Ser a Sandy deve ser incrivelmente chato!

Desde que me tornei fã da Sandy, aos nove anos de idade, ouço críticas e comentários de aversão. “Ai, a Sandy? Mas ela é tão chata!” Eu, claro, não compartilhava dessa opinião. Na verdade, me irritava bastante, porque sempre me identifiquei com ela e, por isso, tomava suas dores. Cresci e passei a não me importar mais – posição que ela também diz ter tomado. “É chata? Ok. Mas eu gosto.”

A impressão que eu sempre tive é que as pessoas a julgavam sem conhecê-la, rotulando-a baseados em fatos isolados e pretéritos. Não que eu fosse íntimo dela. Pelo contrário: Sandy é um mistério para mim. Mas eu tive a oportunidade de estar com ela – na posição de fã e de jornalista – um bocado de vezes nos últimos dez anos. Acredito que a conheço consideravelmente mais do que a maioria do público. Já a vi revirando os olhos, preocupada com prova, irritada com tumulto, incomodada com paparazzi, fazendo brincadeiras, ironizando… até pisando na bosta, eu já vi.

A Sandy é educada (sempre!) e solícita (na medida do possível). Mas santa nunca foi. Ela é apenas resguardada, o que é muito diferente. Se ela não mostra a casa (ou o lençol manchado de sangue) para as revistas, não quer dizer que ela não tenha uma. O mesmo se aplica a declarações sobre a vida pessoal – e, no caso dela, o que mais desperta curiosidade: a sexual. “Essas quietinhas são as piores”, já dizia uma inspetora do meu colégio.

Por isso, quando a declaração da Sandy sobre o sexo anal foi parar na capa da revista Playboy, eu não cheguei a me assustar. Achei divertido. “É possível ter prazer anal”, estamparam. Não vou falar que costumo imaginá-la na cama, porque estaria mentindo. Mas, ao ler a frase, tampouco imaginei. Primeiro, porque ela não estava dizendo em momento algum que dava a bunda. Segundo, porque o mínimo que eu conheço dela é suficiente para saber que Sandy não fala sobre suas práticas íntimas.

Mas, se estivesse falando, não seria um choque. Repito: não é porque ela não fala, que não faz. A maior surpresa seria, na verdade, ela estar abrindo sua vida dessa forma – já que uma característica forte de sua personalidade é justamente buscar a privacidade. Mas as pessoas mudam e, se ela quiser, tem o direito de virar, hum, uma devassa – no sentido de escancarar a vida.

Não é todo mundo que tem o meu discernimento (cof cof), e instalou-se uma polêmica. De sites de fofoca a programas familiares, o anal da Sandy virou pauta recorrente, sensacionalista. No Twitter, a hashtag #sandyfazanal foi uma das mais usadas. Ela explicou que a declaração tinha sido tirado do contexto, mas ninguém quis saber disso. Aliás, da mesma forma que ignoram o fato dos ingressos para a gravação do seu DVD estarem esgotados. Ela vai gravar um DVD e tudo o querem saber é da sua vida sexual. Ela não é atriz pornô, gente. Nem Mulher Fruta.

“Falou e agora não assume”, “Até parece que não falou”, “Ela tá ridícula querendo fazer a devassa”, “A Sandy tá forçando”, “Tá devassa mesmo”, “Ela quer mudar essa imagem de santa à toda custa”, “Nem dá pra acreditar…”, “Me decepcionou…”, “Nunca me enganou” – tanta coisa foi dita!

Afinal, o que vocês querem: que ela faça ou não faça, que fale ou não fale? Não dá para entender. Como deve ser chato ser a Sandy: se ela não fala sobre sexo, é puritana; se fala, está forçando; se não aceita responder esse tipo de perguntas, é santa; se aceita, está decepcionando (a imagem de “virgem do Brasil”, como ela mesma disse na entrevista). Ela está sendo vigiada e cobrada a cada respirada. É quase um personagem do The Sims, que todo mundo quer controlar.

Comprei a revista (foi uma situação engraçada) e li a entrevista ontem, no ônibus mesmo, tamanha a ansiedade. Contextualizada, a frase do anal passa sem a menor importância, quase despercebida. Várias outras declarações são mais polêmicas e interessantes, e dariam ótimas manchetes: ela diz, por exemplo, que é boa no strip-tease e revela o desejo de conhecer uma casa de swing (conhecer é diferente de fazer troca de casais, é bom ressaltar).

Na real, é apenas mais uma entrevista. Não achei sensacional, nem conheci uma nova Sandy por meio daquelas páginas, como disse o jornalista Zeca Camargo em seu blog. Uma entrevista dela que me marcou muito mais foi uma para a revista Época, em 2003. Na época com 20 anos, ainda solteira, a cantora falou pela primeira vez que tinha tomado um porre, assumiu um namorado desconhecido e disse que costumava mentir para a imprensa.

ISTOÉ – O que pode ter contribuído para isso?
Sandy – De certa forma, eu correspondi a esse estereótipo. Além de ser muito caseira, não sabia dizer não. Se um repórter me perguntava se já havia dado meu primeiro beijo, em vez de dizer que isso era assunto meu, eu respondia. Sem ter como me preservar, abria várias coisas ou acabava contando mentiras.
ISTOÉ – A Sandy, então, conta mentiras.
Sandy – Muitas. Meu primeiro beijo não aconteceu quando eu tinha 16 anos e não foi com o Lucas (da Família Lima). Foi com 14 para 15, na festa de formatura da oitava série. Beijei um menino da minha classe, com quem convivia há tempos. Namoramos durante um ano e
dois meses, em segredo.

Ela ser uma mentirosa pública e confessa não é mais polêmico? Para mim, sim. Não dá para confiar nela! Na época, essa entrevista teve certa repercussão – não pela mentira e sim pelo porre – com a manchete “Não sou santinha” (frase que ela voltou a declarar em entrevistas posteriores).

Com a entrevista da Playboy, só comprovei a minha teoria: é chato ser a Sandy. Desde o início, as entrevistadoras a metralharam com perguntas supostamente constrangedoras, querendo arrancar algo dela a toda custa (e ainda escreveram que ela se comportou como se estivesse em um inquérito policial…). Constrangedor me pareceu o desespero delas, que saíram da redação com uma missão: conseguir um deslize. “Olha, já que você quer um furo, vou te dizer: eu sou boa em strip-tease”, disse a cantora, mantendo a entrevista sob controle, dando o que as repórteres precisavam e evitando um deslize qualquer.

Deve ser horrível a sensação de ter sempre gente à espreita, querendo que ela solte algo “proibido” ou faça algo inusitado (para quem?) – ou não querendo nada disso também (é pressão dos dois lados!!!). Na entrevista, ela disse que tem um alerta do Google que a avisa sempre que surge algo novo com seu nome. Falou também que evita ir a lugares com medo de ser vista: “Confesso que até agora só não fui [a uma casa de swing] fora do Brasil, porque tenho medo de encontrar brasileiros e eles saírem falando”. Ou seja, nem no exterior a neurose desaparece.

Tá aí um outro dado: Sandy se importa muito com o que falam sobre ela, o que é muito compreensível, já que as pessoas estão sempre comentando sobre sua vida, dando opiniões (como eu faço agora) e inventando mentiras. Ela sempre foi famosa e vigiada: imagina. Que sufoco! Ela faz que não, mas a verdade é que sempre está dando satisfações.

A cobrança pra continuar virgem (“Isso tomou uma proporção absurda”)… a cobrança para deixar de ser (“Nunca preguei que se deveria casar virgem”)… a cobrança pra manter o mistério (“Virei a virgem do Brasil”)… a cobrança para colocar fim às especulações (“A imagem de virgem é um mito”). Não sei se ela se sente sufocada, mas eu me sentiria. Ela já é casada e cogita ter filhos, mas ainda falam do seu hímem.

O cúmulo da entrevista, para mim, foi quando ela disse que, no dia do casamento, se preocupou com a opinião dos fãs, “que começaram a ficar chateados, acharam que estávamos sendo arrogantes” (por não mostrar a festa para ninguém), e aí ela e o Lucas resolveram postar no blog dando um olá (a história do blog!). Deus me livre: era o dia dela (no máximo, do marido), mas nem aí, ela pôde pensar só nela.

Sandy não pode ser egoísta, nem se desejasse. Ela tem que mudar, porque as pessoas querem. Mas não pode mudar, porque seus fãs gostam dela assim. E mesmo que ela tente ficar alheia a tudo isso – e apenas ser ela mesma – a mudam e desmudam por ela. Que horrível lidar com expectativas e cobranças, sejam elas quais forem, de tanta gente, de um país inteiro. Deixem ela em paz. Já é chato demais ser ela, facilitem.

3 respostas para Ser a Sandy deve ser incrivelmente chato!

  1. Aline

    Nossa, trombei com esse texto no Google e achei sensacional! Parabéns pela clareza, Leonardo. Falta empatia às pessoas, e você conseguiu fazer com que eu me imaginasse no lugar da Sandy, no centro dessas cobranças de absurdas proporções. Eu não me sairia bem…

  2. Agatha

    bom, esses são os contras da carreira neh. Acho que todos que estão na mídia passam por isso, sendo que uns tem um impacto maior que outros. Ri mto com:

    “Ela não é atriz pornô, gente. Nem Mulher Fruta.”

    “Ela já é casada e cogita ter filhos, mas ainda falam do seu hímem.”

    hauhauhauhauahuahuah

  3. Sério que você achou a postura da reporter/ revista chata? Eu, na verdade, gostei. Me parece que nas entrevistas passadas as pessoas perguntavam meio que com medo da recepção. E dessa vez não. Foi uma postura forte que mostrou que não ia se incomodar com o incomodo dela. Mas, também acho que a entrevista não tem nada demais.

    RESPOSTA DO LÉO – Eu acho que fizeram exatamente um inquérito policial, um batalhão de perguntas uma atrás da outra. Já começaram pesado hahah Acho que poderiam criar um clima falso de amizade para arrancar mais coisas dela, deixando-a à vontade. De qualquer forma, ela me pareceu preparada para o que veio.

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