O de sempre

Termino de me servir e coloco o prato para pesar. O atendente – que antes era garçom, depois foi para o caixa, e agora é só atendente mesmo – imediatamente deixa seu posto, busca um copo de Guaravita e um canudo, e me entrega. Gosto de almoçar tomando Guaravita. Prefiro canudo aos copos de vidro. “O de sempre. Virei habitué”, penso.

– Boa tarde. – só então tenho oportunidade de cumprimentá-lo.
– Boa tarde.

Eu nem sabia que ele me reconhecia das outras vezes. Não sei seu nome e acho que ele também não sabe o meu. Desconfio que ele sequer conheça minha mãe, que é tratada com intimidade por quase todos os funcionários do restaurante. Comemos ali – ou pedimos para entregar em casa – diariamente, sem falta.

As atendentes anteriores – eram mulheres – sempre me perguntavam “Guaravita?”. Mas nunca se lembravam do canudo e me traziam um copo, que eu dispensava. Era mais uma forma de mostrar simpatia. Não uma imposição. Às vezes, me diziam “Iiih, hoje não tem Guaravita. Acabou”. Em vez de lamentar, eu até ficava contente, porque podia experimentar tomar novas decisões. Mate? Chá gelado? Nada?

Não me entenda mal: eu prefiro, sim, o Guaravita (com canudo), mas gosto ainda mais do anonimato. Não é estranho que alguém, que você mal conhece, saiba de cor suas preferências? Eu acho. Pior ainda é que antecedam seus pedidos. No caso, os meus. Prefiro dizer diariamente o que eu quero – ainda que seja a mesma coisa – a ter que enfrentar essa suposta intimidade.

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