O Dia dos Pais mais antigo que eu lembro é…

O Dia dos Pais é até hoje a data mais desconfortável para mim. Sem dúvidas. Entra ano e sai ano é a mesma coisa: minha mãe começa a me azucrinar três dias antes dizendo que “eu vou ter que ligar hein”. Eu, claro, nunca quero ligar (o que, na maioria das vezes, consigo deixar de fazer). Tenho os meus motivos, claro, e vão muito além de uma infância frustrada com meu pai. Mas é bem verdade que os motivos começaram todos lá, na infância. Freud explica.

Quem já foi criança, sabe: as escolinhas – creches, maternais, não sei qual o nome que dão para isso hoje em dia – adoram qualquer gancho para dar uma boa festa e suspender as aulas. O desejo dos “professores” por não dar aulas (bastante inúteis quando você ainda não aprendeu nem a escrever, é verdade) só não é maior do que o das crianças em não assisti-las. Então, quando chegam estas épocas de Dia dos Pais, das Mães, do Índio, do Palhaço, da Avó, do Avô, da Árvore, do Bichinho de Estimação, do Lápis, do Quarto ou até mesmo do Copo D’água, a primeira coisa que os donos dessas instituições fazem é organizar uma festinha. E comprar tintas para pintar a cara das crianças com motivos temáticos.

No caso do Dia dos Pais especificamente, as criancinhas não tem os rostos pintados, mas recebem a incumbência de colorir uma gravatinha para o papai. Comigo, pelo menos, era assim. Eu gostava de pintar, como já disse, mas, nesta situação, era algo especialmente difícil. Lembro-me de como as outras crianças se empenhavam nesta tarefa e eu não. Elas queriam muito agradar aos pais, que, para elas, eram seus super-heróis, como dizem as mensagens das propagandas comerciais nesta época do ano. Meu pai não era um herói para mim (estava bastante longe disso…). Eu não ia entregar aquela gravatinha para ele. Meu pai nunca ia às festinhas do colégio.

Só uma vez que ele foi. Eu era bem novinho – estamos falando de uma fase pré-alfabetização – então não me lembro muito bem. Acho que minha mãe ligou para ele, explicou a situação e meu pai se propôs a ir àquela comemoração do colégio. E eu pintei a gravatinha para ele. Sem qualquer simbolismo, apenas pintei com as minhas cores preferidas (ainda estava naquela fase do azul). Encontrar o meu pai nunca foi sinônimo de diversão, então eu não estava muito animado. Eu só queria cumprir a minha parte do acordo (é curioso como tudo que diz respeito a ele sempre cai nessa palavra…).

O combinado é que ele passaria na casa da vovó para me buscar, me levar ao colégio (que era na minha esquina) e, juntos, participarmos da festinha. Até porque não fazia sentido eu chegar antes, sem meu pai, na festa do Dia dos Pais. Deu a hora marcada e eu já estava pronto, circulando pela casa, de certa forma ansioso (nem que fosse para acabar logo com aquilo), olhando pela janela para ver se ele já tinha chegado. Fiz esse processo algumas vezes e nada de ele aparecer. Está aí outra diferença entre nós: eu sou pontual, ele não. Os ponteiros do relógio do teto da parede da sala andavam e meu pai não chegava. Bateu aquela dúvida: será que ele tinha esquecido? Provavelmente. Comecei a achar que ele não viria mais e então ligaram para saber o que estava acontecendo.

Repito: não me lembro bem, mas não devem ter conseguido estabelecer contato de primeira, porque o tempo continuou passando e meu pai não chegava. A festinha era na sexta-feira e não exatamente no Dia dos Pais (senão não seria interessante para a escola), então era bem provável que ele tivesse se esquecido.

Mas, por fim, ele apareceu. Sem dar qualquer tipo de explicação – o que me leva a crer que, sim, ele tinha se esquecido, mas minha mãe o lembrou “há tempo” – me colocou no carro (para ir até a esquina!) e entramos no colégio. Lá, entreguei a gravatinha para ele e a festa acabou. Com o atraso dele, havíamos perdido tudo (o que não devia ser muita coisa, mas, naquela época, era significativo para mim). Não foi uma experiência emocionante. Não foi um dia especial. Pelo contrário. Mas é o Dia dos Pais mais antigo que eu me lembro.

Uma resposta para O Dia dos Pais mais antigo que eu lembro é…

  1. Leandro.

    Estou lendo esta postagem sua hoje e, como profissional da área de psicanálise gostaria de lhe pedir (caso não seja erro meu, talvez já tenha um acompanhamento) a procurar uma ajuda profissional, pois, o que tenho lido à respeito de você e agora chegando a esta mensagem sobre pai…. Não sei, você é uma grande dúvida pra você mesmo; vi em uma postagem sua que é homossexual… Sem ter nada contra a este tipo de relação, pois, acho que cada ser têm por obrigação encontrar a felicidade e não importa a quais ‘leis’ da sociedade ele está ‘infligindo’ … Bom, o que te ofereço à princípio e que por ter um passado conturbado com seu pai talvez esteja procurando em outro homem a imagem de pai. Bom, cabe a você observar o que você quer neste homem que vai preencher sua vida à dois, ele tem características de pai, alguém que vai cuidar de você ou não, cuidar como homem ou pai….? Se quiser podemos estabelecer contato e conversa, já que sua vida está exposta você me deu o direito de invadir um pouco. Que fique bem clara, homossexualidade existe sim, mas, pode ser por algum motivo explícito para alguns ou sem motivo, não estou acusando você de não ser, se for, que siga seu caminho, mas tente aceitar a identidade paterna, isto será uma forma de largar esta tutela que vive.

    Grande abraço.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s