O cinema nacional, o problema da distribuição e a baixa audiência

A lista dos 10 filmes mais vistos no Brasil, entre janeiro e abril deste ano, não inclui sequer um longa nacional. “Alvin e os Esquilos 3”, “Motoqueiro Fantasma 2” e “Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras” estão nas três primeiras posições do ranking. Em sua semana de estreia, “Xingu”, de Cao Hamburger, arrecadou R$ 988 mil em venda de ingressos. Na mesma semana, o americano “Fúria de Titãs 2” faturou R$ 6,5 milhões no país, de acordo com dados do site Yahoo. Por que os brasileiros não prestigiam a própria arte?

A falta de acesso não é uma justificativa. Segundo dados do site especializado Filme B, o público das salas de cinema brasileiras cresceu mais de 50% entre 2008 e 2011 – reflexo do aumento da renda. Apesar da alta no preço dos ingressos (a média nacional fechou em R$ 10 em 2011), há iniciativas de incentivo à acessibilidade, como entradas mais baratas nos dias de semana e o Projeto Brasil Cinemark, que escolhe um dia do ano para comercializar entradas para filmes brasileiros ao preço simbólico de R$ 2.

O fato é que o espectador prefere ver o que vem de fora. Os dados não negam. No ano passado, nenhum filme brasileiro figurou na lista dos mais assistidos no país. O líder foi “A Saga Crepúsculo: Amanhecer – Parte 1”, que vendeu 6,8 milhões de ingressos em território nacional. A lua de mel de Bela e Edward estreou em 1100 salas de cinema, quase metade das 2225 existentes no país, informou o site UOL na ocasião do lançamento.

A distribuição, sim, é um problema para os filmes nacionais. O próprio “Tropa de Elite 2”, o filme brasileiro mais visto da história (11 milhões de espectadores), foi lançado em 696 salas, o que foi considerado muito na época. Há muitos filmes que são rodados e esperam anos para serem lançados por falta de distribuidora, sendo assistidos apenas em festivais por um público restrito. A cineasta Lúcia Murat explica que, apesar da cota governamental, que exige que 14% das salas exibam produção nacional, não há espaço para longas fora do padrão. O que ocorre é um monopólio dos blockbusters. O conselheiro da Associação Brasileira de Cineastas (Abraci), Roberto Farias, concorda. “O mercado é tão difícil para o cinema brasileiro que obriga o cineasta nacional a só fazer blockbuster. Quando tem blockbuster, não há nenhuma dificuldade de explorar o filme”, explicou em entrevista à Agência Brasil.

O custo de lançamento de um filme nacional varia em torno de R$ 1,5 milhão, segundo os autores Paulo Sergio Almeida e Pedro Butcher. Só para recuperar os gastos de distribuição – ignorando os de produção – um longa tem que levar ao cinema 900 mil pessoas. Mas a maioria dos longas é exibida em poucas salas, sem divulgação, e não ultrapassa os 100 mil espectadores. Lucrar com cinema nacional é quase utópico. É comum os profissionais afirmarem que trabalham por amor, cientes da desvalorização da arte nacional no mercado interno. Há clamor por intervenção estatal.

Todas essas questões são ainda mais aguçadas quando se levanta o ponto do preconceito contra o cinema nacional, ainda associado às pornochanchadas e ao pastelão. O roteirista Hilton Lacerda diz, em coluna publica em 2009, que o público só considera bom o filme que parece estrangeiro:

Por exemplo: por que achamos que o filme brasileiro é cheio de palavrão, se é o cinema americano quem mais xinga no mundo? Por que acusamos nosso cinema de pornográfico? A resposta é fácil: somos constrangidos por nós mesmos. Uma abominável vergonha daquilo que somos e fazemos. Somos educados para não gostarmos daquilo que representamos.

Vergonhosa não seria a falta de incentivo ao cinema nacional? A falta de prestígio? Nos EUA, o público não gosta de filme com legenda. Prefere a produção interna, apoiando a indústria nacional, Hollywood. Qualquer pastelão – como “Cada um Tem a Gêmea que Merece”, que levou todos os prêmios do Framboesa de Ouro deste ano – fatura uma fortuna. Essa comédia arrecadou US$ 74 milhões no país. Até para não gostar tem que assistir.

Referências
FILME B, 2012. Gráficos e Tabelas. Disponível em http://www.filmeb.com.br. Acesso em: 11 abr. 2012.

GANDRA, Alana. Para cineasta, distribuição é o gargalo do cinema brasileiro. Agência Brasil, 2011. Disponível em http://agenciabrasil.ebc.com.br. Acesso em: 11 abr. 2012.
______. Problema do cinema nacional é falta de espaço na exibição, diz cineasta. Agência Brasil, 2011. Disponível em http://agenciabrasil.ebc.com.br. Acesso em: 11 abr. 2012.

LACERDA, Hilton. Cultura – Um Olhar Deseducado Sobre o Cinema Nacional. A Rede, 2009. Disponível em http://www.arede.inf.br. Acesso em: 11 abr. 2012.

RUSSO, Francisco. Confira quais foram os filmes mais vistos no Brasil em 2011. Adoro Cinema, 2012. Disponível em http://www.adorocinema.com. Acesso em: 11 abr. 2012.

SILVA, Hadija Chalupe da. O filme nas telas: a distribuição do cinema nacional. Centro de Análise do Cinema e do Audiovisual, 200[9]. Disponível em http://www.cenacine.com.br. Acesso em: 11 abr. 2012.

UOL, 2010. ”Tropa de Elite 2” é a maior abertura do cinema nacional desde a Retomada. Disponível em http://cinema.uol.com.br. Acesso em: 11 abr. 2012.
______, 2011. “Amanhecer – Parte 1” estreia em número recorde de salas no Brasil. Disponível em http://cinema.uol.com.br. Acesso em: 11 abr. 2012.

YAHOO! CINEMA, 2012. Bilheterias. Disponível em http://cinema.yahoo.net/bilheterias. Acesso em: 11 abr. 2012.

2 respostas para O cinema nacional, o problema da distribuição e a baixa audiência

  1. Daí o que vemos são cineastas, ao que parece, como José Eduardo Belmonte e Heitor Dhalia desistindo de fazer filmes autorais e migrando para um cinema menos ousado. Recentemente, o primeiro fez Billi Pig e o segundo fez um filme de produção americana, chamado 12 horas.

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