Bonzinho só se fode: minha saga na chuva para salvar o Nico

BUENOS AIRES – Já é noite e chove pra caramba. Fecho todas as janelas do apartamento, percebendo tardiamente que a água está molhando o piso. Seco o que posso, pensando no sermão que o Nico vai me passar pelo descuido. “Sos muy bobo eh”, consigo ouvi-lo dizer. Olho para fora e agradeço por estar dentro de casa. Pelo menos isso.

O celular toca. É uma mensagem dele, dizendo que está sem carteira e seu casaco impermeável. Ele quer que eu o busque na faculdade para socorrê-lo da chuva. Olho novamente para fora. “É sério isso?” – respondo e começo a me vestir, meio a contragosto.

Quando desço, vejo algumas pessoas na entrada do prédio, ressabiadas de encararem a chuva. Há poças enormes na rua, mas a calçada está caminhável. Encaro. Desço a rua até a avenida onde tomarei o ônibus. Ao chegar à esquina, uma onda molha minhas pernas na altura das minhas batatas. Para ser rápido, saí sem meias e agora meus pés estão encharcados. Sinto meus tênis pesados de tanta água.

Não há como chegar ao ponto de ônibus. A avenida está inundada. As pessoas permanecem imóveis onde estão, cercadas de água em pequenas ilhas de cimento. Penso em voltar para o apartamento e enviar um sms contando a impossibilidade de socorrê-lo. Mas me lembro de todas as vezes em que queria ajudá-lo e não pude. Decido ir. Afinal, o que mais pode acontecer? Meus tênis já eram.

Meto os pés, um seguido do outro, na piscina que se formou na calçada. Levanto-os alto para andar e piso com toda firmeza que me é possível. Tenho um guarda-chuva, que mantém a parte de cima da minha cintura seca, mas me causa desconforto com a ventania.

Chego ao próximo ao que seria o ponto de ônibus em dias secos. Fico ali, ilhado, ao lado de algumas pessoas. Os transportes passam direto, deduzindo que ninguém vai encarar a piscina, cujo volume só aumenta, para sair dali. Eu vou. Faço sinais mais bruscos para que percebam isso. Um para. Me arrasto até ele e entro, olhando pra trás e pensando: “Só eu mesmo”. Mando um sms para o Nico dizendo que quero matá-lo.

Quando desço, a chuva já parou. Olho a faculdade, sem nenhuma poça d`água ao redor, e me direciono à entrada lateral, onde ele estará, ansioso para estrangulá-lo. Entrego o casaco e a carteira, não sem antes dar um show de ironias. Ele tenta se desculpar e conto a minha saga.

– A chuva parou. Mas você sabe que seria horrível voltar para casa caminhando embaixo da chuva.
– É, seria. Mas foi horrível para mim, que não esqueci nem a carteira nem o casaco.
– Coitado!
– É. Também estou com pena de mim.

Esperamos pelo ônibus que nos levará de volta ao apartamento. Tudo que eu quero é tomar banho. Ele pergunta, brincando, se eu coloquei a mesa. Mas eu coloquei, de verdade. “Você tá sendo fofo hoje”. Aham, mas continuo querendo matá-lo. Percebemos que os ônibus não estão parando aí e caminhamos até outro ponto, pisando em um lamaçal. Como todo castigo para corno é pouco, quase caio. Deslizo e me desequilibro, levando duas garotas que vêm atrás da gente a morrerem de rir. Também rio. É melhor que chorar. Da próxima vez, vou fingir que não recebi sms nenhum. Melhor.

Anúncios

Uma resposta para Bonzinho só se fode: minha saga na chuva para salvar o Nico

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s