Ser correspondente internacional não é fácil não

Ser correspondente internacional não é fácil não
Repórteres da Globo e do SBT contam histórias das coberturas em outros países

Buscar um apartamento espaçoso e com aluguel barato, banco para abrir uma conta, carro novo, escola para o filho, operadora de celular, Seguro Social e, isso tudo, enquanto conhece a cidade que agora é a sua nova moradia. Assim tem sido os dias de Flavio Fachel, 44, recém mudado para Nova York para integrar o time de repórteres da redação americana da Tv Globo.

Ele, que agora passa a ser remunerado em dólar, ganhou da empresa uma semana livre para se instalar no novo país. Esse foi o máximo de colaboração que recebeu. É como aconteceria no Brasil: a empresa paga o salário e o funcionário se vira com questões como moradia e transporte. O que vale para o trabalho aqui, vale para outras partes do mundo.

No seu primeiro dia de trabalho na Big Apple, chegou atrasado no escritório da emissora. “O metrô resolveu brincar comigo: fiquei esperando 50 minutos pelo trem”, conta com bom humor. Durante esse tempo todo na estação, viu lixo acumulado e ratos passeando pelo trilho. É assim mesmo. Ninguém disse que a vida de um correspondente internacional era glamurosa, disse?

Ainda assim, se trata de um dos postos mais almejados no jornalismo e resultado de muito trabalho. Marcos Losekann, 44, só chegou lá depois de 16 anos de profissão. E diz que geralmente é esse o processo: o repórter de rede que se destaca é convidado a fazer as matérias internacionais. Ele trabalhou em Londres de 2000 a 2004, quando foi transferido para Jerusalém. Foi o primeiro correspondente brasileiro no Oriente Médio. Em 2006, voltou a Europa, e, desde então, é o chefe do escritório londrino da Tv Globo.

Marcelo Losekann cobriu a guerra entre Israel e Líbano em 2004

Com certeza, tem muita história para contar. Marcos já passou maus bocados durante as reportagens no exterior. Quando cobriu a guerra entre Israel e Líbano, em 2004, quase foi atingido por um míssil libanês: “Graças a Deus, foi só um susto”.  Segundo ele, situações perigosas como essa são mais comuns do que se pensa na cobertura de conflitos internacionais.

Marcelo Torres, 34, correspondente do SBT em Londres há cinco anos, concorda com Losekann. Ele já foi quase assaltado ao gravar em uma área que não sabia ser perigosa. Este e outros cuidados são ressaltados por Torres quando se trabalha em outro país. Segundo ele, as práticas jornalísticas funcionam diferentemente no exterior. Na Inglaterra, por exemplo, tudo precisa ser marcado com muita antecedência, o que requer um planejamento muito maior. “Tudo é mais burocrático aqui”, explica.

Mas vale o esforço. Quando uma emissora envia um correspondente para o exterior, as reportagens são feitas sob o ponto de vista de um brasileiro. Ela deixa de ficar restrita ao material das agências de notícias, que têm um filtro muito americano ou europeu. “Um correspondente capta imagens e entrevistas que de alguma maneira facilitam a compreensão do público no Brasil”, diz Marcelo.

É do brasileiro, aliás, que os repórteres sentem mais falta na hora de compor suas matérias. Rodrigo Alvarez, 35, correspondente da Tv Globo nos Estados Unidos e autor do livro No País de Obama, sobre os bastidores da cobertura da última eleição presidencial americana, diz que sente uma diferença muito grande entre gravar lá e no Brasil. “O americano é muito pragmático e sempre quer saber o que ele vai ganhar fazendo aquela matéria”, explica. O brasileiro é mais disposto a colaborar.

No seu livro, ele fala mais sobre o aspecto cultural. Alvarez diz que, certa vez, passou quatro horas gravando uma matéria e o entrevistado havia sido tão simpático que, na hora de se despedir, achou natural dar um abraço. “Ele se esquivou e apertou firmemente a minha mão. Tomei aquilo como lição: americanos não abraçam”, lembra a decepção. Mesmo assim, com todos os prós e contras de se trabalhar no exterior, nenhum deles tem nenhuma reclamação a fazer. “É um trabalho completamente rico”, defende Rodrigo.

Curiosidades sobre o trabalho de um correspondente internacional

Marcelo Torres é correspondente do SBT na Europa

1- Para exercer esse cargo, o inglês é o mínimo necessário. “É imprescindível para ser respeitado durante as reportagens e mesmo para conseguir marcar entrevistas e entender as notícias”, explica Marcelo Torres.

2- As pautas surgem tanto no Brasil quanto nos escritórios internacionais. Marcos Losekann diz que as redações de Londres, do Rio e de São Paulo estão em contato diariamente: “Nossas reuniões são via web, por meio de um programa especial de áudio e vídeo, como o Skype, só que profissional.”

3- As matérias são enviadas já editadas, via satélite, para o Brasil. Isso só não acontece se for o caso de um material factual gravado em países onde a emissora não tem escritório fixo. Nesse caso, as gravações são enviadas pela Internet e podem vir ainda sem edição.

4- Para marcar as entrevistas e gravações em outros países, há ainda outra preocupação: apresentar, caso o entrevistado não conheça, a emissora nacional: “É preciso explicar a importância do veículo e a sua audiência”, diz Flavio Fachel. 

Escrito para a disciplina Laboratório de Jornalismo Impresso do curso de Jornalismo da UVA/RJ (2010)

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