75 centavos pra pagar o ônibus

Passei a última aula da manhã rabiscando o caderno, conversando e – quando a professora reclamava da conversa paralela – passando bilhetinhos. Portanto, quando a aula acabou, senti que aquele seria o melhor momento do dia. Saí correndo pro ponto de ônibus doido pra chegar em casa, tomar um banho e almoçar. Nessa ordem.

Logo que cheguei ao ponto, chegou meu ônibus. Pensei: hoje é meu dia de sorte, arrasei. Entrei todo feliz, com meu casaquinho vermelho, meu óculos escuros e meu fone de ouvido bombando ao som de What the world needs now, tema da Helena.

– Helena, Helena, Helena. Tuuudo Helena!

Abri a carteira e… nenhuma nota lá.Comecei a revirar. Tinha certeza que havia dinheiro lá. Afinal, eu não ia sair de casa sem grana. Ia? Mexe daqui, mexe de lá, olho sem graça pro cobrador e pros outros passageiros. Dou a vez pras outras pagarem suas passagens. Começo a procurar por dinheiro nos bolsos. Tem também não. Quem roubou o meu dinheiro? Abro a parte de moedas da carteira. Deve ter moedas suficientes pra pagar a passagem. São só R$2,20, afinal de contas.

Uma moeda de 50 centavos. Uma de 10. Três de cinco. Só. 75 centavos. Olho ao meu redor pra ver se as pessoas tão percebendo o que tá acontecendo. Será que tão achando que tô dando um golpe? Será que estão com pena de mim? Achando graça? Eu estaria achando graça e certo de que era um golpe. Que pessoa péssima eu sou. Penso sempre o pior. Como vou sair dessa?

– Esse ônibus vai pro Centro, né?
– Não. Vai pro Méier. Pro Centro é do outro lado da pista.

Em outra situação, eu lançaria um ‘sério?’, dando continuidade ao teatrinho. Mas ali tudo que eu queria era acabar logo com aquilo.

– Preciso ir pro Centro! Deixa eu descer então! Obrigado!

E corri pro caixa eletrônico mais próximo.

De sapo para múmia

Peguei o chaveiro da minha amiga numas de fazê-la de bobinha. Joguei pra outra menina, que me jogou de volta e a dona das chaves era a figura da otária naquele momento. Então, ela saiu correndo atrás de mim. Corri fugindo dela, rindo um bocado e gritando: bobinha! bobinha! bobinha! Tava me sentindo o esperto até o o momento que pisei em falso e caí. Ela veio e pegou as chaves. Comecei a chorar. Tinha torcido o tornozelo. Doía horrores.

Resultado: enfaixei a perna.

Passei a ir pra escola com um pé com tênis e o outro com calçado especial para pés enfaixados, que ficam enormes e grossos. Puro estilo. Mas eu não tava nem aí não. Minha única frustração é que eu prefiria que tivessem engessado. Na faixa, meus amigos não podiam escrever recadinhos e pixações com canetinhas coloridas.

O final do ano se aproximava e eu era do grupo de teatro. Íamos apresentar aquela peça que a princesa beija o sapo e ele vira príncipe. E o meu papel era muito importante. Eu sempre pegava papéis de destaque na escola. Dessa vez eu era o príncipe. O príncipe em sua forma anfíbia. Eu era o sapo, gente. Climão. Perdi o papel principal só porque o outro garoto era loiro dos olhos azuis. Injustiça.

Mas eu tava gostando. Quem recebia o beijo da princesa era eu. Só que, como sapo, eu tinha que andar dando aqueles pulos ridículos de… sapo! E eu estava com a perna enfaixada. Não dava, né. Mas prometi pra professora que tiraria aquilo no dia da apresentação. Afinal, eu era muito profissional, mesmo quando estava no segundo elenco.

Um dia, depois de uma série de ensaios, o pessoal resolveu brincar. Queriam jogar queimado. Falei que não dava pra mim. Inventaram de jogar três cortes.

– Três cortes você não vai mexer a perna! Só as mãos pra rebater!

E é claro que eu achei a idéia maravilhosa. Lá fui eu jogar três cortes.

Uuuuuuuuuuum,
dooooooooooois,
trêêêêêêêêês!
PAFT!

Cortaram em mim. E eu fui tentar agarrar a bola. Pra quê? Jogaram-a muito forte. Não consegui. Meu dedo do meio foi levado 180º pra trás. Chorei. Torci o dedo. Enfaixei a mão também.

Dica: não aceite idéias de quem não te quer bem.

O resultado? Fui um sapo assim:

– Me beija, princesa.

Sem saco para novas amizades

– Sou de São Fidelis.
– Desconheço.
– Interior do RJ.
– Desconheço.
– Pô, a cidade do festival da lagosta.
– Desconheço esse festival, cara. Desiste.
Não quero ser seu amigo, colega.

Presente especial

Você não vê o amor da sua vida há quase um mês, porque achou que seria o melhor para vocês se afastarem. Só que o seu aniversário tá chegando e, bem, você ainda o ama. O que você faz? O convida, claro. E mais: faz questão da presença. Às vésperas do seu aniversário, vocês voltam a se falar. Você, pela enésima vez, pensa: agora vai ser diferente.

Dica: Nunca é diferente. Diz aí, Paramore!
– Second chances they don’t matter, people never change.

O que acontece? O dia do seu aniversário chega e você acha que a sua paixão vai estar lá pra te dar aquele apoio num momento de crise por estar envelhecendo. Que nada. A sua paixão vai, sim. Afinal, ela não ia te dar um bolo. Ela vai e leva um cara com ela. Climão. Você, muito fino, cumprimenta a todos tentando afastar maus pensamentos da sua mente. É óbvio que o amor da sua vida não faria isso com você. Quem tava ali com ele era apenas um amiguinho. Né?

Vocês logo ficam sozinhos, você puxa um papo, seu amor não dá continuidade. Climão. Você tenta de novo. Nada. Não entende o que tá acontecendo. O que faz uma pessoa ir ao seu aniversário e não falar direito com você? Mas a noite é sua e você não vai ficar se frustrando. Corre pros braços dos seus amigos duplamente em crise: tá ficando velho e sendo gongado. Assim não dá.

E aí você percebe o óbvio: o amor da sua vida está todo envolvido com o garoto que ele levou. Numas de andar de braços dados e mostrarem o quanto são felizes juntos. Triplamente em crise: velho, gongado e sacaneado. Isso tudo numa noite só. O que você faz? Pega o celular e…

– Mãe, estou sendo muito gongado no dia do meu aniversário. Me salva.

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JORNAL EXTRA – Dia desses, uma modelo desconhecida foi ao Budah Bar, em São Paulo, assistir ao show de um grupo. Ela acabou conhecendo um famoso filho de um sertanejo. Eles foram para o flat do rapaz, no bairro dos Jardins, e transaram. No dia seguinte, a jovem foi acordada por um VJ da MTV a xingando de nomes como “vagabunda” e “piranha”. O filho do sertanejo assistiu a tudo impávido, sem fazer absolutamente nada. Depois, a moça foi entender: o músico é namorado do VJ.
– Viu o que tão falando de mim, mãe?

Eu tenho ingresso, só não tá comigo

Dia das crianças de 2002. Tinha certeza que aquele era o dia mais feliz da minha vida. Tinha acabado de sair do camarim de Sandy e Junior no Maracanã e não tinha chorado (minha mãe havia dito que eu ficaria horrível se saísse chorando na foto)! Eu mal podia acreditar. Agora, o carinha da Central de Fã Clubes nos levava para o gramado. Era a primeira vez que eu ia ao Maracanã.

Foi inevitável dar um giro de 360º com a boca aberta quando chegamos no gramado. Tudo tão grande. Tão cheio de gente. Assustador. O carinha levou todo mundo para um setor lá atrás, muito ruim. Não era ali o meu lugar. Eu tinha comprado ingresso para a primeira fila. A minha mãe estava lá esperando por mim.

– César (era esse o nome dele), você disse pra minha mãe que você ia me levar até ela depois do camarim, lembra?
– E cadê ela?
– O nosso setor é o VIP PREMIUM.
– Você tá com o ingresso?
– Não. Tá com ela.
– Assim não dá! Não posso entrar com você lá sem o ingresso! Você tinha que ter pego!

O-ou. Climão. Fazia sentido o raciocínio dele. Mas pegar o ingresso era a última coisa que eu pensaria minutos antes de ir conhecer a Sandy e o Junior. E agora, José? Liguei pra minha mãe. Vivo não tava funcionando lá. Quem patrocinava o show era a Oi. Daí já viu, né. Não conseguia contato com mamãe. Fui andando pra entrada do Vip Premium numas de acenar pra ela.

De onde eu tava, eu nem a via. Contei o meu drama pro recepcionista do setor. A príncipio, ele não acreditou, mas diante da minha insistência, ele chamou outros funcionários. O cara perguntou qual era a cadeira que minha mãe estava. Eu disse. Ele foi lá chamar ela. Voltou sem ela. Não a encontrava. Repeti. Ele foi e voltou várias vezes e nada. As vezes, o Maracanã começava a gritar. Parecia que o show ia começar. Ficava desesperado. Quase chorando. O recepcionista do setor falou:

– Olha, garoto, vou fingir que não tô vendo, aí você pula essa grade e vai encontrar a sua mãe.

Adorei a idéia, né. E lá fui eu pular. Só que, gente, eu nunca fui bom com nada radical. E pular grade, pra mim, é radical. Torci o meu pé. Chorei. E, sentindo o filho em apuros, apareceu a minha mãe.

– Que que você tá fazendo aí? Tô te esperando há um tempão! Nosso lugar é ótimo! Vem!
Sandy e Junior ignorando meu sofrimento – tipo a minha mãe

E aí o show começou. E eu esqueci que meu pé tava doendo. Afinal, eu era fã.

No escurinho do cinema

Tava no cinema com Marina. A Manzano tava atrasada e disse que era melhor nós entrarmos e, quando ela chegasse, levassemos o ingresso dela lá na porta. Beleza. Tava eu e Marina lá, já tinham se passado 15 minutos do início da sessão e nada da outra ligar. Peguei o celular indignado, tava lá:

Manzano is calling.

Atendi. E Manzano estava puta, dizendo que estava esperando lá fora. Não entendi nada. Não era exatamente esse o combinado? Fui levar o ingresso dela. Saí da sala, olhei pra um lado, olhei pro outro, nada dela. Cadê essa garota, gente? Nada dela. Já tava voltando pra dentro da sala, quando a avistei, longe, caminhando a passos de formiguinha.

– Vambora!
– Tô te ligando há um tempão e você não atende! Já tava indo embora!
– Deve tá no silencioso o meu celular. Só vi agora.
– E não vibra não?
– Se tá no silencioso, é óbvio que não vibra. Vamos!

Mostramos os ingressos e entramos. A sala tava numa escuridão nível prova de liderança do BBB. Sério. Sem brincadeira. Eu não conseguia ver nada. Fui andando me apoiando nas poltronas das pessoas. Andei, andei, andei. No escuro, os caminhos parecem mais longos, penso eu.

– Manzano, tá vindo?

Não obtive resposta. Perguntei mais uma vez e nada. Segui andando. Cheguei no corredor. Sabia que tinha que entrar naquele corredor. Entrei e andei. Fui pra frente. Fui pra trás. Não achava a Marina. Que ótimo. Perdido numa sala de cinema. Sem uma nem outra. Peguei meu celular pra iluminar. Iluminei a cara de um monte de gente e nada de achar Marina. Climão. As pessoas começavam a ficar incomodadas comigo. Que merda. Logo agora que eu planejava gritar Mariiiiiina! Manzaaaaano! Cadê vocêêêês? e me direcionar à voz mais próxima. Continuei iluminando um e outro, sem sucesso. Não havia sequer um lugar vazio no meu campo de visão para eu desistir de procurá-las e me sentar.

Foi então que Marina fez a fina e pegou o celular dela. Vi o rosto dela iluminado. A iluminada, dá nome de novela. Corri pra perto dela e me sentei.

– Cadê a Manzano?
– Perdi.

Subi a Rocinha. E nem me drogo.

– Como faço pra ir daqui da Barra pra Gávea? Tem ônibus?
– Tem van.
– Ah, então ótimo.

E foi o que eu fiz, né. Confio nos meus amigos. Se van é a boa, foi van que eu peguei. Tava eu lá indo em direção a São Conrado, sentadinho na van, morrendo de sono, mas me segurando pra me manter acordado. Meu destino era o Shopping da Gávea e, como não vou com frequência, precisava estar acordado pra sacar a hora de descer.

Então, quando chegamos em São Conrado, notei que quase todo mundo desceu da van. Pensei: São Conrado tá bombando com a galera da van. Mas eu não tava nessa e continuei lá dentro. Foi então que notei o motorista apagando todas as luzes do carro, pegando o rádio e avisando a alguém:

– Tamos subindo a Rocinha.

Momento de tensão. Se prisão de ventre eu não tivesse, eu tinha me cagado todo naquele momento. Paralisei. Como assim subindo a Rocinha, gente? Isso não é o tipo de informação que deveria vir escrito na frente do carro em letras garrafais?

Essa van passa na Rocinha!

Que nada! Eu já não sabia se estava rolando um sequestro ou se aquilo fazia parte do trajeto. Subir a Rocinha? Nunca imaginei isso na minha vida. Ainda mais assim, sem preparo psicológico, pego de surpresa. Comecei a rezar, afinal podia começar um tiroteio a qualquer momento. E se começasse, era bom Deus estar focado em mim. Rezei frenético.

– Pai Nosso que estás no céu, santificado seja o vosso nome (…) Pai Nosso que estás no céu (…) Pai Nosso que estás no céu (…) Pão nosso que estás no céu…

Pão nosso? Eu tava me cagando. Não sabia nem mais rezar. E a vontade de chorar? Imensa. Desespero. Mas não podia, né. Vai que na van tinha algum morador da co-mu-ni-da-de. Tenso. E não parava de subir, gente. Não imaginei que subiríamos tanto. Agora eu entendia o porque dela ser a maior favela da América Latina. Não acabava nunca. Me lembrei dos turistas. Qual a graça d efazer tour ali? Eu não tava vendo nenhuma. Eu tinha certeza que iam saquear a van a qualquer momento. Isso se o tiroteio não começasse antes. E a gente não parava de subir!

As ruas eram muito estreitas e faziam as duas mãos. De quem foi a idéia de fazer aquilo de duas mãos? Mal dava pra uma. Estava acontecendo um engarrafamento. Engarrafamento na Rocinha. Era tudo que eu queria. Eu saí de casa determinado a ficar preso num engarrafamento na Rocinha pra quando começasse o tiroteio eu não ter como sair de lá. É isso. Que parada louca!

Começamos a descer. E mais engarrafamento. O cara do meu lado acordou.

– Ué! Essa van não ia pra Gávea?
– É. Ia.
– Não vai mais? A gente tá fazendo o quê na Rocinha?
– Não sei.

Eu não tava pra papo. Iniciar uma amizade numa van na Rocinha não era uma meta de vida. E descemos, descemos, descemos. Olhava pro lado e as vezes via a vista das coisas lá embaixo. Estávamos bem no alto. Climão. Quando chegamos lá embaixo, até respirei fundo. Saí ileso do tour.

Dica: quando todo mundo saltar em São Conrado, salte também. É a boa.

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