O motorista, o camelô e os passageiros

Eram 11h30 da noite de um domingo quando o motorista parou em um ponto de ônibus da herma Avenida Presidente Vargas e abriu a porta dianteira. Devia ser o seu último percurso daquele dia de trabalho. Ele devia estar doido para voltar pra casa na santa paz de Deus. Mas um homem subiu as escadas e todo mundo notou seu estado anormal:

– Vou dizer logo a real para você – se dirigiu ao motorista.
– Desce agora. – o outro respondeu.
– Eu não tenho dinheiro pra passagem..
– Desce!
– …queria a ajuda dos passageiros para pagar a minha passagem.
– Desce agora!!

Os passageiros se limitaram a assistir à cena.

– Desculpa incomodar a viagem de vocês…
– Cala a boca! Desce! Já tô estressado hoje! Tô com pressa!
– A polícia levou todas as minhas mercadorias! Preciso de dinheiro para voltar pra casa. – ele estava com a blusa suja e, embora tivesse um copo descartável de café na mão, parecia um pouco alcoolizado. Não passava credibilidade, mas eu acreditei mesmo assim. Ele poderia ter enchido a cara depois de ter perdido seu ganha-pão. As pessoas afogam as mágoas assim.
– Cara, desce!!!

Os passageiros se limitaram a assistir à cena.

– Quero chegar até a estação do Riachuelo, pelo menos. Quaisquer 25 centavos ajudam. – dizia, equilibrando o copo de café na mão direita, enquanto gesticulava com a outra, com cara de pobre homem, encarando os passageiros.
– Eu vou ter que te arrancar daqui? – o motorista se levantou e começou a puxar o homem pelo braço. Para se defender, o pobre coitado se agarrou ao ferro da roleta, enquanto o cobrador lutava para impedi-la de girar acidentalmente. Ao notar que estava sendo puxado pela camisa, o pedinte começou a se despir. Tudo para permanecer dentro do ônibus. O motorista arrancou sua camisa e a jogou no meio da rua. O outro ficou ali, seminu, humilhado.

Os passageiros se limitaram a assistir à cena.

Os dois começaram a trocar socos e pontapés pouco certeiros, descontando a raiva de um dia desgastante um no outro. Com certo esforço, o motorista conseguiu expulsar o outro cara do ônibus, mas tinha que manter a luta para impedi-lo de voltar a entrar.

– Fecha a porta! – gritou ao cobrador, que se levantou, se colocou entre os dois e pediu para que parassem com aquilo tudo. O pobre coitado desistiu diante daquela repentina e deslocada serenidade.
– Devolve o meu negócio! Caiu aí dentro – se referia a um saco de amendoim mais vazio do que deixo, que devia estar no seu bolso anteriormente. Mas o motorista fechou a porta. O suposto camelô a golpeou, revoltado.

Os passageiros se limitaram a assistir à cena.

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