Fernanda Montenegro, o teatro e o burburinho

Faltam 20 minutos para o espetáculo começar e ela já está na porta. Não na fila, mas na porta. Os outros espectadores notam sua presença, mas tentam agir com naturalidade. Afinal, estamos no Rio de Janeiro, a Hollywood brasileira.

Ela está elegante, mas na medida certa. É fina, mas não intimidadora. Sozinha, como eu, com ingresso na mão. Ela trouxe um presente para a atriz e fala com o segurança que gostaria de entregá-lo antes do início da peça. O armário chama um produtor, que não esconde sua admiração e tratamento especial. Agora é ela que finge não notar e age com naturalidade.

– Você pode entregar isso pra ela?
– Você quer que eu a chame aqui?
– Não. Só queria entregar isso.
– Eu a chamo, se você quiser.
– Não, obrigada, não precisa.
– Você quer ir lá entregar?
– Não, se você puder dar para ela, já fico satisfeita.

A porta da sala abre e ela continua ao lado da fila. Todo mundo acredita que ela entrará antes, passando na frente. O primeiro da fila chega a esperar que ela passe na frente ultrapasse. Mas a senhora de cabelos grisalhos – era esse o visual atual – não faz isso. Ela só entra depois que a fila termina.

Os lugares são marcados e ela tem certa dificuldade para encontrar o seu na meia-luz do teatro. Caminha pela fileira de poltronas, com os olhos semicerrados, buscando seu número. Não acha. Vira para a fileira de trás e pergunta:

– Essa aqui é a 15?
– É sim! – respondem quatro adolescentes em uníssono.
– Obrigada.

Ela se senta, aparentemente satisfeita. Na fileira de trás, o quarteto se encara com os olhos esbugalhados e sorriso no rosto. Comunicam-se sem emitir sons, mas consigo ler seus lábios:

– É ela! Você viu?

Algumas pessoas na sala começam a enviar sms para sabe-se lá Deus quem se vangloriando de estar na mesma sala que ela. Eu mesmo penso em avisar minha mãe. É o Rio de Janeiro, a Hollywood brasileira, que começa a se render. Entram uns fotógrafos e pedem para fotografá-la. Ela aceita, mas não se move. Parece querer que a situação ocorra o mais discretamente possível. Mas todo mundo olha.

Novos adolescentes entram no teatro – o local está cheio deles, porque a peça tem o título apelativo, no melhor dos sentidos, de “Um Conto de Fadas Punk” – e uma garota logo a identifica.

– Olha só!
– Quem é ela?
– Fernanda Montenegro!
– E? – o moleque parece não saber de quem se trata.
– É a rainha do teatro! – a menina revela certa emoção.
– Ah, é aquela do “Central do Brasil”, né?
– Isso!
– Não deve ser ela. É uma coroa qualquer e você tá se confundindo.

Rio.

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Who the fuck is Carly Rae Jepsen?

Para ler ouvindo:

Ozzy Osbourne perguntou, em 2010, quem era essa porra de Justin Bieber. Dois anos depois, ele deve estar se questionando sobre Carly Rae Jepsen, outra jovem canadense que invadiu repentinamente o topo das paradas mundiais. O single “Call Me Maybe”, que eu mandei você colocar para tocar, está entre os dez mais vendidos do iTunes dos EUA, Reino Unido, França, Alemanha, Austrália, Bélgica, Dinamarca, Irlanda, Luxemburgo, Holanda, Nova Zelândia, , Noruega, Suécia e Suiça. Ufa. É a nova galinha dos ovos de ouro. Mas já tem dona.

A cantora de 26 anos, com carinha de 16, assinou contrato com a Interscope Records, selo da Universal Music, em fevereiro. No mesmo mês, o EP “Curiosity”, com 6 faixas, foi lançado. É dele o single “Call Me Maybe” – que lidera a lista das músicas mais tocadas no Reino Unido há três semanas. A faixa, no entanto, foi lançada discretamente em setembro do ano passado. A canadense inclusive já lançou outro single depois. O que motivou o sucesso retardatário de “Call Me Maybe”?

Tem nome e sobrenome, e atende por Justin Bieber. Durante um raro período de folga no Canadá, o cantor ouviu a música tocar e ficou o resto do dia com ela na cabeça. Descoberto por Usher, o garoto viu potencial no chicletinho e quis conhecer Carly. Mais: quis investir nela. A cantora, obviamente, não teve muito o que pensar. Aceitou. Daí surgiu o viral com Selena Gomez, Ashley Tisdale e Big Time Rush; o contrato com a Interscope; e uma aparição no “The Ellen DeGeneres Show”, quando Bieber apresentou sua aposta musical para milhões de telespectadores.

Como disse, ela não tinha muito o que pensar. Carly participou do “Canadian Idol” – a versão local do “American Idol” – em 2006 e amargou um terceiro lugar. Dois anos depois, ela lançou seu álbum de estreia, “Tug of War”, que não foi exatamente um sucesso no Canadá. Se filhos para alimentar tivesse, Carly não estaria mais cantando. Mas agora ela é agenciada por Scooter Braun, o mesmo empresário de Bieber, e tem toda uma máquina publicitária a seu favor. Na verdade, “Call Me Maybe” demonstra um desempenho melhor que “Boyfriend”, música do padrinho, em todo o mundo. A dúvida agora é se ela se tornará a mais nova one-hit-wonder ou conseguirá consolidar uma carreira de verdade.

Entrevista: Tiago Iorc, o retorno fonográfico e a nova perspectiva

Para ler ouvindo:

Com apenas um CD no currículo, o brasiliense Tiago Iorc assistiu suas músicas saltarem dos barzinhos direto para as novelas da TV Globo – foram cinco ao todo. “Depois do primeiro disco, me vi na dualidade entre tentar parecer interessante e ser interessante. Faltou tempo para amadurecer isso”, analisa o cantor e compositor em entrevista ao Fala, Leonardo! por e-mail. Para desenvolver o segundo álbum, “Umbilical”, ele abandonou o Rio de Janeiro e a fama, se isolando em um apartamento em Curitiba.

Agora, aos 27 anos, meia década após o lançamento de “Nothing But a Song” na trilha de “Malhação”, Tiago Iorc se prepara para voltar aos palcos e aos holofotes com a “Umbilical Acoustic Tour” – assim, em inglês, como suas composições. Os primeiros shows acontecerão em Curitiba, neste e no próximo sábado (21 e 28), para depois seguirem pelas principais capitais do Brasil. Mas o cantor já usou o festival SXSW, realizado no mês passado no Texas, como termômetro para as músicas novas. “É completamente diferente tocar para um público em que a grande maioria não conhece nada a respeito do seu trabalho. No fim do show, recebemos comentários positivos e uma americana nos contou que havia viajado de Houston até Austin só para nos ver. Já temos uma fã nos Estados Unidos!”, comemora o compositor, que fez uma mini turnê pela Ásia no ano passado.

Thiago Iorc, com visual "Umbilical"

Thiago Iorc, com visual "Umbilical"

O público do cantor é amplo: vai desde as pré-adolescentes até as senhorinhas que assistem às novelas do horário nobre. Para divulgar “Umbilical” (Som Livre), ele teve que ir aos programas “Top 10” e “Acesso MTV”, que cultuam Justin Bieber e Rebeldes. Pareceu ficar desconfortável com a situação, mas não se aprofunda no tema. “Entendo que, em geral, o adolescente busca um ícone imagético de conteúdo compatível com as ansiedades da idade. Nunca procurei responder a essas expectativas”, avalia o artista, que agora exibe o rosto barbado. A mudança no visual valeu matéria no jornal O Globo, mas não é uma estratégia de marketing, segundo ele. “A aparência é resultado do cotidiano de alguém que vive mudanças ou que tem vontade de mudar”, filosofa.

O inegável apelo adolescente de suas músicas – classificadas no Last.Fm como folk, alternativa, pop e “sweet” (?) – além do sucesso nas trilhas sonoras – duas músicas de “Umbilical” já apareceram em novas novelas – impossibilitam colocar Tiago Iorc na prateleira indie, por mais que soe como tal. Ele, no entanto, se entende como rock. Seus ídolos são Jeff Buckley e Radiohead. “Os rótulos dependem da interpretação de cada um”, acredita Tiago, que não se importa com a condenação por ser comercial. “Não é necessário comercializar a música para dar continuidade ao trabalho? No início da carreira, optei por fazer coisas que foram necessárias naquele momento. Hoje, fica mais claro identificar para onde faz sentido ir e para onde não faz”, se defende o compositor, que já foi figurinha fácil nas páginas da revista Capricho.

Tiago Iorc, com visual "Let Yourself In"

Seu novo disco, no entanto, foi disponibilizado para streaming na Internet, o que é uma atitude carregada de significados. “Não queríamos desvalorizar a obra, mas sabíamos que esse compartilhamento aconteceria de qualquer forma. Então por que não disponibilizar o áudio com qualidade?”, conta o cantor, que teve uma série de discussões sobre o assunto com a gravadora. Mas a decisão fez sentido. Quando Tiago foi revelado, a indústria fonográfica já era outra. A liberação das faixas online funciona mais como uma divulgação do que um impasse. “Não disponibilizamos o download gratuito, em função do enorme trabalho e investimento envolvido. Isso precisa se pagar ou a música não acontece. O fato é que a dinâmica de consumo hoje é outra”, explica.

Tiago Iorc, que agora também é outro, regravou “Morena” para um disco tributo aos Los Hermanos. Antes, o cantor não gostava de se ouvir em português (ele morou na Inglaterra na infância e considera o inglês seu primeiro idioma). “Minha dicção em canções em português sempre me soou pouco natural. Mas dessa vez, conhecendo um pouco mais sobre como usar a minha voz, consegui chegar a um resultado que me agradou”. Mas compor em português ainda não está em seus planos. “Meu forte está em escrever em inglês”, afirma. Como se pode ver, muito mudou, menos a essência do artista.

“Eu estou forte… por vocês”, agradece Demi Lovato em show no Rio de Janeiro

Demi Lovato é bem clara: sua nova turnê é uma resposta ao apoio que recebeu dos fãs desde que foi internada em uma clínica de reabilitação em 2010. Na época, ela teve que cancelar uma série de shows no Brasil. “Vocês nunca ficaram com raiva de mim, vocês me apoiaram a cada dia. Eu sabia que podia contar com vocês. Não tenho palavras para expressar o quanto sou grata. Eu estou forte… por vocês”, discursou a cantora, recuperada, antes de cantar o sucesso “Skyscraprer” no show do Rio de Janeiro, na quinta (19/4).

O que se vê durante a apresentação é uma relação mútua de devoção, palavra que ela sempre repete ao comentar o fanatismo brasileiro. “Na primeira vez que vim, fiquei chocada com o comportamento dos fãs na América do Sul, principalmente no Brasil. Eles são muito devotados. Vejo muitos garotos nos shows aqui. Geralmente são só garotas. Gosto de alcançar um público maior”, avalia a artista, que recebeu um disco de ouro pela venda de 20 mil cópias do CD “Unbroken” no país.

O público é realmente dedicado. Com todas as letras na ponta da língua – incluindo o cover de “How To Love”, do rapper Lil Wayne, que Demi canta no show – a plateia, formada em maioria por adolescentes, leva cartazes e presentes para a “ídola”, além de faixas na cabeça e camisas personalizadas com versos de músicas.

A cantora responde com um show animado, adulto e bem ensaiado, com direito a palavrinhas em português. “Rio de Janeiro, tudo bem?!”, “Brasil, eu te amo!” e “Obrigada” compõe o vocabulário da americana. Ela também toca piano, violão e guitarra durante a apresentação. Em “La La Land”, Demi se atreve até a um duelo de guitarras com o instrumentista que a acompanha.

A troca de energia entre a cantora e a plateia é nítida. O agradecimento – deles, por ela estar de volta, e dela, por eles estarem presentes – conduz todo o show. “Na última vez que vim, estava triste e vocês me ajudaram, me inspiraram. Nunca vou me esquecer disso”, assume Demi, que aposta no estreitamento de sua relação com o público.

Com 19 anos, a cantora soube usar seus problemas pessoais – que refletiram em sua carreira na TV e na música – para promover seu CD e sua turnê, em uma espécie de “volta por cima”. O show do Rio de Janeiro, por exemplo, lotou. “Havia muitos fãs antes, mas agora aumentou. Se vou a um restaurante, tem gente atrás. Eles se sentem mais próximos de mim agora, porque estou mais aberta sobre minha vida pessoal. Amadureci e eles gostaram dessa mudança”, conclui.

Por Leonardo Torres
Postado no Portal POPLine
http://popline.mtv.uol.com.br/eu-estou-forte-por-voces-agradece-demi-lovato-em-show-no-rio-de-janeiro

Resenha: Demi Lovato – Show no Rio de Janeiro (+ 5 vídeos)

Link para a minha matéria sobre o show aqui.

“A Special Night With Demi Lovato” soa um título presunçoso para uma turnê de uma cantora de 19 anos, que conheceu o sucesso com a Disney e agora quer ser levada a sério. Mas ela cumpre o que se propõe no show e todos os fãs, que lotaram o Citibank Hall em plena quinta-feira (19/4), saem satisfeitos. Para eles, foi mesmo uma noite especial.

Ela se esforça ao máximo para fazer isso possível. Demi Lovato canta ao vivo (e não desafina) – o que é raro em artistas de sua safra – toca guitarra, violão e piano durante a apresentação. Dançarinos e coreografias, ao contrário do esperado, não existem. O foco é a música. Aliás, Sandy & Junior fizeram o mesmo em 2004, quando queriam mostrar amadurecimento. Tirar a dança de cena parece ser o caminho natural para pequenos prodígios crescidos.

Demi Lovato e suas duas backing vocals conseguem alcançar notas à la Mariah Carey, mas não se mantêm por muito tempo. Super carismática, ela tem completo domínio de palco e faz uma apresentação tecnicamente competente e estável, embora esquecível. Em “Lightweight”, ela pede para o público acender as luzes das câmeras, dos celulares ou de qualquer outro objeto e demonstra emoção com a obediência. Mas não convence. Anahí já fez o mesmo em “Salvame”, no Maracanã, seis anos antes.

O público também tenta proporcionar o ápice da noite ao surpreender a cantora com folhas de ofício escritas “Oh Oh Oh” no refrão de “Together” – uma reprodução do que os beatlemaníacos fizeram para Paul McCartney, no Engenhão, um ano antes, com o “Na Na Na” de “Hey Jude”. Mas Demi, neste momento, não responde ao carinho como ele merecia. Mas só neste momento.

Tive a oportunidade de participar da coletiva de imprensa da cantora antes da apresentação e é gritante a vontade dela de expressar sua gratidão aos fãs. Ela, que passou por uma temporada em uma clínica de reabilitação por distúrbios alimentares e emocionais, quer a toda custa dar de volta ao público o apoio que recebeu.

A “rehab” era uma das pautas proibidas da entrevista (sempre há um tópico intocável), mas a própria cantora, muito simpática, abordou o tema abertamente diversas vezes. No show, inclusive, ela fez referências aos seus problemas pessoais mais de uma vez, sempre agradecendo o amor incondicional da plateia.

Pareceu-me que Demi Lovato sabe dialogar bem com seu target. Usar o fundo do poço em que esteve como estratégia para promover seu novo CD e sua nova turnê é, no mínimo, inteligente. Motiva os fãs e é um prato cheio para a mídia, além de ser mais verdadeiro do que fizeram Britney Spears e outros ídolos em situações similares. “Os fãs se sentem mais próximos agora, porque estou mais aberta sobre minha vida pessoal. Amadureci e eles gostaram disso”, analisa a própria.

Por essas e outras, o show se torna mais uma comunhão do que uma tentativa de provar qualquer coisa a quem quer que seja. A sensação que tive, ao observar com distanciamento, não era a de presenciar uma volta por cima, mas um reencontro afetivo. Definitivamente, não é uma turnê para agradar a crítica ou conquistar novos fãs. Demi Lovato só quer fidelizar ainda mais as milhares de pessoas que já a acompanham há anos. Nisso, ela é eficaz.

Vídeos que fiz (o último é o que melhor define o show):

Sem limites: Tupac, morto em 1996, fazendo show em 2012 – onde vamos parar?

Esqueça tudo o que você já ouviu falar sobre materiais póstumos de ídolos da música. CDs com faixas inéditas, samples, duetos desautorizados com artistas contemporâneos, tudo, absolutamente tudo. Tupac, morto em 1996, quebrou todos os paradigmas ao aparecer no palco do festival americano Coachella no último domingo (15/4). Isso é o que chamo de ressuscitação pós-moderna.

Graças a um holograma, criado pela Digital Domain, responsável pelos efeitos especiais de “O Curioso Caso de Benjamin Button”, e projetado pela AV Concepts, Tupac voltou à vida e fez um dueto com Snoop Dogg. O resultado, que custou entre R$ 180 mil e R$ 740 mil, reluzia muito real, como se ele realmente estivesse ali no palco, e agradou tanto que agora já cogitam uma turnê norte-americana.

A digitalização parece não ter mesmo limites. Não se pode mais morrer em paz. O deslocamento geográfico, sem sair do lugar, proporcionado pela Internet, não satisfaz mais. O holograma do rapper indica um novo caminho: o rompimento cronológico. A aparição de Tupac mesclava, em um só momento, o passado, o presente e o futuro. É possível vislumbrar até um retorno dos Beatles, com todos seus integrantes. Ou uma performance do Elvis Presley com… Justin Bieber, afinal todo advento tem seu ônus. Você não tem a impressão de viver em um filme de ficção científica?

A própria decisão de sair em turnê com um Tupac virtual e irreal, apesar de impressionantemente progressista, é também um desrespeito. Vai saber se ele teria aprovado isso. Mas quem se importa? Em entrevista ao MTV News, o presidente da AV Concepts, Nick Smith, disse que os hologramas são uma oportunidade de ver os artistas mortos fazendo novos shows e cantando músicas que não cantaram antes. É como uma máquina do tempo com poder de interferência no passado (que deixa o artista morto sem autonomia).

Já sabemos que a tecnologia é capaz de trazer Tupac e quem mais for desejável de volta à vida, o que é considerado emocionante ou/e mórbido por quantidades similares de pessoas. Mas agora é necessária uma reflexão para que isso não se banalize e se torne um terror. Whitney Houston escapou, mas poderia ter cantado no próprio funeral. Imagine. Isso teria sido bom ou ruim?

UPDATE 18/04/2012 13:35

Quarentonas, traição e fofoca

Papo de duas quarentonas ao telefone:

– Mas não dê ouvidos à sua filha. Ela não sabe nada da vida. Tá revoltada.
– Eu sei, mas me sinto escolhendo entre ela e o pai.
– Que nada. Depois ela esquece.
– Mas e eu?
– Aí você tem que pensar. A decisão é sua. Mas se eu fosse você, passava por cima.
– Ele sempre foi um bom marido…
– Pois é. Não é de sair com os amigos, beber, nada. Foi um deslize.
– Mas que deslize, né?
– Verdade. Mas foi só na viagem. Isso é até melhor pra você, porque ele não vai ficar encontrando-a por aí. Não tem chance de ter recaída.
– Mas e o chip?
– Que chip?
– Não te contei? Ele comprou um chip com o DDD de lá e fica escondendo na carteira.
– Ah, sim. Mas isso você não pode reclamar, senão terá que admitir que mexeu nas coisas dele.

Fofoca de duas quarentonas ao telefone:

– A situação dela está complicada. Jamais imaginei que ele fosse traí-la.
– Isso estava na cara desde o início. Não pode deixar homem viajar sozinho não. Ela pediu.
– Mas ele foi visitar o irmão doente. Que horror. Como pôde ter tempo para arrumar alguém?
– Homem é homem. Sempre arruma. Não prestam.
– Falei para ela que talvez seja uma enfermeira que ele conheceu e está mantendo contato.
– Será?
– Não acredito. Mas ia falar o quê? Eu já tinha me separado no lugar dela.
– Eu também.
– Mas falei para ela passar por cima.
– Claro. Depois eles ficam bem e você sai como a venenosa.

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