Subi a Rocinha. E nem me drogo.

– Como faço pra ir daqui da Barra pra Gávea? Tem ônibus?
– Tem van.
– Ah, então ótimo.

E foi o que eu fiz, né. Confio nos meus amigos. Se van é a boa, foi van que eu peguei. Tava eu lá indo em direção a São Conrado, sentadinho na van, morrendo de sono, mas me segurando pra me manter acordado. Meu destino era o Shopping da Gávea e, como não vou com frequência, precisava estar acordado pra sacar a hora de descer.

Então, quando chegamos em São Conrado, notei que quase todo mundo desceu da van. Pensei: São Conrado tá bombando com a galera da van. Mas eu não tava nessa e continuei lá dentro. Foi então que notei o motorista apagando todas as luzes do carro, pegando o rádio e avisando a alguém:

– Tamos subindo a Rocinha.

Momento de tensão. Se prisão de ventre eu não tivesse, eu tinha me cagado todo naquele momento. Paralisei. Como assim subindo a Rocinha, gente? Isso não é o tipo de informação que deveria vir escrito na frente do carro em letras garrafais?

Essa van passa na Rocinha!

Que nada! Eu já não sabia se estava rolando um sequestro ou se aquilo fazia parte do trajeto. Subir a Rocinha? Nunca imaginei isso na minha vida. Ainda mais assim, sem preparo psicológico, pego de surpresa. Comecei a rezar, afinal podia começar um tiroteio a qualquer momento. E se começasse, era bom Deus estar focado em mim. Rezei frenético.

– Pai Nosso que estás no céu, santificado seja o vosso nome (…) Pai Nosso que estás no céu (…) Pai Nosso que estás no céu (…) Pão nosso que estás no céu…

Pão nosso? Eu tava me cagando. Não sabia nem mais rezar. E a vontade de chorar? Imensa. Desespero. Mas não podia, né. Vai que na van tinha algum morador da co-mu-ni-da-de. Tenso. E não parava de subir, gente. Não imaginei que subiríamos tanto. Agora eu entendia o porque dela ser a maior favela da América Latina. Não acabava nunca. Me lembrei dos turistas. Qual a graça d efazer tour ali? Eu não tava vendo nenhuma. Eu tinha certeza que iam saquear a van a qualquer momento. Isso se o tiroteio não começasse antes. E a gente não parava de subir!

As ruas eram muito estreitas e faziam as duas mãos. De quem foi a idéia de fazer aquilo de duas mãos? Mal dava pra uma. Estava acontecendo um engarrafamento. Engarrafamento na Rocinha. Era tudo que eu queria. Eu saí de casa determinado a ficar preso num engarrafamento na Rocinha pra quando começasse o tiroteio eu não ter como sair de lá. É isso. Que parada louca!

Começamos a descer. E mais engarrafamento. O cara do meu lado acordou.

– Ué! Essa van não ia pra Gávea?
– É. Ia.
– Não vai mais? A gente tá fazendo o quê na Rocinha?
– Não sei.

Eu não tava pra papo. Iniciar uma amizade numa van na Rocinha não era uma meta de vida. E descemos, descemos, descemos. Olhava pro lado e as vezes via a vista das coisas lá embaixo. Estávamos bem no alto. Climão. Quando chegamos lá embaixo, até respirei fundo. Saí ileso do tour.

Dica: quando todo mundo saltar em São Conrado, salte também. É a boa.

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2 respostas para Subi a Rocinha. E nem me drogo.

  1. Thatiana

    GENTEEEEEEEEEE DEFINITIVAMENTE O MELHOR POST ATÉ AGORA!!! Não consigo parar de rir!!! As melhores foram: "São Conrado tá bombando com a galera da van",…e se começasse, era bom Deus está focado em mim", "Iniciar uma amizade numa van na Rocinha, não era uma meta de vida".Mas fora isso tudo, imagino como deve ter sido tensoooo!!!ps: só você!

  2. Felipe Labriola

    HUSHUAHSHUHAUHSU, ri demaaais !Ah, eu tenho vontade de saber como é, deve ser interessante, só passar.HUSHAUHS, voce nao existe!

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