Não sou mais o que querem que eu seja

Minha mãe diz que comecei a descobrir o mundo cedo. Meu pai já falou o contrário: que cresci preso a uma vila, alienado e mimado. Ou algo assim. Ambas as declarações, cada uma em seu contexto, não deixam de ser verdadeiras. Por algum tempo (há algum tempo atrás), me senti interpretando um papel na minha própria vida – e já escrevi sobre isso na época, quando postava diariamente no meu fotolog (início dos anos 2000…), mas com pouco senso crítico do que acontecia. Eu tinha o desejo de corresponder à imagem que as pessoas faziam de mim.

Para minha mãe, eu era o tímido e introvertido Leozinho. Para os amigos que compartilhavam momentos difíceis comigo (ou simplesmente me encontravam recém-desperto), eu era o grosso, estúpido e sem papas na língua Leonardo. Para os amigos de fim de semana, o divertido e engraçado Léo. Havia ainda o Leonardo Torres, figura tida como metida por quem não o conhecia. Falei no passado, mas tais rótulos talvez ainda se apliquem bem no presente.

Houve uma época em que eu simplesmente não sabia quem eu era no meio de tantas possibilidades. Minha preocupação era, então, manter as aparências, corresponder ao que esperavam de mim. Mas hoje eu sei que sou um pouco disso tudo aí (ao mesmo tempo, que não sou nada disso). Isso é ser humano. 

Quando eu escrevia no Estou em Transe, por exemplo, entrei no blog porque me identificava com a idéia dele: ironizar e sacanear todo mundo. Passou um tempo e me peguei escrevendo o que as pessoas queriam ler (o que nem sempre, quase nunca, refletia a minha verdadeira opinião). Chegou um momento em que eu simplesmente não gostava mais de falar mal das pessoas a troco de nada – o que meus amigos apelidaram de fase budista – e ter que fazer aquilo no blog me incomodava. Lembro que alguns leitores se decepcionavam quando me conheciam na intimidade. Como assim o Leonardo não bebe, não se droga e não bate cabelo na balada? É, querido, eu sou o oposto disso. Eu passava uma imagem que não tinha nada a ver comigo.

Certa vez, Pedro Bial falou no Big Brother Brasil que a gente se perde entre o que as pessoas pensam da gente, o que a gente quer que elas pensem e quem nós achamos que somos. Na verdade, não somos nada disso – nem o que pensamos ser. Apenas… somos. Não lembro se ele estava parafraseando alguém, mas achei genial. É isso mesmo. Eu sou esse que fala pouco em casa e muito na rua. Também sou o que, sozinho no meio de desconhecidos, dificilmente vai socializar, mas, com pelo menos um amigo ao lado, cria força e pode ser o mais extrovertido do ambiente. Sou mimado, não tenho frescuras. Sou divertido de bom humor e grosso de mau humor.

Mas isso tudo apenas se eu quiser (e quando eu quiser). Não sigo mais regras. Posso ser grosso em um dia extremamente bem humorado, caso ouça alguma merda, ao mesmo tempo que deixo passar absurdos em dias de mau humor apenas para não me estreassar (mais). Não sigo mais o manual escrito pelos outros e apadrinhado por mim mesmo. Perdi alguns amigos ao deixar de ser quem eles esperavam que eu fosse, é verdade. Mas, sinceramente, não ligo para isso. Leonardo é assim, diria a minha mãe: drástico. Mas a verdade é que eu não sou tão estável assim para ser rotulado. Ou talvez seja sim. Vai saber… eu já não me importo.

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2 respostas para Não sou mais o que querem que eu seja

  1. Nem sei se é você, mas estou participando do concurso da Megazine e encontrei um concorrente com um texto de 133 comentários, parei para ler, achei interessante e resolvi pesquisar o blog com o nome do autor: Leonardo Torres. Encontrei este. E seja você meu concorrente ou não, quero que saiba que gostei muito do seu blog. A minha impressão é de que você realmente tem talento. Enfim, gostei! Parabéns! Continuarei navegando por aqui.

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