Não sei usar o freio do patins

Sempre preferi patins à bicicleta, skate e patinete. Eu até teria um e patinaria todos os finais de semana se o meu pé tivesse um tamanho normal (calço 45). Mas eu já fui criança. Não que tivesse o pé pequeno. Naquela época, os tamanhos adultos me serviam. Patinei muito.

Uma vez, meu pai me levou pra patinar na Quinta da Boa Vista. Essa foi uma das poucas vezes que ele acertou no passeio do fim de semana. Lembro que ele se sentou em um dos banquinhos logo na entrada do parque e eu fui patinar pra bem longe dele. Patinando e longe do meu pai: eu era um garoto feliz naquele momento.

Lá é cheio das ladeiras e a minha maior diversão era descê-las a toda velocidade. Toda hora as subia para poder descer de novo. Era uma sensação ótima. Eu era levado por aquelas rodinhas. A velocidade ficava fora do meu controle. Adorava. Mas o problema foi justamente esse. Numa dessas descidas, não consegui parar.

Dica: aprenda a usar o freio do patins antes de querer patinar por aí.

Eu continuava indo a toda velocidade na direção de uma vendedora de refrigerantes. Para, para, para! Não dava mais tempo pra desviar. Para, para, para! A velocidade sequer diminuía. Eu ia destruir o isopor dela, não ia? Paaaaaaara! Não tinha saída. E fui. Cada vez mais perto da vendedora e seu isopor. Minha única dúvida agora era: se eu cairia sozinho ou a levaria junto pro chão comigo.

Cheguei com tudo no isopor dela e não caí porque ela me segurou. Agradeci. Perguntou se eu tava bem, toda preocupada. Fofa. Cheguei um pouco pra trás e vi que eu tinha quebrado o isopor dela. Começou a jorrar água. Ai, meu Deus. Ela também viu o buraco no isopor. Mudou a cara. Me fuzilou. Ai, meu Deus, cadê meu pai? Eu sabia que não ia dar certo isso de patinar sozinho. A mulher começou a dizer que eu ia ter que pagar. Pagar o quê, gente? Louca! Não tenho dinheiro não. Fiz cara de ‘fudeu’ e saí patinando na maior velocidade.

É, eu fugi. Fugi horrores. Ela gritava ‘você destruiu meu isopor! vai ter que pagar! vai ter que pagar!’, mas agora o som já estava distante. Cada vez mais distante. E mais e mais e mais. Eu estava na maior velocidade que eu podia. Até que não ouvi mais nada. Olhei pra trás, não a vi. Eu tinha escapado.

Me sentei com meu pai no banquinho.

– Já cansou?
– Cansei.
– Mas já?
– Já.

Adultos: sempre com perguntas demais. Minha estratégia era ficar ali com cara de tédio por uns cinco minutos e depois começar a reclamar de fome. E então iríamos almoçar, bem longe daquela mulher.

Mas ela chegou. De surpresa. Do nada. Quando vi, já estava ali na nossa frente me acusando. Climão. Meu pai deu um cala-boca pra ela e ela foi embora toda serelepe. Voltei a patinar, mas pra outra direção.

P.S: Essa não foi a última vez que quebrei o isopor de um vendedor ambulante. E nem meu último mico na Quinta da Boa Vista.

4 respostas para Não sei usar o freio do patins

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