Heleno, Rodrigo Santoro, Margaret Thatcher e Meryl Streep

Noite de sexta-feira, estreia do filme “Heleno”, sobre o craque do Botafogo dos anos 1940. Estou no cinema do Iguatemi, provavelmente o mais barato da cidade, e só há mais dez pessoas na sala. Não sei se babo pela atuação do Rodrigo Santoro – nada menos do que brilhante no papel principal – ou se me frustro com a falta de incentivo do meu povo à nossa arte. Mas o filme me fisga.

O longa acompanha a decadência do jogador Heleno de Freitas, viciado em drogas, álcool, nicotina e estrogênio. A história é contada em dois tempos cronológicos: o auge do atleta, irritadiço e temperamental, e o fundo do poço, internado em uma clínica psiquiátrica, vítima de sífilis. É um filme de ator, ainda que a direção de José Henrique Fonseca também tenha seu valor.

Heleno é um personagem – histórico e real, mas um personagem – arrogante, solitário, egocêntrico e decidido, que vive intensamente e dá o sangue pela profissão. Ele não admite que seus companheiros de time, “todos perna de pau”, não sejam fenomenais como ele. “Só deveríamos ser pagos quando vencemos”.

Santoro mergulhou fundo na história do personagem e o construiu muito consistentemente, com riqueza de detalhes e sutilezas, como sempre faz. Sua atuação foi muito física – o andar, a perda de peso, a convalescência, a demência – sem dever em nada ao psicológico do papel. Sem dever em nada à Margaret Thatcher de Meryl Streep em “A Dama de Ferro”.

Releia os dois parágrafos anteriores e veja se tudo que disse sobre Santoro não poderia ter sido dito sobre a atuação de Streep. Poderia. Atrevo-me a afirmar – sei que narizes já estão torcidos para mim – que o ator superou a atriz nesse trabalho. Embora ambas interpretações sejam louváveis, com personagens muito similares, cada um em seu contexto, o Heleno exige mais.

Thatcher é uma mulher autoritária, mas poderosa. É a primeira ministra da Inglaterra. Já Heleno se perde no deslumbramento pelo seu próprio nome, falando sobre si mesmo na terceira pessoa e colecionando recortes de jornais sobre ele. “Eu sou Heleno de Freitas!” Seu sonho é ganhar uma Copa do Mundo e jogar no Maracanã e, embora tenha talento para isso, sua personalidade e estilo de vida o destroem no meio do caminho. Ele é insuportavalmente interesantíssimo.

O jogador vivia pelo Botafogo, assim com a premiê por seu país. Ambos abdicaram das famílias e dos amigos pela carreira, mas ela tinha uma vida regrada e disciplina, diferentemente dele. Mesmo assim, os dois terminaram da mesma forma: débeis, remoendo o passado, focados em quem foram algum dia. Mas Heleno é muito mais tocante e devastador. Heleno é brasileiro ao extremo, Thatcher é a inglesa do chá das 17h. Outra diferença é a sala do cinema: Streep bombou, Santoro injustamente não.

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Uma resposta para Heleno, Rodrigo Santoro, Margaret Thatcher e Meryl Streep

  1. Camila

    Se tivesse me convidado, seríamos 11. =)
    Depois desta sua crítica, fiquei ainda mais interessada em ver o filme.
    Belo texto.

    RESPOSTA DO LÉO – Veja sim, Camila! Vale muito a pena.

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