Resenha: [Des]conhecidos, conectividade e superficialidade

Você sobe as escadas, o diretor, roteirista e ator Igor Angelkorte te recebe com um aperto de mão e te indica a entrada da sala. Você entra e se depara com um cômodo pequeno e escuro, de paredes pretas, com 10 cadeiras em cada canto e uma mesa de bar no meio, com a atriz Chandelly Braz sentada, bebendo um copo de cerveja. Também há dois músicos no fundo do ambiente. É o início de uma experiência teatral especial.

“[Des]conhecidos”, em cartaz no Teatro Gláucio Gil, é um mergulho sem reservas no relacionamento de dois jovens da geração 2.0, interpretados pelos artistas já citados. A peça acompanha o encontro de um casal que representa metaforicamente a tradição (ele) e a vanguarda (ela). Os dois se conheceram através da Internet, marcaram em um bar e foram imediatamente para a casa dele, apesar de suas reservas. De cara, ela deixa claro que não quer nada sério, mas ele acredita que poderá fazê-la mudar de ideia com o tempo. Grande erro.

O público acompanha o desenrolar da relação de perto. Graças à pequena sala e o feliz limite de público de 20 pessoas, a sensação é a de ser uma mosquinha dentro do apartamento do personagem, como um voyeur privilegiado. Mas Igor provoca interações pontuais, servindo cerveja a um casal da plateia, pedindo a um espectador que atue como garçom (no caso, eu) e solicitando dicas de músicas e de temas de conversa. As interrupções, que denotam jogo de cintura, são um plus para o texto, interpretado com maestria.

Regada a bebida alcóolica e toques de celular – a personagem feminina é viciada no aparelho, o que a proporciona um distanciamento confortável em conversas íntimas – o casal se relaciona bem até que o rapaz começa a pedir por monogamia. O conflito de perspectivas diferentes culmina em diálogos sinceros como “Não basta ser o melhor, você quer ser o único” / “Se eu sou o melhor, o que você busca nos outros?”. Não existem julgamentos, mas questionamentos.

A última cena é tensa, realista, emocionante e extremamente contemporânea. Poderia acontecer com qualquer um de nós, se já não aconteceu. A vontade é de interferir e tentar ajudá-los no abismo que os separa, mas ninguém mete a colher em briga de marido e mulher (embora eles não cheguem a se casar, a aplicação do ditado popular faz sentido). No fim, o espetáculo proporciona material suficiente para a reflexão do que chamamos atualmente de relacionamentos, cada vez mais plurais e superficiais.

OBS: Há ainda uma versão gay do espetáculo, apresentada nas segundas-feiras por Igor e Samuel Toledo. Mas essa infelizmente eu não assisti.

SERVIÇO
[Des]conhecidos
Teatro Glaucio Gil
Tel.: (21) 2547-7003
Sábado, domingo e segunda, às 19h
Ingressos: R$ 30 – Lista amiga (R$15): probastica@gmail.com
Espetáculo não recomendado para menores de 16 anos
Em cartaz até 11/07/2012

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