A lixeira virtual e os relacionamentos reais

Para onde vão os arquivos excluídos da lixeira, aquela que fica na área de trabalho? Para o buraco negro, talvez. Não se sabe. Desaparecem inconsequentemente de nossas vistas (dizem os geeks que não necessariamente para sempre, mas nunca comprovei). Fora do computador, a sensação é mais ou menos a mesma quando jogamos algo fora, já que os lixões e aterros sanitários localizam-se longe dos centros urbanos.

Ainda me lembro do meu primeiro celular. Era um modelo Gradiente, tijolão, cinza, com teclas em alto relevo, tela sem cores e o jogo da cobrinha como única opção de diversão. Os sms se chamavam torpedos. Eu tinha nove anos e fui um dos primeiros a aparecer com o aparelho na escola, levantando debates entre os pais sobre a utilidade ou não daquilo. Minha mãe aprovava a ideia, embora tivesse sido meu pai quem tinha me presentado. “É uma forma de manter contato em casos emergenciais” – mentia, me ligando sempre que possível. Levei alguns anos para trocar o celular por um mais moderno (mas pré-histórico se comparado aos atuais). Na época, não ter câmera embutida foi uma opção (que já não existe mais).

Da minha primeira câmera digital, com pouco zoom óptico e menos megapixels, me lembro menos. Mas não me esqueço das fotos, todas de péssima qualidade quando impressas na Kodak, mantendo hábitos antigos. Nesse caso, não demorei tanto a trocá-la por um modelo melhor, uma Cyber-shot relativamente decente, que encontrei perdida no meio de quinquilharias durante a mudança. Finalmente, foi para o lixo, embora já estivesse morta há anos.

Minha mãe troca de celular, pelo menos, uma vez por mês. Ela mantém cerca de 10 aparelhos em casa – seus preferidos. Mas não é a única. Tenho amigos que estão com modelos novos e mais contemporâneos a cada vez que os encontro. Seus computadores/notebooks/tablets/etc também viram sucata com facilidade impressionante. É como jogar arquivos na lixeira e substitui-los por novos interesses.

Noto que isso também tem acontecido com seres humanos, que se tornaram descartáveis. A simbologia do fim de um relacionamento é excluir o desafeto das redes sociais. As fotos também são apagadas, em respeito à “nova vida” (supostamente literal e não o nome da igreja). Às vezes, sobra para os amigos em comum, obrigados a optar pela permanência no perfil de apenas um dos integrantes do ex-casal. Tudo vai para a lixeira eletrônica, sai da nossa vista.

Muitos o fazem pelo desejo de superar o triste acontecimento, esquecer o romance infrutífero. Outros fazem só pelo hábito. Mas a maioria faz. É uma forma de declarar que se está aberto para um modelo melhor e mais confiável de ser humano. Uma relação mais duradoura, não necessariamente, como os celulares.

Anúncios

Responder a A lixeira virtual e os relacionamentos reais

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s