Adolescência virtual

2h30 da manhã e eu não sinto um pingo de sono. Isso é atípico. Faz lembrar a minha adolescência, quando eu tinha férias de verdade e me deitava por volta das 4h/5h da manhã. Acordava às 14h, 15h. Uma vez, minha avó deixou que eu me levantasse às 17h30. Foi satisfatório, mas estranho. Não sabia se almoçava ou jantava.

Não sei se eu era mais ou menos nerd do que hoje. Mas eu acordava e dormia com a Internet, em uma época em que não existiam smartphones, o que significava que eu não saía de casa. Minha mãe, ao contrário das outras, me incentivava a sair com os amigos. “Você precisa viver! Se divertir! Vai perder a juventude aí nesse quarto!”. Eu não dava ouvidos. Ela não entendia.

Tenho algum tipo de bloqueio corporal, adquirido em alguma parte da minha infância, que me impede de dançar, por exemplo. Me impede também de ser descolado. Digo que isso surgiu na infância, porque me lembro de gostar de dançar antigamente. Eu colocava o rádio na janela e ia para a vila fazer coreografias na frente dos vizinhos. Hoje em dia, isso jamais aconteceria. Não consigo soltar o corpo. Sou travado. Prefiro assistir à Dança dos Famosos.

Estou dizendo isso porque, de repente, todo mundo passou a sair para dançar. Na época, eram as matinês, que serviam de desculpa para que a garotada “ficasse”. Eu não me sentia bem nesses lugares e terminava a noite pelos cantos, me sentindo excluído. Talvez me soltasse se bebesse. Mas não bebia. Não bebo. E também não queria me soltar.

Preferia viver o virtual, com amigos tão reais quanto fictícios – eu nunca iria saber, eu não queria saber – e tão deprimentes quanto eu. Conheci muita gente psicótica naquelas madrugadas e eu adorava todas. Gostava de salvar vidas, tentar trazer alegria para elas, ouvindo desabafos ou causando risadas. Lidei com potenciais suicidas, mulheres que amam demais, garotos enrustidos demais, gente descontrolada… demais. Algumas histórias cheiravam à mentira, mas era fascinante acreditar nelas. Eram mentirosos demais.

Mas, de repente, eles sumiam. Arrumavam um namorado – o primeiro ou um novo. Faziam amigos reais. Passavam a ter uma vida real e, embora prometessem que não, se conectavam cada vez menos, até desaparecerem. Se adequavam à sociedade. Eu não. Eu arrumava novos coleguinhas problemáticos. No fundo, eu sabia que todos eram passageiros, por mais que declarássemos amizade eterna. Intensos e fugazes.
Eram mais ou menos como amores de verão. Sabe quando você viaja para o litoral, faz amigos novos, se apaixona e chora a separação, tudo no curto espaço das férias? Era assim, só que sem a viagem e o cenário paradisíaco. Era tudo cibernético. Na volta às aulas, eu não estava bronzeado. “Mas os sentimentos são reais”, eu costumava dizer. Sim, eram. Mas e a vida?

Comecei a ter medo de envelhecer e não ter lembranças fotográficas. Imagens. Muitas histórias, muitos sentimentos, mas poucas imagens. No dia que eu morresse, minha vida inteira passaria em resumo e eu estaria sentado na cadeira, de frente para o computador, em todas as cenas. Ali, rindo, chorando, sofrendo, me divertindo com uma máquina. Deprimente. Talvez seja por isso que, até hoje, eu guarde os históricos do MSN: são as provas de uma subvida, mas a minha.

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