onde vêm essas pessoas? Para onde vão? Por que estão ali? Quem são? O que tem a dizer? Os paradigmas nos quais acreditamos, muitas vezes, podem estar errados. Aquelas pessoas podem ser inteligentes como o personagem do Cazaré ou, ironicamente, ricas como o do Vieira. Podem ser interessantes e, geralmente, são.

Esse assunto me incomoda muito. Desde pequeno, acho desconfortável seguir meu caminho ignorando o que vi e deixei para trás. É tudo muito deprimente: tanto o nível ao qual essas pessoas chegaram tanto a nossa reação passiva, inerte e cega. O grande problema, me parece, é a dificuldade em colocar-nos no lugar do outro. Nos interessamos pela possibilidade de vida em Marte e não prestamos atenção à vida terráquea.

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