Eu me incodomo com o dia-a-dia

Desconfiado, eu rezo mesmo assim, frequentemente, reclamando com Deus pela miséria do Haiti e de países da África, das vítimas de terremotos e furacões, dos doentes com câncer ou AIDS e outras situações que julgo extremamente problemáticas. Peço por soluções, mas reclamo por ter que pedir. Por isso, digo: peço desconfiado. Que Deus é esse que não se mexe?

Eu quase sempre durmo antes do “amém”, porque são tantos casos e pessoas por quem pedir que eu acabo me cansando. Assim que cito os africanos, penso que é injusto não pedir também pelas vítimas da tragédia da Região Serrana. Ou pelos moradores de rua aqui do bairro. Ou pelas famílias das crianças da chacina de Realengo. Ou por aquela amiga que está passando por uma barra.

Eu me incomodo muito com o dia-a-dia. Não consigo seguir indiferente aos moradores de rua que vejo dormindo sem a menor dignidade em cima de papelões e embaixo de marquises. Me sinto desconfortável por compactuar com a falta de atitude para tomar uma providência por eles. Quando há criança junto, sinto vergonha por toda a população.

Me incomoda eles estarem ali, em condições subumanas. Mas acho que me incomoda mais a indiferença das pessoas para com eles. Isso me deixa revoltado. Como é que alguém pode continuar indo ao Mc Donald’s tendo passado por uma criança faminta na rua? Eu me sinto culpado.

Hoje, voltando para casa, vi um senhor aqui do bairro, que vende peixes ao ar livre (o que eu sempre achei pouco higiênico…), com um pedaço de pau na mão, como se fosse um cabo de vassoura. Ele estava olhando para baixo, atrás de um muro, como quem esperasse um rato aparecer para meter a paulada. Foi isso que eu imaginei. Até passei com certo medo do rato vir para cima de mim.

Mas, quando cheguei perto, pude ver o que estava atrás do muro. Era um corpo caído no chão. Não sei se o homem matou o outro a pauladas, mas não vi perspectiva daquela pessoa se levantar tão cedo. Lembrei que, segundos antes, eu achei que se tratava de um rato. As pessoas estão se tratando como animais. Repugnante.

Por um momento, senti que aqui não era o meu lugar. Fantasiei com me mudar para um local onde não houvesse tudo isso. Um paraíso. Será que existe? Não sei. Mas aí, eu pensei: mesmo que eu me mudasse para o paraíso, essas pessoas continuariam aqui, dormindo nas ruas, trocando pauladas, enquanto outras passam indiferentes. Uma mudança seria uma fuga. Seria agir como esses que fingem que não veem. Seria fugir para não ver. Não quero isso. Eu queria mudar o mundo. Mas não sei como.

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