Rock in Rio: Stevie Wonder dá aula de ‘música de verdade’

O show do Stevie Wonder no Rock in Rio ainda não terminou – no momento em que comecei a escrever essas palavras – mas já posso dizer que o cara subiu ao palco para dar uma aula do que é música. Menos é mais.

Em um festival em que o público se acostumou a ouvir desafinações, playbacks e faltas de ar dos seus ídolos, eis Stevie Wonder. Nos últimos dias, ouvi declarações como “ela tem uma ótima presença de palco” e “os figurinos e cenários são incríveis” como tentativas de explicar o injustificável: as atrações não sabem cantar.

O show de Stevie é muito simples. Não há supercenários, nem superfigurinos (na verdade, ele parece estar cantando com um pijaminha confortável), mas há uma superbanda, superletras e um supercantor – tudo que importa de verdade.

Não é isso o que se espera de um show, quando você paga um ingresso caro? Os clímax são uma homenagem a Michael Jackson ou uma palinha de “Garota de Ipanema” – e não trocas de perucas ou a destruição de uma guitarra. Em pensar que Stevie quase ficou de fora da line-up… até agora, foi o melhor show que vi no festival.

Rock in Rio: festival de excentricidades públicas

Semana passada, Katy Perry desembarcou no Rio de Janeiro usando uma máscara de Carmem Miranda – pelo que entendi, aquele cabelo rosa não era o suficiente para chamar a atenção. Hoje, a cantora Ke$ha chegou à cidade com um tubarão de pelúcia amarrado na cara – uma máscara improvisada.

O crítico musical Jamari França falou sobre ela no Twitter dia desses. “Essa Ke$ha pelo menos é sincera, mete o cifrão no nome para dizer que apela para ganhar dinheiro. Mas é uma sub sub sub Madonna” (sic).

Posso estar errado, mas comparar Ke$ha com Madonna me parece, no mínimo, incoerente. A mais velha apelou bastante ao longo de sua carreira – eroticamente falando – mas nunca foi muito adepta do culto ao grotesco. Isso é coisa da geração Lady Gaga.

A cantora de Poker Face levou as excentricidades do palco e dos bastidores dos shows (na maioria, clássicos como as centenas de toalhas brancas e outros pedidos exóticos para os camarins) para o dia-a-dia. Li uma entrevista da Lady Gaga para Billboard – acho – e ela dizia que era aquilo 24 hora por dia. Não existia mais Stefani Joanne Angelina Gemanotta (seu nome verdadeiro).

Ela levou isso ao extremo quando passou no tapete vermelho do Grammy deste ano dentro de uma cápsula (lembra?). Geralmente, os artistas posam para as fotos com uma roupa e se apresentam com outro figurino. Ela não. Chegou dentro de uma cápsula e só saiu dali no palco, misturando realidade e performance. Louquinha, eu sei. Mas interessante.

Katy Perry e Ke$ha me parecem discípulas, com relação esse fato específico das máscaras no aeroporto. É como se essas artistas tornassem a vida uma grande performance, só sendo elas mesmas na segurança dos quartos de hotéis trancados. Talvez nem isso – se elas não tiverem autocontrole emocional.

Dá uma olhada: clipe novo (e fetichista) de Nader Assaf

Meu amigo querido Nader Assaf lançou hoje o clipe da música “A Vida Como É”, uma das minhas favoritas, que faz parte do álbum “Velha Juventude”, lançado em 2009.

No vídeo, ele interpreta um cantor (oh!) que flerta com o garçom de um bar no qual se apreenta. Só há um detalhe: sua namorada está sentada em uma mesa bem ali, assistindo-o. Ao que parece, ela é linda, mas não insubstituível.

Cada detalhe do clipe é esteticamente lindo: do microfone ao carro da primeira cena, tudo com um quê de novela de época – algo que essa música sempre me remeteu. Vale a pena dar uma conferida (depois me diga o que você achou):

Missão Madrinha de Casamento > Se Beber, Não Case!

O filme “Missão Madrinha de Casamento” (Bridemaids) tem como pano de fundo as vésperas de um matrimônio, um grupo de amigas e muita confusão. Pra completar, elas quase viajam a Las Vegas para a despedida de solteira da noiva. Quase. É, você já assistiu a algo parecido antes, eu entendo. As comparações com “Se Beber, Não Case!” são inevitáveis – mas não esgotam o tema.

Li uma meia dúzia de críticos se referindo ao filme como a versão masculina da comédia com Bradley Cooper (“Esquadrão Classe A”), uma comparação que traz consigo uma carga pesada. “Se Beber, Não Case!” (o 1, porque o 2 eu me recusei a ver) é um pastelão – e agradou ou desagradou o público por isso. Mas esse não é o caso de “Missão Madrinha de Casamento”, estrelado e roteirizado por Kristen Wiig (“Saturday Night Live”), em parceria com Annie Mumolo (?) na segunda função.

Antes de mais nada, eu não classificaria o filme como uma comédia, assim tão puramente. Nem mesmo uma comédia dramática – termo paradoxal que tem sido bastante usado por aí. Ousaria arriscar o avesso disso: um drama cômico. É, é isso aí.

A trama acompanha Annie, uma americana que perdeu seu negócio, seu namorado e sua auto-estima, enquanto a situação só piora. É uma história sobre a relação das mulheres, ou talvez do ser humano em geral, com o fracasso. Ela é convidada para ser a madrinha do casamento da melhor amiga e passa a se desentender com a mulher do chefe do noivo, que não consegue deixar de ser perfeita e intrometida. As duas passam a competir pela atenção da noiva (mulheres…). Climão.

Retirando as duas últimas frases da sinopse, o filme passaria longe de uma comédia. Essa competição é o gancho para as cenas de humor, intercaladas com as do drama pessoal da protagonista, que em muitos momentos fala com os olhos. Mais do que extroversão, “Missão…” é introspecção – constatação suficiente para desfazer as comparações com “Se Beber…”. Este segundo é a pura comédia americana, com aquela fórmula idiota de fazer rir a cada não sei quantos segundos.

Gostei de verdade do filme, ameaçando algumas risadas (é difícil eu rir com bobeira) e dando muitos sorrisos de auto reconhecimento. E ainda tem Chris O’Dowd (série “The IT Crowd”) em uma versão mais madura de Tom (Joseph Gordon-Levitt em “500 Dias Com Ela” – eu sei que você também se encantou).

Tchau tchau, Fortaleza – de novo!

Eu sei que você se lembra da nossa, hum, querida Fortaleza, mas caso eu tenha adquirido algum leitor novo nos últimos meses, clique aqui para saber de quem se trata.

Como não poderia deixar de ser, ela continua aprontando, no maior estilo levada da breca. Outro dia, a lâmpada do quarto da vovó queimou e minha mãe pediu que Fortaleza, sempre admirando o azul do céu, fosse comprar uma nova.

– Depois eu vou.

– Se você vai depois, você que vai trocar, porque eu não vou estar aqui.

– Tá, eu troco.

– Eu não vou querer saber da minha mãe passando a noite no escuro hein.

Mamãe foi embora, mas ligou após algumas horas para dar aquela pressionada. Fortaleza foi comprar, reclamando. Ficou irritada e, no dia seguinte, quando minha avó pediu para que ela fosse comprar pão, ouviu como resposta:

– É sempre a mesma coisa. Todo dia pedindo para que eu vá à rua.

Fortaleza é assim: não gosta de sair de casa (ela dizia que o açougueiro se engraçava com ela, “porque ela não é branca”), mas também não curte fazer uma faxina ou cozinhar. Ela gosta de ficar sentada.

Conclusão: minha avó, que tem problemas de memória, começou a se lembrar porque a emprega já havia sido demitida tantas outras vezes. E quis demitir de novo. Durante o processo, minha mãe descobriu que Fortaleza estava dando uns remédios suspeitos para a vovó – sem prescrição médica, sem autorização. “Uns comprimidos verdes”. Sobre isso, minha mãe comenta:

– Eu não sei que comprimidos eram esses. Podiam ser dopantes, podiam ser até veneno. Eu acho que Fortaleza tem problema de cabeça. Vai ver estava passando os remédios dela para a sua avó.

Fortaleza foi embora, querendo adiar a partida. “Não prefere que eu vá amanhã?”. Não. Na saída, soltou:

– Me perdoe qualquer coisa. E que Deus perdoe meus pecados.

Até a próxima.

Rock in Rio: público vaia representantes nacionais, Nx Zero e Claudia Leitte

Claudia Leitte e a banda Nx Zero foram vaiados no Rock in Rio, respectivamente, na primeira e na segunda noite do festival (obviamente, as vaias vêm de uma parcela ínfima do público, mas incomodam mesmo assim). Considero que falar em respeito, educação e tolerância sejam lugares comuns para o meu leitor, então vou além.

O Rock in Rio é um festival musical e, como todo e qualquer festival, reúne várias atrações por dia. Nesse caso em específico, a line-up é mesmo bastante diversificada. Ninguém é obrigado a gostar de tudo que lhe é “empurrado”. Mas é por isso que se chama fes-ti-val. Se você quer assistir apenas a uma banda, busque um show só dela (de quebra, você ganhará algumas horas a mais de apresentação).

Entendo completamente que os fãs da Rihanna não curtam axé e que os fãs do Red Hot Chili Peppers tenham aversão ao chamado rock-emo – mas que isso se limite aos seus ipods. A proposta do evento é justamente misturar as tribos, caso não tenha notado. Quem não está disposto a se aventurar por novos estilos, assista de casa, pela TV, com o poder do controle remoto.

Mas o pior não é isso. O que me impressiona é o patriotismo zero. O Rock in Rio é um evento de repercussão mundial (li em algum lugar que se trata do segundo maior festival “de rock” do mundo, perdendo só para o Glastonbury), então é no mínimo burrice um brasileiro vaiar o seu representante no palco.

No momento em que o povo vaia sua própria cultura (aceite: é o que tem pra hoje), o público estrangeiro recebe essa música com outros olhos – logicamente, negativos. E não precisava ser assim. Não deve ser assim. Muito do sucesso dos artistas vem do apoio que sua pátria lhe dá. É chato, por exemplo, você ver Sepultura, Bebel Gilberto e Sérgio Mendes trilhando carreiras lá fora para serem reconhecidos em seu próprio país.

Rock in Rio: Katy Perry faz a gente rogar por playback

Assistir a Katy Perry cantando ao vivo faz a gente reconsiderar o uso do playback. Se na última edição do Rock in Rio, em 2001, a polêmica foi a performer Britney Spears ter feito uso da, hum, ajudinha, este ano eu me pergunto: por que você não botou o CD pra tocar, Katy?

Não deveria ser assim, mas existem duas classes de cantoras: aquelas que cantam de verdade e aquelas que precisam de recursos, porque suas vozes não têm alcance, força ou afinação ao vivo. As desse segundo time procuram dançar bastante e usar isso como desculpa para usar o tão falado playback. Madonna é a maior representante dessa categoria.

E aí surge Katy Perry, que não se encaixa no primeiro grupo, definitivamente, mas também não quer apelar para o Britney-way-of-sing. O que fazer com essa pessoa? Ela não canta, mas não quer enganar o público. Sobe no palco e dá um show de falta de ar. Me deu vergonha alheia. Tem mais é que beijar fã mesmo, desculpando-se.

Nesse contexto caótico, o que é melhor: assumir o playback e fazer um show divertido – puro entretenimento – ou cantar mal, mas cantar (o videokê daria nota baixa…)? Os tempos mudaram. Volta, playback.

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