Uma semana sem Amy (sem Amy?)

Era aniversário do Nico e ele recebeu os parabéns de um amigo via sms. Na mesma mensagem, era informada a morte da Amy Winehouse. Não dei trela – para mim, era mais uma daquelas hashtags bobas do Twitter. Quando Michael Jackson morreu, tampouco acreditei. Da mesma forma que aconteceu com o Rei do Pop, a morte da diva do jazz contemporâneo também era verdadeira. Um baque.

Mas ao contrário da morte do inovador dos videoclipes, a da judia de voz rouca não era exatamente uma surpresa. Sua autodestruição era conhecida por todos que sabiam de sua existência – fossem seus adoradores ou não. Com exagero de drogas, bebidas, e ‘no no no’ para a rehab, ela já tinha flertado com a morte antes. Várias vezes, aliás. Era seu hobby.

Havia até certa expectativa em cima disso. Parte do público de seus shows ia com a esperança de ver um piripaque ao vivo, a verdade é essa. Qualquer apresentação poderia ser a última. Consumidores da imprensa especializada em celebridades colecionavam fotos dela cada dia mais magra, suja e doidona. Mais um vexame, mais uma cambaleada. Eu mesmo estive certo que a morte estava próxima, em certa época.

Então, ela ‘se recuperou’. Ao menos, foi isso que a máquina de mídia que cuidava do que restava da imagem dela passou a pregar. Shows foram agendados – inclusive uma turnê no Brasil (a qual tive o prazer de assistir) – a gravação de um CD foi iniciada e rolou até o lançamento de uma nova versão de It’s my party. “Não é um retorno, é uma continuação”, disse um backing vocal.

Com o último – e segundo – CD lançado em 2006, a cantora parecia estar finalmente voltando ao trabalho, à curta carreira fenomenal. Mas não era bem assim. Seus problemas com vício continuaram e ela foi obrigada a dizer sim à reabilitação. Shows foram cancelados, adiados, interrompidos… um clima terrível de tensão.

Uma sensação geral de constrangimento passou a predominar ao redor de seu nome. Sempre senti orgulho dela, porque seu talento era inegável apesar do estilo de vida condenável que levava. Certa vez, li que Amy teria sido mais bem sucedida se tivesse nascido décadas antes: quando não havia Internet nem a cultura dos paparazzi para jogar no ventilador seus podres. Concordei. Mas, ultimamente, não dava mais para dizer que as pessoas valorizavam mais a vida pessoal que a profissional dela. Simplesmente porque já não havia carreira alguma.

O que aconteceu na Sérvia foi tudo menos um show. Tudo, menos música. Foi constrangedor. Em vez de orgulho, senti pena. Teve gente que riu, com um humor bastante negro. Condenei-os. E, então, a morte. Amy vai, finalmente, descansar. Para quem fica, uma imensa perda. Não há mais a esperança de material novo (já foi anunciada a existência de demos para, pelo menos, três CDs – mas, ainda assim, é algo limitado).

Seu legado é curto – dois álbuns de estúdios, versões deluxe, um DVD e gravações lançadas extra-oficialmente – mas valioso. Na real, é isso o que importa (ironicamente, a vida dela não importava para ela própria: no ano passado, ela declarou que se morresse no dia seguinte, estaria feliz consigo mesma). Nos meus fones de ouvido, Amy nunca morrerá. Tenho certeza que no de muita gente também. Agora, com a morte, surgirão novos fãs, sem o encantamento causado pelos escândalos (isso é lamentável, mas existe). Agora, é só música. Tudo é música a partir desse momento, como deveria ter sido desde o início. Como, de certa forma, ela queria. À vida, com a cantora Amy Winehouse. E nada mais.

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