O desistir de tudo

Recebi a notícia e acreditei ter digerido com relativa facilidade. Tomei banho, refletindo. Deitei-me para ler a nova edição da Rolling Stone, evitando o computador (geralmente leio as revistas nos ônibus). Talvez eu estivesse fugindo da barra que deveria encarar, de alguma forma. E não queria. Não sei lidar.

Não éramos próximos e mesmo assim é o caso mais próximo com o qual tive contato – o que já é sensível demais para mim. Tem gente que já viu desconhecidos desistirem. Eu não. Também não o vi. Mas a notícia foi um baque, porque eu o conhecia. E nunca percebi nenhum indício.

Estive com o John apenas uma vez, eu acho, em 2008. Já faz tempo. Ele usava roupas negras, uma mochila aparentemente pesada e uma barbinha no queixo, como os bodes – aquele visual me irritava. Mas ele era gente boa, um cara agradável, amigável. Um pouquinho sem noção, mas maneiro – bem diferente da primeira impressão que havia me passado.

Nunca mais o vi, mas não perdemos contato. Seguíamos trocando algumas palavras virtuais vez ou outra, e até nos arriscamos em conversas mais profundas em momentos mais escassos. Eu já disse que ele era um cara legal?

Era sim. Jamais imaginaria que ele fosse fazer isso. Mas geralmente é assim, né? Ninguém imagina. Na verdade, eu nem pensava muito nele. Na verdade, eu não pensava nada. Era só um colega, um conhecido. Mas se eu tivesse que apontar um potencial suicida ao meu redor, não seria ele. O clichê é válido: por quê? Mais clichê é a falta de resposta.

Quem comete o suicídio, acredito eu, são pessoas excessivamente introspectivas, insatisfeitas com a vida e conformadas com a impossibilidade de melhora. Quem conversa, ouve uma palavra de esperança. São desistentes. Corajosos ou covardes? Não sei. Não gosto de julgar isso. Não sei o dia de amanhã.

Já bati de frente com tentativas de suicídio de pessoas que eu realmente amava/amo. Já tentei salvar (no meu ponto de vista da história – ainda que admita que a morte possa ser um salvamento às vezes). Elas não se mataram – mas não credito isso a mim. Quem quer, faz. Mas gostaria de ter tido a oportunidade de convencê-lo do contrário.

Embora seja uma decisão 100% pessoal, afeta tanta gente ao redor. Acho que isso tem seu peso. É claro que ninguém vai carregar o fardo de uma vida por causa dos outros, mas… sei lá. É triste. Ninguém é obrigado a viver, ninguém pediu para nascer. Somos lançados à loucura que é esse mundo sem sermos consultados. Dar fim a isso tudo é, claro, um direito. Mas ainda assim um choque para quem fica.

Que o John descanse em paz e tenha feito a escolha certa para ele. Seu sofrimento cessou para dar início ao de seus amigos e familiares. Tenso. Inegavelmente tenso.

2 respostas para O desistir de tudo

  1. Marina

    em algum livro, não lembro mais qual, li que quem se mata quer acabar com a dor, não com a vida. Acho verdadeiro. Vou num evento, com palestras e tal, sobre isso na UERJ esses dias…se tiver algum interesse, é aberto!

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