Solidão + egoísmo = Inverno da luz vermelha

Inverno da luz vermelha merece todo o sucesso que está tendo – com sessões esgotadas desde a sua estréia no Rio de Janeiro (embora o Teatro Glaucio Gil seja absurdamente pequeno). Assisti à peça neste domingo, 27, de primeira fila, o que me deixou exatamente no nível do palco (uma experiência bastante interessante… me senti uma mosquinha dentro das cenas). Escrito por Adam Rapp e traduzida por Eduardo Muniz e Ricardo Ventura, o texto fala sobre três vidas intimamente relacionadas, mas perdidas dentro de si mesmas. Os personagens são extremamente solitários (e, nesse sentido, egoístas). Fiquei atordoado com esta obra. Me tirou da minha zona de conforto.

David (André Frateschi) e Matheus (Rafael Primot, ótimo) conhecem Christine (Marjorie Estiano, super amadurecida e segura) em Amsterdam. Ela é uma garota de programa contratada por David para transar com seu amigo, Matheus, que não tem relações sexuais há três anos. Mas antes ele faz um, digamos, test drive e a moça tem três orgasmos. Se apaixona, pede o endereço dele, mas vai conhecer Matheus.

Depois de muito custo e de compartirem os seus dramas – Matheus entrou nesse celibato depressivo depois de que sua namorada, Sara, o abandonou para ficar com David (pois é…) – os dois tem, sim, a sua noite. E, dessa vez, quem se apaixona é Matheus. Tadinho. Matheus gosta de Christine que gosta de David que, do seu jeito, deve gostar de Sara. Os anos passam e Christine vai ao Brasil atrás de David. Mas o endereço que ele deu é o de Matheus. Ou seja, as histórias voltam a acontecer e todas as frustrações vem à tona. Assim como Christine mal lembra de Matheus, David mal lembra dela. E o resto só assistndo.

Impressões

Não é interessante esse bicho que é o ser humano? Em um folder promocional da peça, li: “Voltando ao assunto da solidão, fica cada vez mais claro que no fundo ela não é nada que se possa escolher ou abandonar. Somos solitários. É possível iludir-se a esse respeito e agir como se não fôssemos. É tudo. Muito melhor, porém, é perceber que somos solitários e partir exatamente daí” (Rainer Maria Rilke). Refleti um bocado.

Paixões platônicas são a personalização da solidão, como mostram os personagens. É algo totalmente instrospectivo. É como aquela música do Lulu Santos: “É uma idéia que existe na cabeça / E não tem a menor pretensão de acontecer”. E, ok, eu sei que a gente finge que quer que aconteça. Mas no fundo, não. As histórias idealizadas são perfeitas. Não há problemas, não há decepção, é pura contemplação. Então, cabe aqui se questionar se não é a impossibilidade do acontecimento que faz Christine se apaixonar, em Amsterdam, por um cliente brasileiro que ela não vai ver nunca mais e, em contramão, ignorar a existência de Matheus. Da mesma forma, Matheus, ao se apaixonar por uma prostituta holondesa que ele nem sabe exatamente onde atende.

E o egoísmo, que eu disse no início do texto, se personofica justamente quando os personagens focam nas suas vidas solitátias, mesmo vivendo em sociedade, e ignoram sentimentos e atitudes alheias. Christine, que ignora Matheus, que ignora a traição do amigo, que ignora Christine. David, ainda, não teve escrúpulos em roubar a namorada de Matheus e seguir com a amizade. Se isso não é um pensamento egoista, pensando unicamente na própria vida, sem pensar ou se preocupar com consequências das próprias atitudes ao seu redor, eu não sei.

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