Bia, Esther, Vitória e as mudanças das aulas de Ciências

– Quem deve ficar com o bebê: a Bia ou a Esther?
– A Esther.
– É uma situação difícil pras duas. Eu não queria estar no lugar delas. Muito triste.
– É novela, mãe.
– Mas qual a graça de assistir sem se envolver?

Bia e Esther são personagens da novela Fina Estampa, da TV Globo, interpretadas respectivamente por Monique Alfradique e Julia Lemmertz. Bia é uma jovem, que namorava o professor da faculdade, com quem sonhava ter um filho. Mas ele morreu e ela doou seu óvulo para a clínica de fertilização da irmã dele. Esther é uma estilista quarentona, que trocou o marido pelo sonho de ser mãe, e encomendou um bebê de proveta. A médica – irmã do falecido professor – inseriu o óvulo da Bia, fecundado pelos espermatozoides do irmão, na barriga da Esther. Nasceu Vitoria, sonho e pesadelo de Esther e Bia.

Filhos sem o DNA dos pais. Mulheres parindo sem a necessidade de transar com homens. Homens engravidando mulheres depois de mortos. Médicos brincando de Deus – ou The Sims. Fico me perguntando o que minha avó acha disso tudo. Eu mesmo fico confuso com a quebra dos paradigmas das aulas de “Ciências”.

A trama da novela, se escrita há dois séculos, seria chamada de ficção científica. É basicamente isso: vivemos em um mundo sci-fi, com sons de Saturno vazando na Internet, celulares praticamente acoplados ao corpo, armários vazios e a tal nuvem lotada. O padrão de beleza, há muito, é inumano: silicone, cores do arco-íris nos cabelos, tatuagens, piercings, automutilações. Os desejos também: desde milhões de seguidores virtuais até mudanças de sexo.

Tudo muito normal, tudo muito cotidiano. Nós, humanos, já dominamos o mundo, mas queremos dominar a vida. Nas aulas de “Ciências”, aprendemos o ciclo: nascimento, crescimento, reprodução e morte. Simples assim. Já somos capazes de interferir nas três primeiras etapas. Contra a morte, seguimos lutando. As doenças ainda estão aí. Mas talvez não por muito tempo. Mais um século e teremos a opção de imortalidade, aposto. Vitórias, frutos de fertilização in vitro, poderão escolher pela eternidade. Imagina. Tudo muito normal, tudo muito cotidiano.

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