Becky Fuller e o jornalismo

Me lembro de pelo menos três filmes que representam o jornalista inserido no paradoxo sucesso profissional versus caos pessoal: De repente 30, de 2004; O diabo veste prada, de 2006, e; agora, Uma manhã gloriosa. A exemplo de Jennifer Garner e Mery Streep, Rachel McAdams, dirigida por Roger Michell, vive uma produtora de tv que tem que alavancar a audiência de um fracassado programa matutino.

Se essa fosse sua única função, tudo estaria ótimo. Mas Becky Fuller, sua personagem, tem que lidar ainda com o conflito de egos dos apresentadores; a vaidade do novo âncora; os interesses da audiência; doses questionáveis de sensacionalismo e matérias grotescas; uma equipe desanimada e/ou desmotivada, mas conformada e; ainda, todo e qualquer tipo de descrença no seu trabalho (até a mãe dela duvida de aonde ela pode chegar). Becky, naturalmente, é uma mulher sem vida pessoal – ela até tem um namoradinho, para o qual não tem tempo  e, quando tem, está sempre preocupada com as mensagens e chamadas no blackberry. Becky não dorme. Becky não come. Mas Becky vive, se viver for sinônimo de trabalhar.

Com essa representação, como é possível que todos os anos o vestibular para o curso de Jornalismo de todas as faculdades seja um dos mais concorridos (no meu ano, só perdia para Medicina, outra profissão ingrata)? Só pode ser mesmo a tal da paixão. Se os religiosos recebem algum tipo de chamado, isso se aplica também ao jornalista, que teve seu dia comemorado esta semana com muitas lágrimas, desespero e vidas derramadas – sangue é muito simplório. Por essas e outras, não entendo quem escolhe estudar jornalismo apenas para fugir das exatas e encontrar um campo seguro. Não é seguro. Antes fosse.

Ultimamente, tenho vivido a questão da falta de tempo – e consequente, humor, paciência e estímulo – que atormenta não só a mim, mas a qualquer um que conviva comigo. That’s journalism, eu sei. E tenho me questionado também sobre essa relação audiência/produto. Às vezes, quero fazer matérias sobre festivais regionais, filmes alternativos, novos talentos musicais ou apenas uma reflexão sobre temas dessas áreas. Mas, se faço, noto que não é isso que as pessoas querem. O que dá retorno é todo e qualquer título que faça menção a Justin Bieber, Lady Gaga e Crepúsculo. É feedback garantido. A questão se agrava ainda mais se, neste caso, a opção for por conhecer as influências musicais de Justin Bieber ou saber detalhes sobre o suicídio de Cibele Dorsa (ou, falando nisso, ver imagens da nova capa da Playboy). Às vezes, me sinto escravo do interesse do público.

15 mandamentos do Jornalista, copiados do blog Nerd’s Club:

1º) Não terás vida pessoal, familiar ou sentimental.
2º) Não terás feriado, fins de semana ou qualquer outro tipo de folga.
3º) Estarás condenado ao eterno cansaço físico e mental.
4º) Terás gastrite, se tiveres sorte. Se fores como a maioria, terás úlcera, pressão alta, princípios de enfarte, estresse e depressão. E, perto de se aposentar, terás câncer.
5º) A pressa será tua sombra e tuas refeições principais serão o lanche da padaria da esquina, a pizza do pescoção ou uma coxinha comprada no buteco mais próximo do local onde realizarás as reportagens.
6º) Teus cabelos ficarão brancos antes do tempo; se te sobrarem cabelos.
7º) Tua sanidade mental será posta em xeque antes de completares cinco anos de trabalho.
8º) Ganharás muito pouco, não terás promoção, não terás perspectiva de melhoria e não receberás elogios de seus superiores e leitores. Porém, as cobranças serão duras, cruéis e implacáveis.
9º) Trabalho será teu assunto preferido; talvez o único.
10º) A máquina de café será tua melhor colega de trabalho; a cafeína, porém, não fará mais efeito.
11º) Os butecos que ficam abertos de madrugada serão tua única diversão e somente neles poderás encontrar malucos iguais a ti.
12º) Terás pesadelos freqüentes com horários de fechamento, palavras escritas erradas, reclamações de leitores, matérias intermináveis, processos, gritos ao telefone… E, não raro, isso acontecerá durante o período de férias.
13º) Tuas olheiras e mau humor serão teus troféus de guerra.
14º) Por mais que sejas um profissional ético, serás visto na rua como um canalha.
15º) E, apesar de tudo isso, haverá uma legião de “focas” querendo ocupar o seu lugar.”

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