Nada pior do que ficar na doente na escola

Quando eu era criança e passava mal na escola – com sessões de fortes dores de barriga ou ataques da minha rinite alérgica – eu não gostava de incomodar ninguém com isso. Não faria minha mãe sair do trabalho ou a minha avó caminhar até o colégio para me buscar. Também não adiantava muito falar com os professores, já que o gabinete médico do Pedro II não sabia resolver nada que não curasse ‘colocando gelinho’.

Lembro que – estressadíssimo, uma característica forte da minha rinite – eu olhava para os meus coleguinhas e me perguntava se alguém também estaria passando mal naquele exato momento. Ninguém tinha um nariz vermelho escorrendo, ao menos. Por que eu? Será que fui o escolhido do dia? Será que todo dia tem alguém passando mal e eu não noto? Na minha cabeça, sim, todo dia tinha alguém passando mal. Supondo que nossa turma fosse de 30 pessoas, cada um de nós sentiria algum tipo de dor física em cada dia do mês. Essa invenção da minha cabeça me consolava um pouco, embora continuasse irritado por ver todos felizes e sorridentes, obviamente sem nada incomodando-os. Nada a ver nascer com rinite. Nada a ver. Já nasci castigado.

Mas piores mesmo eram as dores de barriga. Com a rinite, de certa forma, eu já estava acostumado. Por mais incômodas que fossem, eu sabia como lidar. Agora, dor de barriga não. Nunca fui de cagar fora de casa. “É dor de barriga ou na barriga?”, perguntavam. Que coisa imbecil. Sempre respondia que era dor NA barriga. Não me agradava a idéia de saberem que eu estava louco para ir ao banheiro. Até porque eu não iria. Não ali na escola.

Mas um dia isso mudou. Eu – com uns seis, sete anos – estava literalmente segurando-me para não fazer nas calças. Nessa época, usava relógio no pulso e não parava de olhá-lo. Tinha que ir pra casa. Mas a hora se arrastava. E aí eu me dei conta de que ou eu me levantava e corria pro banheiro ou eu iria fazer ali na sala mesmo. E corri. Literalmente. E quando me tranquei na cabine já estava fazendo. É, gente, é isso mesmo. Não deu tempo de abaixar o short e a cueca não. Um nojo do qual prefiro não narrar detalhes – embora ainda os lembre.

Voltei para a sala e algum coleguinha me perguntou se eu havia cagado, na maior boa vontade, querendo saber na verdade se eu estava melhor. Achei uma invasão de privacidade. Eu hein. Não ia ficar falando das minhas necessidades fisiológicas assim. “Eu não! Que idéia!”, respondi, querendo ser fino e dar a entender que isso de fazer coco não era a minha não. Queria ser desses. Sei que quando cheguei em casa e contei tudo para a minha mãe, ela passou algum tempo rindo antes de me medicar.

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