Odeio dar títulos

Estava com a minha mãe na Livraria Cultura da Av. Paulista, doido para mostrar para ela como o lugar é grande e fantástico, mas ela era pura desanimação. Se sentou em um sofázinho e disse para que eu fosse ver os livros que eu quisesse. Ela me esperaria ali. Ela não entendeu a dinâmica da coisa. Desanimado, voltei para falar com ela sem nenhum livro nos braços.

– Que que houve?

– Acho que tô parindo.

Eu nem sabia que ela tava grávida e imediatamente olhei para a sua barriga. Ela disse que estava de sete meses, podia nascer prematuro. “Eu sei como é quando vai nascer”. Me desesperei. Falei que não sabia fazer parto não. E nem sabia de um hospital que aceitasse o seu plano em São Paulo. Parada tensa. A mulher que estava do lado deu a ideia de tirar a calça da minha mãe. Tiramos. E ela tinha outra por baixo. Tiramos. E outra. E outra. E outra. E outra. Que frio é esse?

De repente, chegaram uns médicos na livraria. Alguém deve ter se solidarizado. Botaram ela em uma ambulância e me disseram para ir em outro carro. Entrei. Não me levaram para um hospital, mas para um palácio. Não entendi nada. O lugar era enorme e eu procurei por a minha mãe lá, sem sucesso, até que me encaminharam para o quarto do dono do lugar. Era um senhor que respirava por aparelhos, mas consciente. Eu nunca tinha visto-o na minha vida.

Ele me estendeu a mão e disse que estava feliz por me conhecer. Olhei para os outros. Estavam cerca de cinco pessoas no cômodo. Um deles, advogado, foi quem esclareceu tudo para mim. Eu era o herdeiro direto daquele senhor, Duque de Sei Lá Onde, que estava morrendo. Eles estavam me procurando há meses.

Mas, para herdar tudo, eu teria que viver ali até a sua morte. Olhei para o senhor na cama. Ele parecia simpático. Mas não deveria durar mais que uma semana. Aceitei a proposta. Passei a morar naquele lugar enorme, onde outras dezenas de pessoas pareciam habitar também. Ninguém gostava de mim. Alguns fingiam, mas ninguém gostava de verdade. Uma garota, talvez.

Até que chegou a notícia de que haveria um terremoto ali em quinze minutos. O palácio era muito antigo e não suportaria a tremedeira. Ia desabar. Todo mundo começou a correr para a rua, desesperados. Menos os cinco homens que estavam no quarto. Eles vieram me comunicar que não tinha como levar o Duque para fora, porque ele ia morrer sem os aparelhos para respirar. Então, era melhor deixa-lo morrer no terremoto. Achei cruel.

Fui vê-lo. Ele estava dormindo. Pelo menos isso. Ia morrer dormindo, como todo mundo quer. Sorri. Olhei para o relógio – eu parecia ser o único que carregava um no pulso – e faltava pouco para o terremoto. Era hora de deixar o palácio. Saí correndo, mas dois homens não queriam deixar com que eu saísse. Me agarraram  e tentavam me manter ali dentro à força.

Se eu morresse, eles herdariam tudo. Não tenho medo de morrer, mas com concreto desabando em cima de mim não é o mais conveniente. Criei forças e consegui fugir. Quando cheguei à rua, todas as dondocas tentaram disfarçar o olhar de surpresa. Entendi tudo: todo mundo sabia que eu ia morrer, menos eu. Eu queria a minha mãe. Decepcionado, acordei.

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