JT Leroy – Um Conto de Fadas Punk relembra a maior farsa do mercado literário da década passada

A história de Laura Albert e o alter ego JT Leroy chegou ao teatro, sob o título de “JT – Um Conto de Fadas Punk”. Escrita por Luciana Pessanha, que conversou com o Fala, Leonardo! por e-mail, a peça conta a história do fenômeno pop literário americano, que não passou de uma farsa para saciar o que a dramaturga chama de “geração da imagem”. “A história já aconteceu há algum tempo, mas o modus operandi do mercado continua o mesmo. Autores escrevem livros. Suas histórias que deveriam ser interessantes. Mas existe certa morbidez no mercado, que quer consumir autobiografias. É como se tivesse mais valor o sofrimento do autor do que sua destreza em contar uma história”, analisa.

No espetáculo, em cartaz no CCBB-RJ até o dia 27 de maio, Débora Duboo interpreta a quarentona Laura Albert, vocalista de uma banda de punk fracassada (o que proporciona música ao vivo em cena), e atendente de telesexo, com um prazer especial em explorar diversas personalidades. Daí surge a ideia de escrever livros com o pseudônimo JT Leroy, para quem ela cria uma biografia peculiar, repleta de androgenia, pedofilia, prostituição, drogas e superação. Com os livros fazendo sucesso, fica difícil manter JT – alçado a condição de celebridade instantânea – sem uma cara. Laura, então, convence a cunhada Savannah Knoop (vivida por Natália Lage) a incorporar o escritor.

O primeiro livro, “Sarah”, saiu em 1999, quando a criação de alter egos e personalidades fakes já não era uma novidade na Internet, mas surpreende a forma como Laura Albert levou isso ao extremo – no mundo real. “Ela criou um pseudônimo e deu um suporte de carne e osso a ele”, explica Pessanha, que teve a ideia de escrever a peça em 2007, quando a escritora já havia sido desmascarada e enfrentava um processo movido pela Antidote Films. A produtora detinha os direitos de adaptação do livro “Maldito Coração”, mas o contrato havia sido assinado por Savannah, em nome do fictício JT. A empresa se sentia lesada; não tinha comprado apenas a obra, mas o personagem.

A história polêmica entrega, para Pessanha, as regras da indústria cultural, que se sentiu traída com o desmascaramento de JT LeRoy e a consequente denúncia das fraquezas do mercado. A mentira não teve perna curta e a farsa atraiu fãs como Madonna, Gus Van Sant e Bono Vox. O autor – na pele de Savannah – rodou feiras literárias de todo o mundo, inclusive no Brasil. Em 2005, “ele” veio à Flip e foi entrevistado pela própria Luciana Pessanha. Ela garante que percebeu que JT era uma mulher, mas não quis escrever isso em sua matéria. “Não sei o que se passou com as outras pessoas. Eu vi ainda do carro que era uma garota ali. O que me segurou é que fui esperando um gay cheio de atitude, que fazia michê com caminhoneiros, e encontrei uma pessoa extremamente frágil e desamparada. Claro, Savannah estava com medo. Não quis chutar cachorro morto”, lembra.

Assim surgiu o título da peça, que tem direção de Susana Ribeiro e Paulo José. Luciana acreditava, então, que JT Leroy tinha encontrado redenção na literatura. “A história do JT é realmente um conto de fadas no qual todo escritor, jornalista, roteirista ou whatever quer acreditar. Primeiro porque é um menino sem chance nenhuma na vida, que vence pela literatura; segundo porque não é verdade”, explica a idealizadora do projeto, que conversou pelo telefone com Laura Albert, consultou três advogados e leu tudo o que foi publicado sobre o caso desde 2005 para escrever o roteiro.

Com profundo interesse nas demandas do mercado literário, Pessanha faz uma crítica aos rumos da indústria. “Existe uma demanda muito grande por beleza e juventude no mercado cultural. O fato é que se necessita muito tempo para que um artista interessante se forme, principalmente um escritor”, defende. A americana Laura Albert, que voltou a receber os direitos autorais dos livros de JT Leroy após 5 anos de entraves legais, veio ao Brasil assistir à peça. Classificou como “muito louco” o que viu, mas aprovou. Em conversa extra-jornalística com ela, o autor desse blog lhe disse que ficou impressionado com sua trajetória, mas a chamou de maluca. “We should all be fucking crazy” foi a dedicatória que ganhou no livro.

SERVIÇO

Espetáculo: JT – Um conto de fadas punk
Temporada: até 27 de maio
Local: Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro – Teatro I (Rua Primeiro de Março, 66 – Centro)
Bilheteria: Terça a domingo, das 10h às 21h – Telefone: (21) 3808-2020
Ingressos: R$6,00
Capacidade: 175 lugares (sendo 3 cadeirantes)
Horários: quarta a domingo, às 19h
Classificação indicativa: 16 anos
Duração: 90 minutos

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