Madonna: clipe novo, álbum novo e conceito velho

Madonna lançou nesta semana o clipe de “Girl Gone Wild”, segundo single de “MDNA”, seu novo CD, que sai na segunda-feira (26/3). Imediatamente, surgiram comparações com o vídeo de “Erotica” (1992), que continha cenas de orgias, sadomasoquismo e homossexualidade – tudo em preto e branco, como o atual. A “técnica de choque”, como define Douglas Kellner em “A Cultura da Mídia”, era a forma da cantora de pregar a liberdade sexual e lucrar com um público reprimido. Uma estratégia de marketing eficaz.

Com isso, Madonna foi de suma importância para a quebra de tabus e paradigmas, dando visibilidade a temas outrora polêmicos. Além do discutível título de Rainha do Pop, ela se tornou um ícone de transgressão e seus feitos perduraram nas gerações seguintes. Na indústria da música pop, todas as cantoras querem ser Madonna – assumidamente ou sutilmente. Sua estratégia de marketing, baseada na polêmica, é uma inspiração até hoje… e já se passaram 20 anos desde “Erotica”.

Como diz João Barrento em “Que significa ‘moderno’?”, “o que antes era rigorismo radical, com limites bem definidos, transformou-se hoje num culto do radical pelo radical”. O chamado fait divers, o acontecimento atípico, perdeu seu sentido e se esgotou na sede por emplacar singles efêmeros no topo da Billboard Hot 100. Depois que todo mundo já fez e já mostrou, nada mais choca. O difícil é ser polêmico. A melancia na cabeça já não funciona.

Lady Gaga – e não a cito aqui para criar uma dualidade com a protagonista do post – foi bem sucedida com a “técnica de choque”, explorando campos além da sexualidade. Cultuando o grotesco em seu vestuário e suas performances, ela voltou a fazer as pessoas arregalarem os olhos. Mas isso durou pouco tempo. A sociedade rapidamente se acostumou a sua peculiaridade.

Assim, “Girl Gone Wild”, não escandaliza mais ao brincar com a questão de gênero (o grupo ucraniano Kazaky aparece no vídeo – e na foto acima) ou colocar Madonna sensualizando no meio de um grupo de saradões, em cenas intencionalmente eróticas. Ela já fez isso antes. Várias vezes. E foi exaustivamente copiada. O público ficou imune e indiferente. Dessa forma, o clipe é mais nostálgico que transgressor. Se “Erotica” só era exibido depois da meia-noite nos anos 1990, “Girl Gone Wild” periga não repercutir no horário vespertino.

Kellner já havia escrito que tanto o CD “Erotica” quanto o livro “Sex” revelavam que Madonna estava caindo em uma armadilha ao não desbravar novos territórios. Em outras palavras, ela estava acomodando-se em sua própria caricatura, com o risco de se tornar “tediosa e previsível”. Isso em 1992. Só nos resta a constatação do óbvio em 2012.

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3 respostas para Madonna: clipe novo, álbum novo e conceito velho

  1. o disco erotica e o livro sex estavam longe de representar algo repetido. estavam no auge do que madonna expressava. eram “nitroglicerina”. bastava acompanhar a repercussão.

    e quem disse que madonna não deve “revisitar” aquilo tudo agora? quem disse que ela acha ou quer que isso tenha as mesmas consequências? quem disse que não se pode sentir a mesma inquietação excitante com as confusões de gênero em girl gone wild? basicamente, “tudo” já foi feito, dito. o que se faz é contar a história de outro jeito. então, quem disse que madonna não pode recontar uma história, com outros personagens e cenas, e isso ser uma história excitante?

    “rainha do pop” é discutível, claro. porque tudo é discutível. mas quem pôde e pode preencher esse papel se não madonna? vamos discutir os “reinados” de elvis presley, beatles, michael jackson, então. 🙂

    RESPOSTA DO LÉO – Gustavo, não questiono o reinado de Madonna. Mas é um título discutível e arbitrário. Como o de todos os citados por você também. Até porque, reis podem sofrer golpes, perder a cabeça e ser destronados a qualquer momento. Não acho que isso aconteceu com ela, mas é legítima a discussão por quem quer que queira fazê-la.

  2. Eu acho que faltei à reunião em que se discutiu a pauta “Madonna tem que reinventar a roda”.

    Leonardo, acho que você mal-interpretou o clipe de Madonna. Você percebeu as referências ao seu próprio passado, mas não entendeu o objetivo do clipe, que, entre muitas coisas, NÃO era chocar ou transgredir valores sexuais ou religiosos.

    Madonna preparou uma longa lista de discussões sobre o atual estágio da cultura pop que vai muito além do comentário “reductive” que virou febre na mídia. Aquilo foi apenas a ponta do iceberg. Nessa nova era: do disco, à apresentação no Super Bowl, aos clipes de “Give me all your Luvin” e “Girl Gone Wild”, a mensagem de Madonna é uma só: “só existe uma Madonna. Qualquer coisa semelhante, é apenas uma cópia redutiva e simplificada”. E sim, por ser “Madonna”, nota-se um teor transgressor a qualquer trabalho da mulher. Nem sempre de cunho sexual ou religioso.

    O clipe de “Girl Gone Wild”, ao contrário do que você disse, fica longe de ser caricato e atingiu o alvo em cheio: Madonna mostra que ninguém melhor do que ela mesma para fazer um clipe “madônnico” com mensagens subliminares que vão além do que é mostrado em vídeo. Aliás, caricatura do pop, “sem criar dualidade com Madonna”, é Lady Gaga, que em três anos, se tornou previsível em suas tentativas de aparecer em qualquer situação, ou Michael Jackson, que sobreviveu artísticamente como uma caricatura de si mesmo de 1993 até o dia de sua morte.

    Creio que Kellner se enganou perdidamente quanto ao livro “Sex” e ao CD “Erotica”. Desde 1992, Madonna vem provado que não caiu em armadilha alguma e, após a fase “Erotica”, não apenas re-inventou sua imagem completamente, como também se aventurou em novos territorios no campo musical.

    Sugerir que a moça que foi a “Material Girl”, que se tornou a dominatrix de “Sex” e “Erotica”, para então se tornar a “Spiritual Girl” de “Ray of Light”, que trouxe a “cool mom” de “Music” é uma caricatura de si mesma, é admitir não fazer a mínima idéia do que Madonna desencadeou no mundo do entretenimento nas décadas de 80, 90 e 00.

    Com o novo trabalho, está evidente que o objetivo de Madonna não é quebrar tabus sexuais ou religiosos – isso ela fez entre 80 e 90 (alguém esqueceu de contar para a Lady Gaga). A discussão subjacente no novo trabalho de Madonna trata do papel da mulher de cinqüenta anos na sociedade e o que ela representa, assunto que Lady Gaga irá tratar em seu trabalho daqui a 25 anos.

    Se a sociedade conservadora da era Reagan dizia que uma garota católica não podia cantar e se apresentar da forma que Madonna fazia quando ela estava em seus vinte e poucos anos de idade, hoje, aos 53, a situação se repete:

    Cinqüentona, divorciada e mãe de quatro filhos, Madonna está fazendo o oposto do que a sociedade “permite” uma mulher nesse estágio de vida fazer.

    Aos 53 anos, Madonna está disposta a provar que aos 50, a mulher pode ser forte e ativa, tanto fisicamente, como sexualmente. Vivemos numa era em que tratam a mulher de 50, a mulher pos-menopausa como sexualmente desabilitada: entrou na menopausa? Lamento, você passou do prazo de validade. Não pode entrar no clube, não pode ter cabelo comprido, não pode usar shortinho e, decididamente, não pode ter desenhos sexuais, se sentir bonita ou namorar rapazes mais jovens. Somente homens de 50 podem namorar mulheres mais jovens.

    Pobre é aquele que só enxerga “sexo” e “religião” no rico catálogo de Madonna, que vem permeando questões sociais e políticas também desde 1985. Aos 53, ela continua sendo transgressora. E o foco de seu novo trabalho não é “conceito velho” de forma alguma.

  3. Nicolás D' (@nicod_)

    No creo que el título de ‘Reina del Pop’ sea discutible, disiento.

    RESPOSTA DO LÉO – Pero el título es arbitrario. Quien la dió? Es como Michael, que se autoregaló el título jaja. No seria discutible si hubiera ganado un concurso contra todas las cantantes y eso… Y, por eso, mucha gente sí lo discute. Los fans de Britney, Lady Gaga y miles otras creen que son ellas las reinas 😉

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