Não era isso que eu queria

Dia das crianças deixou de ter graça no momento exato em que deixei de ganhar presentes e descobri que o feriado era, na verdade, pela Nossa Senhora Aparecida (o que, em contrapartida, não despertou em mim qualquer simpatia religiosa). Se não fosse o meu aniversário, eu estaria excluido de qualquer forma de ganhar presentes fora de época. Ao homem adulto, só resta ser pai se quiser ser presenteado. E esse não é um plano que eu tenha para o futuro próximo.

Mas, sobre os presentes, eu não me lembro de nenhum que tenha me marcado muito. A maioria dos presentes legais vinham ou no Natal ou no meu aniversário. Dia das Crianças era a data dos presentes baratinhos, o que sempre foi uma dificuldade para eu assimilar. Mas, no geral, lembro que meu pai nunca acertou no que me deu. Quando eu era uma criança que gostava de brincar com LEGO, ele me dava luvas de boxe; quando jogava videogame, ele me dava uma mesa de totó; quando gostava de andar de skate, ele me dava uma bicicleta; quando abandonei a atividade física, ele me deu um skate… que nunca foi usado.

Seus presentes sempre ficaram “ocupando espaço na casa”, como a minha avó dizia, com razão, por estarem encalhados e sem uso, ou iam parar nas mãos do filho da diarista mais legal. Pior ainda era quando ele me dava roupas. Ah, como eu odiava. Todo mundo sabe que criança não quer saber de roupas, a menos que seja um Alexandre Herchcovitch mirim. Criança quer brinquedo, ora bolas. E mesmo no vestuário, ele não acertava. Na época que eu só usava preto, ele me aparecia com blusas e bermudas (sempre preferi calças) com motivos florais e jamaicanos – ou tamanho GG quando eu usava P. Um terror.

Uma vez – e uma única vez – ele me perguntou o que eu queria de presente. Fiquei bem contente, porque era isso que ele deveria ter feito sempre, já que não tinha a menor idéia do que me agrada. E aí eu disse que eu queria um teclado. Eu me referia àquele teclado que todo mundo tinha no colégio, que era coloridinho e tocava musiquinhas pré-programadas. Meu pai me deu um teclado Yamaha original. Enorme, negro e sem possibilidade de carregar para a escola. Onde aperto para tocar as musiquinhas?, perguntei. Não existia esse botão. Destino: em cima do armário da vovó, “ocupando lugar na casa”.

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