O desconforto de encontrar um desconhecido que te carregou no colo

Meia-noite. Tenho que passar por um bar pé de chinelo para chegar em casa. Como sempre, não quero chamar a atenção dos pinguços. Institivamente, caminho reto e olhando para o chão. Quando estou prestes a superar o obstáculo, ouço um grito:

– Lééééééééo!

Me viro.

– Tudo bem?

Não o reconheço. Não é como se eu não lembrasse de onde o conhecia. Eu simplesmente não o conhecia. Tinha certeza disso.

– Tudo. E você? – não queria discutir com um bêbado que sabia meu nome.
– Também. Não tá se lembrando de mim, né?
– Não. Quem é você? – tentei ser o mais simpático possível, enquanto dizia a verdade e apertava a sua mão frouxa.
– Te carreguei no colo, moleque!

Ai. Meu. Deus. A essa hora?

– Ahhh. – descobri que a situação seria mais difícil que eu imaginava.
– Sou amigo do seu pai. O Léo! – faz pose de fortão, satirizando-o – Da Nina!! Crescemos juntos.
– Que legal.
– Cara, o Léo! Aquelas coisas lá…
– É…
– Mas é meu brother. Não falo nada não. Meu amigo. – volta a imitar meu pai, ficando na ponta dos pés e fazendo gestos de grandiosidade – Quero nem saber! E Marinha?

Marinha devia ser a forma dele se referir à minha madrinha, Mara, que morreu. Subentendi.

– Morreu. Vai fazer um ano.
– É, eu sei, eu e minha mãe ficamos sabendo bem depois. – omiti a irritação da minha mãe com relação a esse episódio.
– Nossa. Marcelo também, né? – agora ele falava do meu tio, que não sei exatamente quando morreu, porque esqueceram ou preferiram não me convidar para o velório. Coisa de família desestruturada.
– É, está uma maré difícil – foi o primeiro comentário que veio à minha cabeça.
– Cara, fala pra sua mãe… ela vai se lembrar de mim.
– Qual o seu nome?
– Antônio Carlos. Cresci com eles, cara. Todo mundo. Fui casado com a mãe da Samyra.
– Ah, a Samyra eu conheço! É minha amiga – me animei, por finalmente reconhecer na conversa alguma afinidade.
– Eu sei. Vocês brincavam juntos pequenininhos.
– Disso eu não lembro, mas a gente se reencontrou mais velho e virou amigo de novo.
– Me separei da mãe dela tem um tempo. Você tá com quantos anos?

Faço força para lembrar.

– Hm.. 22!
– É isso aí! Gostei de te ver. Vai lá.

E fui. O mais rápido possível.

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