Resenha: “Cheias de Charme” é a caricatura da nova classe média, olhada de cima

A TV Globo já havia avisado: voltaria sua programação de 2012 para a classe C, parcela da população que tem renda entre R$ 1200 e R$ 5174, e representa mais da metade dos brasileiros atualmente. A novela “Cheias de Charme”, que estreou nesta segunda (16/4), no horário das 19h, pode ser entendida como o carro-chefe do novo perfil da emissora, ao lado do programa “Esquenta”. A trama, protagonizada por Taís Araújo, Isabelle Drummond e Leandra Leal, tenta se aproximar da realidade do telespectador, que já não se identifica mais com as histórias do Leblon, segundo dados do Ibope. A exaltação das empregadas domésticas, o figurino kitsch e o transporte coletivo acentua as boas intenções, mas não disfarça o estereótipo, valido do humor característico dessa faixa da programação. A novela é uma caricatura da nova classe média, olhada de cima.

É evidente que Taís Araújo buscou referências no seu dia-dia para compor o papel da “empreguete” Penha. Mas a postura e a entonação que ela coloca em cada fala não conseguem dar veracidade ao texto, que traz frases como “Não vão mais demolir meu puxadinho?”. Quem fala assim, afinal? Puxadinho é o do outro. Quando é o nosso, trata-se da casa, do lar. Não é necessário afirmar a cada fala que se vive em um puxadinho. É só olhar para ver. Assim como ricos não dizem “minha mansão”, pobres não se referem à moradia como puxadinho. Faltou naturalidade na representação do tema. Erro mais dos autores do que da direção (de Denise Saraceni, a mesma de “Passione” e “Da Cor do Pecado”).

Penha e Rosário (Leandra Leal) circulam pelo mundo dos famosos no primeiro capítulo – a primeira como camareira da cantora de tecnobrega Chayene (Cláudia Abreu) e a segunda como uma tiete do cantor sertanejo Fabian (Ricardo Tozzi). Os artistas, que representam os endinheirados da trama, também são marginalizados, à la Gaby Amarantos, impossíveis de serem levados a sério. Tozzi usa uma lente de contato azul e reflexos no cabelo, enquanto Abreu se fantasia – não há outra palavra para qualificar seu vestuário – para interpretar sua personagem. Ambos são excêntricos, egocêntricos, cafonas. Em uma cena, Chayene joga um suco na cara da camareira e fica rindo maleficamente. Sim, os ricaços ainda são os vilões – como sempre.

No entanto, a pobreza, associada ao bom caráter de uma forma bíblica, como se todos devêssemos abdicar dos bens materiais para sermos elevados aos céus, mudou um pouco de figura. Baseados na ambição e no poder de compra da classe C – a galinha dos ovos de ouro da economia – as personagens principais, pobres, fazem um pacto de ajuda mútua no primeiro capítulo. O slogan é “dia de empreguete, véspera de madame” – entregando o desejo das três de melhorarem de vida, para felicidade de Lutero. “O que é teu tá guardado. Alguma coisa me diz que eu tenho futuro”, diz Cida (Isabelle Drummond).

A mais nova do trio, Cida herdou o trabalho de doméstica da mãe e mora em uma mansão, onde recebe de presente as roupas velhas da “patroa” – outro termo exaustivamente usado nos diálogos. Se a novela seguir o rumo do primeiro capítulo, Drummond se tornará a Thalia brasileira. Na primeira hora de novela, sua personagem já escreveu no diário para a “mãezinha” – da mesma forma que as Marias de Thalia rezavam para a “virgenzinha” (de Guadalupe) – e se apaixonou por um ricaço, papel de Fernando Colunga dessa vez assumido por Jonatas Faro. É muita mexicanização.

A novela pode cumprir sua função de divertir e entreter, mas um olhar um pouco mais crítico não deixa escapar a estereotipazação da classe C, dos “magnatas” e a sátira aos emergentes. O texto erra a mão nas referências e peca pelo mau gosto. Só o tempo irá dizer se o público irá mesmo se identificar e adotar a trama ou se sentir parodiado e rejeitá-la.

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2 respostas para Resenha: “Cheias de Charme” é a caricatura da nova classe média, olhada de cima

  1. Vivian

    Ridicula sua resenha queridaa . Cheias De Charme é a melhor novela que já existiu e todos (menos você) acham isso. Uma trama belissima, realidade plena, atores super qualificados (o show de atuação principalmente de tais araujo, isabelle drummond, humberto carrão,alexandra richter,tato gabus,leopoldo pacheco,cláudia abreu, entre outross , mas esses se destacam). Então , querida , ense bem antes de falar como se fosse a dona da verdade. (:

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