Gente que não vai sozinha ao cinema

Tem gente que vai sozinha ao cinema. E tem gente que não. Tem gente que não nota que há indivíduos sozinhos na sala. Já outros olham torto e pensam em como eles são solitários. É o preconceito com quem assiste a filmes sozinho, como se fôssemos uma aberração. Mas qual é o problema, afinal?

Não é como se nós tivéssemos rogado por companhia e tivéssemos fracassado. Não é como se não tivéssemos amigos, namorados, familiares. Também não somos autistas. Eu hein. Sempre que estou sozinho no cinema – tenho esse hábito desde adolescente – e encontro algum conhecido, sou capaz de ouvir seus pensamentos. Parece que eu sou um avatar, um smurf ou a Cuca, tirando pela cara de surpresa que fazem.

Não é como se eu tivesse fobia social ou algum outro distúrbio mental. Na verdade, tenho preconceito com quem só vai ao cinema acompanhado. Te digo o porquê: essas pessoas – vocês! – limitam o cinema a um lazer coletivo (além de serem totalmente dependentes!!!). E isso trás muitos significados ocultos…

Se você só vai ao cinema acompanhado, provavelmente só assiste a um tipo de filme, os de entretenimento barato. Você ignora o cinema de reflexão e, portanto, não pensa e não conhece outras narrativas. E não chora também – porque fica feio chorar na frente dos outros. Enfim, você é um chato.

Para completar, você se enche de pipoca enquanto os trailers passam e, após a sessão, engole um lanche do Mc Donald’s. O seu passeio não é saudável. Já quem vai sozinho ao cinema, raramente comprará pipoca e pode, depois da sessão, jantar de verdade (fora ou em casa), fugindo das batatas fritas. É fato: grupinhos não saem dos cinemas para os restaurantes, mas sim para as lanchonetes.

São programas diferentes: o sozinho e o coletivo. Os dois são agradáveis. Há dia, humor e filme para ambas as opções. Se não compreende, respeite.

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Tenho a voz igual a do Cazuza, dizem

– Caramba! A sua voz é a igual a do Rafael, o Cazuza…

É Rafael ou Cazuza? Cazuza, o cantor?

– …um cara que trabalha aqui também.
– Ah, é?
– Nossa. Achei que fosse ele.
– Olha, eu detesto a minha voz, então odeio a dele por tabela.

Dei uma risadinha e temi ter sido rude. Não era a minha intenção, mas acho boboca quem anda por aí comparando as pessoas, se elas não se conhecem. O comprado – no caso, eu – é obrigado a fingir interesse e admiração pelo assunto, quando, na verdade, sua imaginação trabalha no breu. Ignorei o tema.

Mas pouco depois, a informação começou a se disseminar e outras pessoas passaram a dizer que eu tinha MESMO a voz igual a do tal Cazuza.

– Gente, é igualzinha. Pensei que fosse ele.
– É, tão me falando isso hoje.
– O Cazuza faz um trabalho aqui…
– É, tô sabendo. Hehe
– É Cazuza, mas o nome é Rafael.
– Ah.
– Gente muito boa ele.
– Que bom.

É. Eu estou acostumado a ser informado da existência de meus sósias pelo mundo, frequentando lugares inimagináveis para mim. Mas cover de voz é bizarro. Fico imaginando se algum dia eu me torno uma pessoa séria e relevante e o cover decide me sacanear. Pega um sósia desses, junto com o áudio do cover falando várias merdas e pronto. Se vazarem ligações telefônicas minhas, saibam: não sou eu, é o cover.

Luan Santana tem patrimônio de R$ 50 milhões. Como faz?

Desde que Justin Bieber, 17 anos, pisou em solo nacional, no mês passado, pouco ouvi falar da versão brasileira Luan Santana, 20 anos. Mas deu no jornal Extra de hoje que o cantor pop sertanejo já tem um patrimônio de R$ 50 milhões. Com a cotação atual do dólar, a conversão dá quase US$ 27 milhões. É muito dinheiro, né?

O primeiro pensamento que invadiu a minha cabeça maliciosa foi “mas ele começou ontem!”. Como pode ter feito tanto dinheiro em tão pouco tempo? Googleei. Seu primeiro e único CD de estúdio foi lançado em 2009 pela Som Livre. No fim do mesmo, chegou às lojas a versão ao vivo – responsável pelo boom de “Meteoro” [da Paixão]. Concluindo, sua trajetória profissional não ultrapassa os dois anos.

Como havia imaginado, é pouquíssimo tempo para tanto lucro. Lembrei de uma matéria antiga, de quando Sandy ainda era publicamente virgem, que dizia que o patrimônio dela e do irmão era de R$ 30 milhões (agora não lembro se 30 cada um, ou 30 para os dois…). Mas a questão é que, naquela época, eles já tinham uns 10 anos de carreira e eram um fenômeno ainda maior que Luan. Eu acho.

Perguntei-me quantos milhões teria, então, Ivete Sangalo, tão popular quando Luan, mas com muito mais estrada nas costas. Dependendo do patrimônio da baiana, o número divulgado pelo jornal poderia ser questionável (na verdade, eu já estava questionando…). Mas os resultados de minha busca calaram a minha boca. Ivete, dizem, desfruta de R$ 180 milhões.

Bem mais que Luan Santana, mas não se imaginarmos que ele continuará faturando no ritmo que fatura hoje. Te explico: Ivete começou a carreira em 1993, na Banda Eva. Lá se vão 18 anos. Uma média de R$ 10 milhões por ano de carreira, enquanto que a média de Luan é de R$ 25 milhões anuais. Ou seja, se continua assim, ele terá R$ 450 milhões em 2027, quando completar 18 anos de carreira. Ivete, nas mesmas condições, teria US$ 340 milhões. LUAN VAI BARRAR IVETE.

Mas é claro que isso é uma suposição. Lóóóóóóógico. Parabéns para o menino que já fez seu pé de meia, porque é improvável que o público o aguente por mais 16 anos. A criançada vai crescer e esquecer o meteoro da paixão. Ou não. Vai saber.

Respeito o Kinder Ovo como uma divindade

Eu me pergunto se alguém ainda come Kinder Ovo. Eu não como. Quando era criança, fazia coleção daquelas tranqueiras. Adorava. Amo chocolate, mas queria mesmo era o brinquedinho. Lembro da coleção de Smurfs. Eu não sabia quem eram os Smurfs, mas queria ter a coleção completa. Era do Kinder Ovo!

O chocolate também era bom. Eu gosto disso de preto por fora e branco por dentro. É mais ou menos a proposta do bombom Ouro Branco (adoro também), só que ao inverso. Mas eu não como Kinder Ovo desde os anos 1990. Com certeza. Mais ou menos quando deixei de comer também a Tortuguita (lembra?) – esse um chocolate de péssima qualidade, embora comer as patinhas primeiramente fosse irrestível.

Sei que de repente minha avó parou de comprar Kinder Ovo. Ficou caro. Não sei o preço anterior, nem o atual. Mas todo mundo diz que encareceu assustadoramente. Continuo vendo-o nas prateleiras das lojas, mas não vejo ninguém comprando. E as bugigangas nunca mais fizeram sucesso: as crianças de hoje em dia querem besteiras digitais.

Por mais caro que seja, eu poderia comer um de vez em quando. Às vezes, pago R$1,50 nos bombons da Cacau Show, o que me parece um valor absurdo (mas compensável). A gente se dá o direito de gastar irresponsavelmente, não é? Claro que sim.

Mas a minha relação com o Kinder Ovo é peculiar. Acho que não compro para não deixar de cultuá-lo. O sabor pode não ser tão bom quanto eu lembrava. E o brinquedinho certamente irá pro lixo, o que perderia toda a graça. Prefiro deixar assim, como se o Kinder Ovo fosse um portal para a infância, que só recorrerei em um dia de extremo desespero.

Delírios com as uvas grandes

Sabe esses uvões? Eles são realmente grandes. Maiores que qualquer par de testículos extremamente enormes (já ouvi falar de uma espécie de gigantismo nessa área). Eles são tão grandes que trazem cerca de três ou quatro sementes dentro deles. E elas também não são pequenas.

Eu as como, embora minha mãe reclame. Ela também não apoia que eu coma a casca cheia de agrotóxicos, mas eu como. Ela implora para que eu a lave bem, em água corrente, antes de comer, então. Também não faço isso, por preguiça e por saber que isso não é suficiente.

Uma higienização correta exige 20 minutos de molho em água com vinagre ou algo similar, além de duas lavagens em água corrente – uma antes e outra depois. Que tipo de pessoa se empenha tanto para comer umas uvas? Nem o descongelamento da lasanha no microondas leva 20 minutos.

E eu nem gosto muito daquelas lasanhas artificiais. Mas entre esperar 15 minutos por uma e 20 minutos por um cacho de uvas… não há dúvidas. Eu gosto de uva. Mas odeio suco de uva – e vinho! Já repararam que não existe biscoito ou bolo de uva? Pois é. A uva só é boa como produto final, não como matéria-prima.

Opinião minha. Há quem beba vinho diariamente. “Faz bem pro coração”, dizem. Para mim, isso se chama alcoolismo. Mas as pessoas fazem vista grossa para o vinho, como se fosse uma bebida isenta de culpa. Um porre de vinho é quase divino, afinal Jesus transformou água em vinho. Ou algo assim. O vinho é o sangue dele, acreditam. É o lado heavy metal de Jesus. Melhor eu me calar.

A empregada resolveu dar uma festinha na casa da vovó

Minha avó definitivamente não tem sorte com empregadas. Desde que Fortaleza foi demitida pela enésima vez, vovó está dividindo a casa com outra doméstica-acompanhante, que chamaremos aqui de… Veneza! Acho que já falei sobre ela antes.

Veneza limpa a casa como ninguém, faz comida como ninguém, mas – sempre tem um MAS, senão esse post não teria razão para existir – é abusadinha. Ela acredita que a casa também é dela, erroneamente. De uns tempos pra cá, está recebendo visitaas.

Veneza tem seus 50 e tantos e está namorando um garoto de 20, desempregado. Em vez de fazer companhia para a minha avó – sua principal função – ela prefere passar os dias no salão de beleza, a espera de um milagre.

E, falando em espera, Veneza não aguenta de saudade do seu garotão. Não consegue esperar para vê-lo nos fins de semana, então andou convidando-o para passar um dia na casa de minha avó, que não foi consultada. Para quê?

Só que o garoto, de alguma forma, não quer estar a sós com a namorada – assim concluí – e levou sua irmã para o passeio. Então, a cena ficou mais ou menos assim: minha avó, Veneza, o namorado e a cunhada na sala. Acho que vovó nunca viu a casa tão cheia – e não gostou da experiência.

Prova disso é que, na primeira oportunidade, vovó inventou de sair com minha mãe. Deu bobeira: quando os gatos saem, os ratos fazem a festa. Veneza convidou sua cunhada para um chá das 5h. Louca. Recebendo visitas, sem autorização, na ausência da “patroa”… Alguém tá precisando lembrá-la que ela não é da família.

Museus: ao alcance de todos, usufruidos por alguns

Andei lendo com atenção especial um texto de Guilherme João de Freitas Teixeira sobre os museus europeus. Suas pesquisas identificaram que, apesar dos valores dos ingressos serem simbólicos, as classes populares não têm o hábito de frequentar exposições e que se sentem perdidas quando o fazem, sem a cultura mínima para entender o que está diante delas.

Teixeira diz que as pessoas das classes menos cultas costumam fazer a primeira visita aos museus mais tardiamente que as classes privilegiadas, que, por isso, adquirem maior familiaridade com o ambiente. Essas visitas dos populares também estão mais associadas à excursões escolares e turismo do que à iniciativa familiar.

Esse é o quadro europeu. Imagine o brasileiro. Comecei a divagar. Faço parte de uma chamada classe média – não sei se se baixa, mediana ou alta (acredito que baixa) – mas fui privilegiado em termos culturais. Sei disso.

A primeira vez que fui a um museu foi por intermédio da minha mãe. Depois, voltei lá, com a escolinha. Quando meus coleguinhas começaram a ir ao cinema, isso já era um hábito para mim, que já sabia como me portar, enquanto suas mães ficavam desesperadas para mantê-los calados e sentados. Também fui frequentador assíduo de circos, shows musicais, peças teatrais e patinação no gelo. Ah… os shows do Holiday on Ice no Maracanãzinho! Amava.

Na maioria das vezes, quando a escola levava a turma, eu já conhecia o lugar. Só o planetário, acredito, conheci por intermédio dos professores. Minha mãe dizia que era muito longe de casa e “fora de mão” (anos mais tarde, eu trabalharia na rua do local, ironicamente).

Também ia com prazer à Bienal do Livro antes de aprender a ler ou me interessar pela leitura. Comprava revistinhas de colorir e olhava a arte das capas dos livros. Naquela época, o apelo infantil do evento era muito menor do que atual. Mas eu gostava mesmo assim.

Minha avó e minha mãe sempre pregaram a pobreza em casa, querendo manter meus pés no chão, mas nunca economizaram com comida nem com cultura. Minha mãe, particularmente, enxergava um investimento na compra de livros para mim (principalmente quando eu ainda lia timidamente, não gostando muito da atividade). Acho isso importante.

Voltando aos museus, eu adoro. Quando planejo uma viagem, minha primeira busca é por museus. Geralmente, são muitos, e tenho que fazer uma seleção dos mais interessantes. A sensação de ver ao vivo uma obra que conhecia de miniatura nos livros é inexplicavelmente boa. É emocionante, sim. É a melhor forma de entrar em contato com o passado.

E as entradas são realmente muito baratas, às vezes gratuitas. Admito que despertar o interesse por obras de arte em crianças seja uma tarefa difícil, mas não há momento melhor para isso do que a infância. É só escolher as exposições corretas, com instalações interativas e tudo mais. Acredito nessa possibilidade. É importante para abrir a mente.

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