Naked

Sempre fui o garoto que fazia as gracinhas. O graciosamente irônico. O que falava o que todos queriam dizer, mas não tinham coragem, para que eles pudessem rir ou se chocar. O que lançava uma piada nos momentos mais sérios e cheios de tensão com a desculpa de “rir do trágico”. O que falava mal dos outros – assumidamente – apenas para fazer outros outros sorrirem (e, sim, a construção frasal está correta). O que tinha riso fácil. O que tinha certeza que tudo daria certo.

Quando foi que eu mudei? Tenho me perguntado isso. Eu sei que mudei, embora tenha demorado a assumir isso. Por um tempo, fingindo ser quem eu não era mais. Depois, dizendo que eu ainda era aquele garoto divertido, mas apenas em momentos específicos. Mas por fim, talvez tardia e pateticamente, reconheci: me tornei um homem com tendências depressivas . Depressão: o que eu achava que tinha aversão.

Não rio fácil. Não acho graça de piadas idiotas. Não quero ser simpático. Não quero falar mal dos outros gratuitamente e acho deprimente quem o faz. Acredito que o humor deve ter, sim, limites. Não quero chocar. Não quero que me choquem. Detesto quem o faz, por prazer ou necessidade. E não tenho mais certeza de nada, eu acho.

Não, não me tornei uma pessoa melhor. Mas não sinto falta de quem fui outrora. Perdi alguns amigos, intencional, acidental ou naturalmente. Eram pessoas que já não se encaixam mais nas minhas novas percepções. (Dizem que eu tenho mania de descartar as pessoas, mas não é verdade. Eu reluto bastante, mas o sentimento às vezes evapora…)

Pela primeira vez na vida, me incomodei por me sentir muito superior intelectualmente aos demais. A minha própria arrogância talvez fosse o que mais me incomodava. Mas eu não conseguia interagir com aquelas pessoas – tão ingenuamente estúpidas.

Também pela primeira vez – ao menos objetivamente – me senti muito inferior intelectualmente a alguém. Duvidei das minhas supostas qualidades, aquelas que sempre me disseram que eu tinha. Duvidei de mim. Duvido.

Isso tudo é bastante embaraçoso, como se eu fosse um constante peixe fora d’água. Até onde eu já me encontrei, sou total desencontro atualmente. Tenho medo de ficar como aquela garota já foi. Como a minha avó é. Como aquele talentoso menino sempre tenta disfarçar que é, mas é. Tenso.

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Uma resposta para Naked

  1. Agatha

    Falava mal dos outros assumidamente? huahuahua … pelo que eu saiba, eu que levava a culpa 😛
    Bom, as pessoas mudam, essa é a vida. Não acredito que dê pra evitar ….

    RESPOSTA DO LÉO – Você levava a culpa porque não sabe se comportar. HAHAHAHAH

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