Maluca do Gato

Morei a minha vida toda em vila e ano passado me mudei pra esse apartamento. Se tem algo que eu gostei nessa mudança é a falta de proximidade dos vizinhos. Não sei nome de ninguém, não reconheço ninguém na rua, não sei nada da vida de ninguém – e isso me soa diferente! Diferente e muito bom! Por isso, fui pego de surpresa quando, semana passada, uma vizinha me parou na escada, enquanto eu jogava o lixo fora.

– Você sabe se tem bicho aqui no andar?
– Hã?

Rola uma política aqui no prédio que proibe animais de estimação. E eu tenho um gato. Um gato que é tudo pra mim, diga-se de passagem. Eu e minha mãe vivemos nesse clima de apreensão escondendo o Nick da síndica. E, como eu disse, não conheço ninguém no prédio – nem sei quem é a síndica. Pra mim, ela já era aquela mulher da escada me interrogando.

– Tem bicho aqui no andar?
– Humm, acho que tem sim.
– Gato ou cachorro?
– Oi?
– Gato ou cachorro?
– Gato.
– Aonde?
– Pra lá.
– Sabe o apartamento?
– Huuuum, o meu.

Depois da confissão, já tava pensando: e agora? Mas aí a mulher começou a contar a história dela. Ela tinha acabado de se mudar e o seu gato (ela também tinha um! não ia me entregar! não era a síndica!) estava assustado e não comia há duas semanas. Foi colocado na sonda, mas voltou pra casa e seguia sem comer. Disse pra ela que gatos são muito ligados nesse lance de casa e que o meu tinha ficado assustado também quando nos mudamos. Mas acostuma, completei.

E aí, chega, né? Já tivemos nossos (longos!) dez minutos de convera da vida toda, pensei. Mas que nada, querido. De noite, ela veio tocar a campainha aqui de casa (eu nem sabia que tínhamos uma!). Sente a cena: ela, duas filhinhas pequenas, e um gato (na coleira!) batendo na porta aqui de casa na hora de Viver a Vida. Eu não estava aqui e minha mãe as atendeu surpresa, sem entender muita coisa. A mulher queria ver se o gato dela socializava com o meu e se sentia melhor. Minha mãe riu, mas deixou a galera entrar. Meu gato não socializou com ninguém, porque ele não é desses. Minha mãe? Perdeu a novela.

– Socializar? Eu?

No dia seguinte, rimos um bocado da Maluca do Gato, como a apelidamos. E não demorou muito ela batia na porta daqui de novo! Isso já tava ficando assustador. Dessa vez, eu atendi. De novo, veio ela, as duas filhas e o gatinho (pra quê isso, gente?). Abri a porta o suficiente apenas para verem meu corpo – sem deixar espaço para elas adentrarem. Eu hein. Mas aí comecei a perceber como elas se esticavam sobre mim para ver o meu gato. O retrato da incoveniência.

– Olha ali o gatinho! Tá assustado pensando ‘quando essa mulher entrar, vou fugir de novo’.

Ela jurava que ia entrar, gente. Não entendeu a senha da porta quase fechada sobre meu corpo. Respondi com hehe. Dei fim à conversa e fui fechando a porta. Tchaaaau!, me despedi. Porta fechada, ouvi ela falar no corredor:

– Que falta de educação!

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